As vistas de Olhão

O sentimento que todos os habitantes de Faro têm, sobre o esplendoroso cenário da Ria Formosa, é de um grande desgosto e de um sentido de perda, isto devido à construção, há um século, da linha de caminho-de-ferro e do aterro que o suporta, e que secou para sempre a frente ribeirinha da cidade.

Por isso, quando qualquer farense se desloca a Olhão não deixa de sentir com particular fascínio essa magnífica paisagem das ilhas, dos sapais, dos barcos de pesca, do pôr-do-sol a esconder-se na profundidade do horizonte, um cenário sempre mutante e fecundador de sentimentos que tocam a nossa secular alma atlântica.

Esta benesse que Olhão detém é uma marca seminal da sua identidade, tendo a sua população sido moldada na contemplação dos barcos e das marés a partir do cais, das açoteias e dos mirantes.

Por isso é com indescritível incredibilidade que me confronto com o último projeto da Câmara Municipal de Olhão que, em última análise, se traduz na vontade de emparedar completamente a frente ribeirinha de Olhão com o prolongamento da marina de barcos de recreio.

A marina que já atingiu uma dimensão despudorada, ao abarcar metade da zona marginal de Olhão, vai continuar o seu percurso estrangulador, mordendo nesta primeira fase já em concurso, os calcanhares ao mercado do peixe, para numa segunda fase que se perspetiva, se prolongar até ao cais de embarque para as ilhas, isto em função de ser essa a vontade do autarca, já assumida publicamente, arriscando selar, desta forma, o cenário imemorial das vistas para a Ria Formosa.

Esta situação de lesa-pátria, não é contudo assim tão surpreendente em função do histórico desta cidade. Há cerca de 25 anos, numa entrevista na televisão, o maestro Vitorino de Almeida afirmava a certa altura, que havia considerado Olhão eventualmente a cidade mais bonita do mundo, mas que na sua última visita ficara chocado ao constatar as mudanças terríveis que entretanto aí tinham ocorrido. O maestro notava a descaracterização profunda das habitações com a emergência de arrepiantes «azulejos de casa de banho», alumínios rutilantes nas janelas e nas portas, e os prédios desmedidos a despontarem por todos os lados.

Olhão, que aparece (ou aparecia) invariavelmente referido nos livros e compilações internacionais sobre arquitetura vernacular ao lado dos lugares mais relevantes do mundo, que se esculpia em reentrâncias de cal e misteriosas medinas, que foi musa do encantamento de João Lúcio e de Artur Pastor entre muitos outros, esta obra-prima da forma, da luz e da cor, tem sido, ao longo dos anos, deploravelmente descaracterizada, abastardada e mutilada, sem dó nem piedade, sob a batuta de presidentes da Câmara que demonstraram uma ignorância, insensibilidade e sabedoria-saloia de dimensão clamorosa.

Também a vigorosa população da terra não tem sabido, em função das dinâmicas da moda que nos tempos atuais são de uma abrangência totalitária, defender a sua cultura e os seus valores imemoriais. E assim chegamos à situação caricata e vergonhosa em que, neste momento, quem se bate pela integridade de Olhão, da sua arquitetura e da sua cultura, seja quase em exclusivo a comunidade estrangeira que ali se fixou nos últimos anos. Citemos, então, algumas das contribuições oficiais para o desfiguramento da cidade de Olhão:

• «Reboleirização» da Avenida da República, em tempos uma encantadora via romântica, com demolição de inúmeras e belíssimas casas e palacetes;

• Estado de abandono e decrepitude de muitos casarões e antigas fábricas, que se perfilam para serem abatidos como já aconteceu com muitos deles, e que, pela sua importância arquitetónica, seriam, em qualquer outro país civilizado, primorosamente reabilitados;

• O estado calamitoso em que os bairros históricos se encontram, totalmente descaracterizados, e onde a única intervenção lá ocorrida foi a introdução de um revestimento pedonal piroso quanto baste e um mobiliário contemporânea de uma dissonância a toda a prova. Salvam-se meia dúzia de casas reabilitadas por estrangeiros que voltaram às paredes caiadas e às janelas e portas tradicionais de madeira;

• A permissão para construir mais andares na primeira linha de casas o que irá acabar com as vistas para a Ria a partir de muitas açoteias da cidade;

• A permissão para a construção do Marina Hotel e apartamentos adjacentes, no lado poente, com uma volumetria e estilo arquitetónico incompatíveis com o peculiar tecido urbano de Olhão. Por fim, e infelizmente, teremos de acrescentar mais uma barbaridade a este lastimável rosário de incompetência, ignorância e falta de amor pela terra: o prolongamento da marina de recreio qual cobra constritora que irá sufocar, cada vez mais, a deslumbrante vista sobre a Ria Formosa.

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