«As Dádivas»

Na frequência da, então, designada Escola Primária, tive durante algum tempo aulas de «Religião e Moral», dadas pelo pároco da terra.

Entre outros ensinamentos que acolheram a minha simpatia, ressalta o de procurarmos que as nossas dádivas a quem delas, num dado momento, possa necessitar, sejam, sempre que possível, anónimas, não só para não podermos recolher qualquer agradecimento por algo que deveremos sentir como um dever, como não propiciar qualquer sentimento de estigma social a quem a dádiva se destina, resultante do confronto personalizado – este é rico e eu sou pobre – no momento do dar e receber.

Por isso, se adiro à ideia da entrega anónima, à porta dum supermercado e dentro das possibilidades de cada um, seja de um simples pacote de arroz ou de bolachas, a favor desta ou daquela instituição de solidariedade social, já tenho dificuldade em compreender quem publicita, publicamente, a oferta dum cheque, por mais «chorudo» que ele seja, a essa mesma instituição, ainda por cima com a informação complementar de que a respetiva angariação de fundos teve lugar num qualquer requintado jantar de casino ou após umas tacadas entre o tee e green, com umas taças de champanhe à mistura, numa exibição, aparente, do seu «superior» estatuto social, em oposição ao dos «pobrezinhos».

Tudo isto, sem prejuízo de entender que a mais digna dádiva deva ser feita através do pagamento justo de impostos, enquanto redistribuição da riqueza e instrumento de solidariedade para com os mais necessitados, sem haver necessidade de haver gente, humilhantemente, de mão estendida!

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