Borboleta do mar

Vinha no jornal que o Euromilhões saiu em Armação de Pêra. Na praia, os homens do mar não sabem a quem. A sorte grande é um mistério em terra, juram. Uma vez, «saiu em Olhão a um motorista de pesados», dizem-me. O sortudo «até ofereceu um camião novo ao patrão! Depois foi-se embora» sem rumo, nem regresso.

A conversa anima a manhã e o amanhar das redes. Fala-se de fortuna, das falcatruas dos bancos e dos cêntimos para o petisco.

É que este verão, Francisco Nascimento, lembrou-se de recolher pequenos despojos da pesca para os vender aos turistas.

Em duas mesas de plástico na areia, expõe búzios, ouriços-do-mar, carapaças de santola, vieiras, corais, estrelas-do-mar e conchas diversas. Tudo limpo à mão, «com produto para tirar a sujidade».

Chamam-lhe «Chico borboleta», como o nome do seu antigo barco. É pescador desde os 14 anos. Diz-me que fez 80 há poucos meses. «Está a ver? Está a ver como tudo isto é nascido do mar? Nasce tudo do mar!», repete-me num fascínio de sempre.

Como é que este extraordinário homem que já viu tudo, ainda se fascina com as coisas simples?

A sua mercadoria vem nas redes, nos covos do polvo, nas artes de todo o peixe.

«Estas moedas chamam-se sapatas. Estão dentro do miolo dos búzios. A gente põe ao fogo, coze, e com uma agulha arranca isto. Há pessoas que põem nos brincos. Outras fazem anéis, já tenho visto», continua.

Os preços são simbólicos: «é o que eles querem dar».

As conchas grandes também fazem sucesso. «Em Armação de Pêra chamam-se xoxa de velha, é um nome antigo. Também há quem chame ferro de engomar», explica.

Entretanto chega o barco do Manuel, o pescador desconfiado, olhar de poucos amigos e polvo vivo no balde.

O homem não perde tempo. Salta do barco para o tractor que o resgatou do mar. Corre até à lota. A carrinha da associação já está à espera para levar a faina. O polvo ser vendido em Portimão, no mercado. O homem não gosta de estranhos. Odeia fotografias e manda-me à fava. E vou. Até porque hoje já me saiu o Euromilhões, em fascínios e homens ricos de coisas simples…

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