Apontar o dedo

Que fique desde logo claro que não quero repetir neste artigo o que já foi noticiado neste jornal, mas dar-lhe apenas um merecido eco. A associação Fungo Azul resolveu levar a arte às pessoas, através da exposição «Retratos na Ria», apostando em locais de exibição já frequentados e onde habitualmente não se encontra arte. A ideia não é nova. Mas é uma excelente ideia para repetir. E recorda-me o provérbio que diz que «se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha».

Neste caso, se o público não vai aos locais habituais de exibição de arte, a arte vai aos locais onde o público habitualmente está. Isto também é valido para a literatura. É o que tenho defendido e praticado na companhia de outros escritores e amantes da literatura que pensam e agem como eu.

Neste contexto há vários anos que leio em voz alta em bares, mercados e outros locais onde as pessoas habitualmente não estão à espera que a literatura aconteça. Devo ainda dizer que considerei os resultados sempre positivos e gratificantes, ainda que este tipo de ação tenha sido muitas vezes censurada por alguns dos meus pares, certamente mais reservados ou mais conservadores. Ainda no mesmo contexto, projeto há anos invadir as ruas com pequenos textos escritos por mim de propósito para os locais em que seriam expostos. Também muito me agradaria ver pequenos poemas ou versos ou aforismos ou outros textos espalhados por aí, em painéis, paredes, autocarros…

É isto, basicamente, como diria um amigo, que me apetece partilhar contigo, caro leitor, mas deixa-me ainda dizer-te algo mais.

Algumas pessoas têm-me abordado para dizer que gostaram de um ou outro dos meus artigos aqui publicados, até perfeitos estranhos, outros, pelo contrário, alertam-me para a banalidade e vacuidade dos mesmos, até amigos próximos. Agradeço a uns e a outros e deixa-me explicar-te, caro leitor, que me limito, por circunstâncias de espaço e de estilo, a apontar o dedo, cabendo a ti, se quiseres, o trabalho de olhar e ver mais longe. E não vou citar aqui o conhecido provérbio chinês que fala do sábio, do dedo e da lua, mas, retomando o tema principal, deixar-te com as palavras de Carlos Norton, amigo de longa data e companheiro de andanças que tais.

«Há muito tempo que acho que o Algarve é um sítio incrível em número de criadores e produtores, mas falha o elo seguinte. Para onde é que vai esse trabalho criativo, esse trabalho artístico? Às vezes, fica em casa, fica fechado em casa ou em salas e espaços que não são visitados. É preciso criar o hábito de mostrar, de convidar a fruir». Até à próxima, caro leitor.

Categorias
Opinião


Relacionado com: