«Rochedos que a ação do mar e dos ventos foi roendo, semeando-se ao longo da costa em leixões das formas mais diversas: pirâmides, esfinges, castelos e basílicas; e que na parte de terra se cavam em fojos cilíndricos, em grutas profundas, em túneis circulares, por entre derrocadas de penedias multicolores, a evocar ruínas de cidades colossais;»
Manuel Teixeira Gomes, o grande escritor algarvio do início do século XX, revela-nos neste trecho do seu livro Agosto Azul, a dimensão extraordinária e mítica da linha de costa rendilhada do Barlavento algarvio.
Esta costa, única no mundo (na Austrália existe um pequeno trecho costeiro parecido, com estatuto de Parque Natural), concentra vários superlativos numa conjugação milagrosa que a promovem a um patamar de excepção: para lá das formas geológicas prodigiosas e esculturais, é iluminada por «um azul do céu de impressionante intensidade» (Artur Pastor), é banhada por um mar sereno, transparente e de incontáveis cambiantes cromáticos, é adornada por uma rara «areia fina e doirada, que os pés nus das deusas podiam pisar com delícias» (ainda M. Teixeira Gomes) e tinha, em certos troços da costa, um casario que se alcandorava em labirintos de geometrias e cal, sugerindo templos de terras ignotas.
Serve este preâmbulo para introduzir um dos temas do momento no Algarve: as obras de artificialização da praia de Dona Ana.
A praia de Dona Ana, a imagem do Algarve mais difundida na divulgação turística da região, eleita há um ano pela revista espanhola «Condé Nast Traveller» como a mais bonita do mundo, está a ser alvo, nestes dias, de um processo de aniquilamento total, replicando o maior crime paisagístico de sempre ocorrido no Algarve, há 50 anos, e que consistiu no soterramento dos incontáveis e monumentais rochedos, arcos, pináculos e leixões da praia da Rocha, definitivamente a quintessência da paisagem marítima universal.
O que se observa perante os nossos olhos incrédulos é uma manifestação de ignorância e de barbárie, que faz lembrar a ignóbil destruição dos monumentos milenares da Síria e do Iraque perpetrado pelo Estado Islâmico. Porque as surpreendentes formações geológicas que se erguem nesta costa, e que demoraram muitas dezenas ou mesmo centenas de milhares de anos a serem esculpidas pelos elementos, são os nossos mais valiosos monumentos, são os nossos Budas de Bamiyan, são de longe o nosso património mais precioso e extraordinário. São, além disso e sem margem para dúvidas, um património de toda a humanidade.
Parece que os erros do passado não compadeceram os nossos governantes, em Lisboa e no Algarve. Aquilo que ainda se poderia fazer para alterar o rumo de uma política de monocultura da indústria pesada do turismo de massas, sem viabilidade a longo prazo e destruidora de tudo em redor, não se faz. E o mesmo arcaico e estafado paradigma volta a mostrar a sua verdadeira face, apadrinhando o inominável plano de artificialização das praias do Barlavento algarvio sob o falacioso argumento da segurança das pessoas, quando o seu verdadeiro e mais imediato objectivo é o aumento da lotação das praias e a defesa das construções erigidas à beira das falésias. Não serão mais inseguras as caminhadas dos turistas à beira das arribas, onde há amiúde acidentes, ou os passeios de barco à sombra das falésias e por dentro das grutas?
A contagem das praias já alvo de processos de descaracterização, com enchimentos de areia de qualidade miserável, de desbastamento sem critério de falésias e de destruição e soterramento de leixões, não pára de aumentar: Benagil, Carvoeiro, Nova, Coelha, Albufeira, Castelo e muitas outras.
Este plano para adequar as praias às necessidades dos interesses económicos do turismo de massas, transfigurando-as, prepara-se para só parar quando já não houver uma única praia algarvia com a sua aparência originária, tal como a natureza a esculpiu.
A análise desta questão exige, ainda, uma contextualização histórico-cultural de um território que durante milhares de anos patenteou um património natural e cultural raro em todo o planeta – «um pedaço de paraíso terrestre!», exclamou o conde de Lippe no séc. XVIII.
O povo português, detentor de uma cultura e de uma História que, para a sua dimensão territorial, são de enaltecer, tem-se revelado, com demasiada frequência, incapaz de as reconhecer, de as valorizar e de as defender. Assim, a sua identidade cultural e consequente património construído, podem ser, ao primeiro abanão totalmente esquecidos, desprezados e destruídos.
Aqui no Algarve, a ilustração desta circunstância atinge uma dimensão expressiva. Evidentemente que vivemos numa época inédita da História da humanidade, com uma globalização epidémica que tudo amassa e acultura na sua implacável máquina compressora e uniformizadora.
Mas há povos que resistem no que diz respeito à defesa dos seus valores culturais e identitários. Infelizmente não foi o caso do povo algarvio (e dos seus governantes), que por incúria, ignorância, ganância e aculturamento deixou desabar o seu extensíssimo manancial de riquezas, entre elas, a sua arquitetura popular (e também a erudita), uma das mais diversificadas e expressivas do mundo, com as suas chaminés, platibandas e açoteias; a paisagem do barrocal com a sua agricultura e árvores originárias, os seus muros caiados de branco ou em pedra nua, as noras e o gracioso casario pontuando as colinas e os vales; o seu litoral, infindo de diversidade, de monumentalidade e de praias paradisíacas.
À excepção de vastas zonas do litoral sul de Espanha, não há na Europa inteira, em territórios de importante valor patrimonial, natural e cultural, nada que se assemelhe em fervor destrutivo com aquilo que se passou nas cidades, no campo e no litoral algarvio. Já muito pouco resta de belo, de autêntico e de identificativo, nesta região que sucumbiu aos ditames do lucro rápido, numa dinâmica que não respeita nem terra, nem cultura, nem sustentabilidade.
O movimento que se criou na sociedade civil contra a destruição da praia de D. Ana, com várias manifestações, intervenções na televisão e redes sociais e artigos publicados em jornais e revistas de referência nacionais e estrangeiros, reflecte uma nova realidade: os algarvios, perfeitamente conscientes do mal que tem sido feito à sua terra nestes últimos 40 anos, não estão dispostos a assistir em silêncio a mais e mais desmandos contra o ambiente e contra o património.
Em contraponto há que referir o silêncio ensurdecedor das entidades governamentais algarvias que, até agora, não fizeram ouvir sequer um murmúrio sobre este atentado directo ao âmago da identidade do Algarve.
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Fernando Silva Grade tem 60 anos, estudou biologia mas acabou por se dedicar exclusivamente à pintura em Faro, onde vive e trabalha. Ativista ambiental, blogger, escritor e artista, lançou no final de julho de 2014, o livro «O Algarve Tal Como o Destruímos».