Albufeira, o rochedo do Peneco e o espírito da Terra

«Albufeira era, nos anos 60 e 70 do século passado, um daqueles raros lugares míticos que era revelado de viajante a viajante, quase em segredo, como um shangri-la recém-descoberto, não nos Himalaias ou no Hindocuche mas, milagrosamente intacto, num recanto da Europa. Alcandorado em estática contemplação de um mar e de um céu de azuis únicos («[…]no mundo só encontrei no Arizona um céu com esta luminosidade!», Caetano Veloso), o alvo casario, escorrendo em cascata em cada reentrância das arribas, parecia, no seu conjunto, uma efabulação de poeta árabe inebriado pelos eflúvios de um narguilé»
in «Albufeira e Favela da Rocinha, Geminação, Já»

Este excerto de um capítulo publicado no livro «O Algarve Tal Como o Destruímos», da minha autoria, refere o esplendor e o apogeu de um povoado que, daí para diante, não tem conhecido outro destino que não a sucessiva e galopante delapidação, rumo à fealdade e ao caos que ostenta na atualidade.

O que os homens ergueram e capricharam durante gerações, numa interação estreita e harmoniosa com a natureza, com os elementos e com a cultura, outros homens apostaram na sua destruição sistemática e impiedosa, situação que se mantém e que parece não ter fim.

O último episódio deste triste holocausto ambiental e patrimonial está a ser escrito nos dias que correm, na vandálica cratera aberta no coração da praia do Peneco, com vista à integração compulsiva de mais uma excrescência aberrante, que se vai juntar a todas as outras que já poluem uma paisagem que já foi de cortar a respiração.

Do casario e da praia originários já só restam as descrições e as fotografias daqueles que tiveram o supremo privilégio de as poder contemplar com os olhos e com o coração.

É lastimável pensar que todas as gerações que se vão seguir ficarão, irremediavelmente, impedidas de apreciar, vivenciar e emocionar-se com um património que poderia ombrear com os mais deslumbrantes em todo o mundo.

António Rosa Mendes caracterizou, de forma certeira, o que ainda se está a passar no Algarve: «um genocídio cultural em curso».

Ora, em todos os genocídios existem os perpetradores, que, no caso do Algarve, não são difíceis de apontar: a ignorância, a insensibilidade, a estupidez humana e a ganância. Mas, subjacente a todas elas, ressuma uma incomensurável falta de amor e de respeito pela terra.

As praias do Peneco e dos Pescadores viram «o alvo casario escorrendo em cascata a cada reentrância das arribas» ser deglutido e devorado pela impudência alarve dos resorts standard; viram as falésias serem destituídas da sua vegetação, alisadas, cobertas de cimento e pintadas com tintas industriais; viram um caricato elevador à «Oscar Niemeyer» incrustar-se nas costas do Peneco; viram uma inenarrável escada rolante de shopping corromper uma arriba; viram a «fina areia doirada, que os pés das deusas podiam pisar com delícias» (Manuel Teixeira Gomes) ser sepultada sob toneladas de um miserável areão castanho que, qual aterro informe, desformou de vez a silhueta e a harmonia originária das duas praias.

Mas, não contentes com isto tudo, as cabecinhas pensadoras da autarquia de Albufeira, as luminárias da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e os correligionários da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve resolveram, por unanimidade, congeminar mais um bacamarte para acrescentar ao bouquet de iniquidades nas desditosas praias.

O mono, de indecorosa volumetria, a ser construído em sítio não previsto pelo POOC, vai ter impactos variados, tais como as problemáticas associadas aos esgotos, às águas residuais, ao lixo e à logística do abastecimento.

Mas o aspeto mais grave, que evidentemente não perpassou, nem ao de leve, pelas antenas embotadas das estultas autoridades decisoras, é a sua proximidade ao icónico rochedo do Peneco.

Este escultórico e monumental rochedo, de transcendência totémica, desempenhava no concerto paisagístico albufeirense o papel de maestro.

Mas, como na nossa terra os ícones também se abatem, a profanação do Peneco foi inelutável: primeiro, construiu-se nas suas costas, à traição, o descombinado elevador; depois, soterraram-no até metade, aquando do atulhamento da praia, diminuindo para metade a sua outrora impressionante estatura; agora, preparam-se para invadir o seu legítimo espaço vital com o catrameço que está a ser construído. A raia do sacrilégio foi atingido!

Mas ainda não é tudo. Está planeado a construção de um passadiço demente que vai rasgar o mar, as vistas e o que resta da costa alcantilada a poente (já grosseiramente desfigurada pela intrusão brutal dos pontões da «Marina»).

Apetece perguntar: o que mais irá acontecer a Albufeira?

Não me admira que projetos como uma roda gigante a implantar na beira-mar, uma montanha-russa a emparelhar com o risível elevador ou uma ilha «dubaiana» cheia de palmeiras em frente ao Hotel Sol e Mar, possam surgir com toda a naturalidade.

O que tem sido feito em Albufeira nas últimas quatro décadas representa um ultraje contra o património, contra o ambiente e contra a beleza, mas, sobretudo, é um crime gravíssimo contra o espírito da Terra.

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