Compreender o fenómeno Trump

A vitória de Donald Trump surgiu como uma enorme pancada na política americana, humilhando adversários e uma indústria inteira de consultores, conselheiros, pollsters e comentadores televisivos do chamado mainstream. O amadorismo e o caos da sua campanha ficam para trás, segue-se agora o impacto do programa de Trump com as instituições e a máquina que tanto criticou. No entanto, desengane-se quem pensa que será um desastre completo que culminará em destituição, é pouco provável. Trump sabe que tem em mãos a maior potencia hegemónica mundial de sempre, com um poder militar muito superior aos restantes rivais e uma muito relevante capacidade económica, que pouco a pouco recupera da crise financeira de 2008.

Sim, Trump usou métodos pouco ortodoxos, algumas vezes irrealistas, outras vezes a roçar o racismo e o sexismo, mas a verdade é que este nova iorquino começa a mostrar sinais de se começar a moldar com a realidade. Trump tinha o objetivo de atrair uma classe social em declínio económico, o homem branco, algo esquecido pelas políticas americanas progressistas e viradas para os grandes centros urbanos. O plano foi conseguido, e qualquer que seja a posição relativa ao sistema eleitoral americano (Hillary Clinton com mais de 2 milhões de votos), Trump uniu à sua volta o típico votante republicano, cristão, conservador e todos os seus subgrupos, principalmente localizados no interior e em zonas rurais, e ganhou justamente e legalmente estas eleições. Tudo a seu tempo. Analisando as políticas de Trump, e depois da histeria inicial, o populismo eventualmente colapsa no meio das suas próprias contradições.

Começando no Obamacare, tanto criticado por Trump e republicanos, a sua revogação significaria 20 milhões de americanos sem seguro de saúde. Sabemos agora que Trump aprecia algumas medidas do Obamacare e irá manter a maioria do plano de saúde de Barack Obama, contradizendo a sua promessa eleitoral. Relativamente ao ambiente, em campanha era um ávido discordante das alterações climáticas provocadas pelo homem, prometendo rasgar o Acordo de Paris (impossível) e referindo que o aquecimento global é uma fraude dos chineses para minar a indústria americana (a Administração Reagan/Bush foi a primeira a promulgar medidas contra as alterações climáticas).

Agora, já admite poder haver ligações entre as mudanças do clima e a atividade humana. Outra das suas principais bandeiras é o corte nos impostos às empresas, dando um novo fulgor aos negócios americanos. No entanto, estes cortes seriam financiados pelo défice e iriam aumentar a divida nuns incríveis 25%. E mais, esta medida não é nova de todo, sendo que no passado apenas os mais ricos beneficiaram deste tipo de política. Para mais facadas no trabalhador comum americano, podemos analisar as políticas das super tarifas a produtos chineses, mexicanos e canadenses. Este protecionismo típico de século passado (sem ofensa) iria empobrecer ainda mais as classes mais desfavorecidas americanas, pois são estes os grandes beneficiantes de produtos importados mais baratos, para não mencionar que uma guerra comercial iria encaminhar a economia mundial para mais uma recessão.

Outra das grandes bandeiras de Donald foi a deportação de mexicanos ilegais e a construção do muro (que obviamente não vai acontecer). A deportação de 11 milhões de imigrantes ilegais já passou para apenas 3 milhões com cadastro (possivelmente irá descer ainda mais). Não podemos esquecer que este estrato da população assegura autenticas economias em vários estados americanos, pelo que a sua deportação significaria graves crises – exemplo da agricultura e dos serviços na maioria dos estados do sul.

Trump até voltou atrás na condenação a Hillary Clinton, antes o diabo, agora uma senhora de coragem e muito inteligente. Apesar de tudo, este não é de todo um artigo de critica a Trump, é uma amostra de como é o ambiente envolvente que molda o político e não o contrário, pelo menos na maioria das vezes. O Presidente dos Estados Unidos da América está tão limitado como sempre esteve, no meio das instituições americanas, das restantes potências mundiais, dos tratados assinados, dos problemas económicos, ambientais e sociais.

Trump irá trabalhar com aquilo que tem à mão. Acredito que poderá fazer reformas importantes, principalmente ao nível do combate à promiscuidade corporativa na política americana, mas não acredito que fará a América grande outra vez, porque esta nunca deixou de ser grande. A realidade irá julgar a sua presidência. Ainda assim, o populismo mina a sua margem de manobra. Em relação ao povo americano que votou em Trump, sairá decepcionado, mas pouco mudará. «I love the poorly educated».

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