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Não haverá, porventura, ninguém que num dado momento da sua vida não tenha sonhado com o mundo do cinema, fazer parte do mesmo! No que, pessoalmente, me toca, a «febre» respetiva teve lugar logo no início da adolescência, num tempo dos «cinemas paraísos» de Giuseppe Tornatore, sonhando ser um Joselito contracenando com uma Marisol! Dado que não me vi, contudo, brindado, antes pelo contrário, com uma voz de «rouxinol» como a de Joselito, capaz de encantar, quando não, fazer chorar, plateias inteiras, ao interpretar canções como a «La Campanera» ou a «Pequeña Flor», muito menos sendo possuído do seu ar angélico, o sonho, se cedo nasceu, cedo se esfumou, sem que ninguém, frustrantemente, haja dado por mim enquanto potencial estrela cinematográfica. No entanto, deve-se reconhecer quanto os tempos, hoje, são outros.

Hoje, qualquer um, vulgarizadas que foram as câmaras de filmar, nomeadamente com a sua incorporação nos telemóveis, pode, sem necessidade de passar, previamente, pela prova de um qualquer «casting» ou frequência duma escola de cinema, não só ser ator, filmando-se a si próprio em modo «Automático» e definição «4K», como, inclusive, aspirar à condição de realizador, sobretudo de documentários «super-realistas», com difusão imediata dos seus trabalhos pelo mundo inteiro via youtube, facebook e outros canais similares, incluindo televisões vivendo em crise de tesouraria!

Daí, não ser de estranhar, por exemplo, face a qualquer tragédia, ver-se um cada vez maior número de cineastas, de telemóvel em punho, a registá-la! Dá-se um acidente de viação? A primeira a coisa a fazer é filmá-lo, depois logo se chama o 112! Há um atentado bombista? Reação primeira, filmá-lo e só, depois, prestar assistência às vítimas, se, ainda, se for a tempo disso! Há um grande incêndio? Filmá-lo, antes de se chamar os bombeiros!

Por aí fora… Tudo isto, porque, neste domínio documental, rapidamente se intui que quanto mais as imagens forem chocantes, mais audiências se conquistarão, carecidas que as pessoas andarão, certamente fartas de levarem uma vida monótona, de sentirem a adrenalina a correr-lhes nas veias! As coisas, pois, já não são como eram, já ninguém se poderá sentir frustrado por não ter acesso ao mundo do cinema, como um dia frustrado este escriba se sentiu.

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