Alumínio, o cancro dos centros históricos

O lamentável episódio da substituição das magníficas janelas de madeira por outras, de alumínio, no Solar dos Sárrias, atual sede da empresa Águas do Algarve, edifício notável de arquitetura Chã do século XVII, em plena Vila a Dentro, foi a gota de água que me fez decidir escrever sobre a principal ameaça que paira hoje sobre os centros históricos.

Trata-se da epidemia dos alumínios, que já é endémica há algumas décadas no Algarve, mas que se tem vindo a agravar ultimamente, e que está a aniquilar a integridade, a harmonia e o élan espiritual das zonas históricas, não só na nossa terra, mas em todo o Portugal.

A arquitetura é, nas palavras do professor Francisco Lameira, um dos principais baluartes de identidade de um povo. Os romanos, quando conquistavam uma cidade, destruíam o mais possível a sua arquitetura pois sabiam que era essa a melhor maneira de subjugar os seus habitantes, destituídos que ficavam dos seus referenciais culturais mais importantes.

No Algarve não são os romanos que estão a destruir as nossas cidades. Somos nós que, num estranho caso de autofagia, estamos a devorar-nos a nós próprios.

Com a saída da crise deu-se um incremento extraordinário nas manutenções e reabilitações nos centros históricos que, surprise, começaram de repente a ser valorizados.

Até há pouco tempo estas zonas eram desprezadas e foram abandonadas pela população que as rotulava de velhas, pobres e feias.

O problema é que esta apreciação relativamente às zonas históricas não se alterou substancialmente e a intenção de quem lá intervém, não é de reabilitar respeitando a identidade das casas, mas de alterar em função de um paradigma de modernidade que colide de frente com a essência e o cunho histórico de tais casas e edifícios. Entretanto, assistiu-se igualmente nos últimos anos a uma perda quase total dos conhecimentos relativos aos processos construtivos tradicionais, o que ainda mais dificulta a possibilidade de intervenções adequadas nas habitações.

Entre as perdas mais significativas temos os artesãos carpinteiros que durante séculos esculpiram portas e janelas de grande qualidade artística ajudando a alcandorar as nossas casas a objetos de assinalável valor estético. Aliás, o Algarve, que é pobre em monumentos, concentrava muito da sua riqueza patrimonial na extraordinária qualidade artística das suas portas e janelas, que são das mais elaboradas e complexas do país e das mais interessantes do mundo.

Contudo, muito pouca gente se apercebeu dessa circunstância e confrontamo-nos, hoje, com a destruição selvática desses elementos preciosos da nossa cultura, estando a ser substituídos por pavorosas portas e janelas de alumínio que por sua vez destroem com a sua presença o que resta do edifício (que na maior parte das vezes, convenhamos, já foi abastardado pelo cimento e pela tinta plástica).

Falemos, então, deste material. A extração e produção de produtos à base de alumínio constituem indústrias extremamente poluidoras tendo, inclusive, dado origem a uma das maiores catástrofes ambientais de sempre na Europa (Hungria em 2010). O custo da produção das janelas de alumínio pode ajudar-nos a compreender o quão este material é ambientalmente insustentável o que, em função das preocupações atuais com o ambiente, é um aspeto não despiciente.

Assim, a energia consumida para produzir material até à sua aplicação final é 560 vezes maior no caso do alumínio do que no caso da madeira (Mariano Vasquez Espi, Universidade politécnica de Madrid). O facto das janelas de alumínio serem mais baratas que as de madeira é um absurdo, mas não é difícil perceber quem paga esta disparidade: o meio ambiente.

Não é, pois, de estranhar que o alumínio seja dos materiais mais utilizados nos países do terceiro mundo, onde os parâmetros de proteção ambiental são quase nulos. É um dos elementos que melhor define a expressão arquitetónica das favelas e dos bairros degradados. O alumínio está relacionado com pobreza, degradação ambiental e subdesenvolvimento.

Na Europa Ocidental os alumínios (mais sofisticados) resumem-se à arquitetura contemporânea, onde encaixam bem. Ficam, entretanto, à porta dos centros históricos. Portugal é o único país desta Europa onde os alumínios são utilizados em doses maciças nas zonas históricas – uma vergonha nacional!

As portas e as janelas, no contexto da arquitetura sempre desempenharam um papel relevante que advém do seu significado profundo e quase místico, pelo facto de representarem a passagem / fronteira entre o público e o privado, a exterioridade e a interioridade, o profano e o sagrado.

Numa outra perspetiva são considerados os olhos e a boca das casas. Por isso, sempre se colocou especial ênfase na sua concepção.

Tradicionalmente as portas e janelas eram fabricadas por hábeis artesãos que esculpiam na madeira facetamentos, frisos, almofadas e outros ornatos, conseguindo-se como resultado final peças únicas que constituíam autênticos objetos de arte. As pessoas tinham grande orgulho nas suas portas e janelas.

Uma porta ou janela de alumínio é uma peça industrial standard constituída por um material ordinário e destituído de qualquer valor intrínseco. A sua finalidade é quase exclusivamente funcional. Tem mais afinidades com um electrodoméstico do que com uma verdadeira porta e janela, que têm um peso cultural e simbólico impossível de ser representado por tais pífios artefactos. Temos que nos rebelar contra a sociedade do pechisbeque porque ela tira intensidade, densidade e profundidade ao ato de viver!

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