Alterações Climáticas

O debate televisivo tinha como tema as alterações climáticas e um dos convidados a nele participar, apresentado como autarca modelo pelas medidas que vinha implementando no seu concelho para fazer face às ditas, humanamente embevecido com tal elogio lá foi enumerando o que, nessa matéria, tinha sido feito ou estava programado fazer-se, como a colocação de bicicletas a pedais junto, em particular, da população estudantil, enquanto forma de sensibilização para meios de locomoção amigos do ambiente. Acrescente-se que as bicicletas a pedais não só são amigas do ambiente, como pedalar nelas constitui um saudável exercício físico! Como tal, aplauda-se, redobradamente, a medida!

O que, porém, o nosso autarca não referiu, é que no seu concelho abrira, entretanto, uma enorme superfície comercial, qual «catedral do consumo», aonde, nomeadamente, aos fins de semana afluem, transportando a respetiva clientela, milhares de carros oriundos de toda a parte e mais alguma. Ou seja, receia-se que os ganhos ambientais concelhios pretendidos com o uso das bicicletas, acabem por ser largamente «sufocados» pelo fumo saído dos escapes dos aludidos carros!

É claro que sempre se poderá contrapor o número de postos de trabalho gerados pela aludida grande superfície, reconhecendo-se que escolher-se entre a preservação do ambiente ou dar-se alimento a quem precisa de comer, nem sempre será tarefa fácil. Daí que não se pretenda pôr em causa a bondade das medidas que num dado momento possam ser tomadas neste último sentido, ainda que em prejuízo daquele primeiro.

O que queremos trazer (mais uma vez) para discussão, é o saber-se até que ponto se poderá ser consequente na procura de soluções para enfrentar as alterações climáticas, com todos os efeitos daí decorrentes e que, cada vez mais, vão estando à vista, sem se questionar o modelo económico da sociedade em que vivemos, traduzido na fórmula «produção – consumo – lucros crescentes», um modelo societário que, nomeadamente, com recurso a sofisticadas técnicas publicitárias, nos leva a consumir por consumir, exaurindo até ao «tutano» os recursos do planeta que nos foi dado habitar, enquanto, por via desse consumo desenfreado, o vai, continuamente, poluindo, não havendo incineradoras ou aterros sanitários que lhe valham!

Ora, a verdade é que, multiplicando-se, saudavelmente, as discussões sobre as alterações climáticas, sinónimo de que se ganha consciência para o significado das mesmas, muito raramente, contudo, se equaciona o paradigma do modelo económico em que vivemos, qual intocável «bezerro de ouro», à semelhança de outros noutras épocas existentes, mas que a evolução humana acabou por fazer cair dos seus pedestais.

Resta saber se as alterações climáticas darão, ainda, tempo ao nascimento dum novo paradigma societário, que preserve o meio ambiente, condição necessária para a preservação da espécie humana ou se esta estará condenada ao mesmo destino dos dinossauros.

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