Albufeira: utopia e desenvolvimento

Não sou técnico de engenharia, mas sim de turismo. E também não resido em Albufeira, apesar de frequentar bastante as praias deste concelho vizinho. Posto isto, e perdoem-me alguma imprecisão, tenho a dizer o seguinte: os municípios com território junto à costa não têm gerido bem tanto o crescimento urbanístico, como as obras de engenharia marítima.

A Praia dos Pescadores e a do Peneco, em Albufeira, têm sido um caso exemplar deste paradigma, pois as intervenções ali levadas a cabo, ao longo dos anos, contribuíram para degradar a qualidade.

Estas duas praias passaram de ícones de beleza (é delas a imagem mais comum nos postais sobre o Algarve), a campo de experimentação de obras de engenharia. Quase tudo o que podia ter sido mal feito naquelas zonas foi, de facto, mal feito. E não fossem as falésias já ocupadas por algumas casas do princípio do século passado, teríamos também, deduz-se, umas torres enormes para completar o disparate. Mas para que não me fique pelas críticas em abstrato, deixo aqui alguns exemplos concretos.

A desativação e transformação do curso de água à superfície que naquela praia desaguava, e que tornava aquele local num pequeno paraíso na Terra (procurem postais da época que demonstram como até barcos por ali entravam) foi um erro enorme. A consequência desta alteração ao curso natural da ribeira culminou, como é do conhecimento geral, nas cheias de há dois anos.

Além disto, temos construções em massa até ao limite das falésias que rodeiam estas praias, que impedem a circulação das pessoas no que devia ser espaço de domínio público marítimo.

A construção de um pátio empedrado entre as falésias e a praia, que, desapropriado para uma zona com tanta exposição solar, basicamente, não cumpre nenhuma função de interesse relevante (apesar de discutível) para além da realização da festa de passagem de ano.

A construção de uma torre que alberga um elevador na praia do Peneco, é outro equipamento de utilidade duvidosa, disfuncional e inestético.

A construção do pontão do esquerdo da praia, que ruiu passado alguns anos de ter sido construído.

Por fim, temos a construção da Marina de Albufeira, projeto megalómano, de gosto e utilidade controversas, que foi um fracasso comercial, tornando-se num elefante branco.

Todas estas obras tiveram consequências na paisagem, roubando-lhe qualidade, e potencial de usufruto já que esta zona, de várzeas, tem as terras mais férteis do concelho.

Tudo somado, tem um custo. Um custo que é nítido e visível no que é hoje o cliente e o turista que passa férias em Albufeira.

Não pretendo advogar que há um apenas um tipo de turista ideal para o Algarve. Mas a verdade é que o potencial valor que foi perdido, tem consequências sérias no rendimento que o turismo gera, e nas condições de vida que a região ou localidade, pode oferecer aos seus habitantes.

Estou em crer que esse potencial valor, seja ele social, económico, ambiental e histórico, da Albufeira anterior a toda a degradação urbano/costeira, seria, hoje, tão ou mais interessante que o de qualquer outra cidade costeira ou resort algarvio.

Para concluir, foi agora noticiado um projeto que prevê a construção de um passeio marítimo (leia-se, dentro do mar), entre a Praia do Peneco e a Marina de Albufeira, cujo objetivo passa por desviar os turistas que frequentam a baixa de Albufeira para este equipamento, por forma a tentar (re)dinamizar o seu comércio.

Enquanto algarvio, surfista, banhista, e cidadão interessado, todas estas situações afetam-me diretamente.

Custa-me ver o quão pouco interesse estas questões suscitam na comunidade em geral. Nem os praticantes de desportos aquáticos parecem perceber que este passadiço que parece sair de um filme de terror urbanístico, fará desaparecer uma das poucas ondas que permite fazer surf nesta parte do Algarve.

Já nem falo na onda que, há mais de vinte anos atrás, quebrava a meio da Praia dos Pescadores, no meio de um mar completamente liso, e rolava para a direita (para a esquerda de quem olha para o mar) por uns bons 200 metros, produzindo um tubo perfeito de cor verde, que só acabava junto à linha de água.

Uma onda que era fruto de milhares de anos em que a ribeira ali depositou os seus sedimentos.

Uma onda de rara beleza, como eu não encontrei em mais lado nenhum, nem no Algarve ou no resto de Portugal!

Albufeira podia, portanto, ser uma cidade diferente, com mais valor, mais agradável, com turistas diferentes, ambientalmente conscientes, e que se relacionassem com a comunidade local de forma mais positiva. Albufeira podia ser uma cidade cosmopolita, que tivesse uma vida cultural além dos bares e discotecas.

Albufeira podia até, promover o enorme potencial das suas praias através das suas ondas, e, remodelar alguns dos seus recifes por forma a transformar ondas de qualidade média, em ondas de alta qualidade, e fazer de si a Ericeira da costa algarvia.

Pena é, que décadas de navegação à vista do lucro fácil, continuem ainda hoje a fazer escola, acrescentando novos erros à gestão do território.

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