A Raça Bovina Algarvia: mito ou realidade?

Quem no Algarve viveu da agricultura antes dos anos 1970, lembra-se certamente de bovinos característicos da região, utilizados para trabalho e carne, e até leite para populações locais. Poderá esta população bovina ser considerada uma raça distinta das outras raças nacionais, uma pretensa raça algarvia?

Uma população de bovinos algarvios foi pela primeira vez descrita em meados do século XIX. A intervalos relativamente espaçados, novas descrições sobre caracterização morfológica, caracterização funcional e da região-solar, e trabalhos de diagnose e inventariação foram sendo publicadas sobre estes bovinos típicos da região do Algarve (ver bibliografia, referências 2 a 9).

Talvez uma das mais relevantes observações tenha sido feita por Trigo Pereira em 1960, ao salientar bem o destino a que foi votada esta população: «o bovino algarvio… nunca chegou a ocupar o lugar a que tem jus na bovinicultura nacional, dadas as suas boas características e elevado rendimento funcional».

Contrariamente às raças bovinas nacionais reconhecidas desde há muito como tais, e registadas em livros genealógicos com regulamentação específica, definindo um padrão racial resultante dos processos de seleção e melhora, e de um censo regularmente atualizado que exclui os exemplares que não respondam satisfatoriamente ao padrão racial, os bovinos algarvios só em 2011 tiveram um Livro Genealógico, após estar há décadas tecnicamente extinta.

A profunda modificação do sector agrícola na região e uma atitude de indiferença total, patente na inexistência de medidas de conservação e valorização, associadas à ausência de Livro Genealógico, precipitou o declínio rápido desta população bovina rústica e sóbria que entre 1972 e 1981 passou de 29088 exemplares catalogados, à extinção técnica.

Cessam desde então quaisquer referências aos bovinos algarvios, com exceção de relatos orais de antigos criadores que pretendem ter identificado animais com características morfológicas próximas ou idênticas às daqueles bovinos, em algumas herdades algarvias e alentejanas.

Em 2001 aparece uma reportagem no «Jornal do Algarve» denunciando a extinção da «raça algarvia» e a inação das autoridades que deviam ter velado pela sua conservação.
A então Direção Regional da Agricultura do Algarve (DRAALG) é particularmente visada.

Foi neste enquadramento que fui desafiado pelo então diretor, para orientar cientificamente, enquanto investigador da Universidade do Algarve (UAlg), um projeto visando avaliar a possibilidade de recuperação da «raça».

O conhecimento científico e os meios técnicos existiam. Os meios financeiros seriam disponibilizados, mas a questão política era uma nebulosa. Mesmo chegando à conclusão que seria viável a recuperação, qual o interesse em desenvolver e manter uma população de bovinos sem relevância económica?

A questão é também filosófica: terá o homem direito a abandonar uma «raça», mesmo se foi através da sua ação que ela surgiu?

Se há várias raças nacionais de animais domésticos, incluindo grandes e pequenos ruminantes com direito à existência e conservação, algumas com baixa ou nenhuma viabilidade económica quando comparadas com raças exóticas importadas, porque não conservar uma raça bovina algarvia? Mas o que é exatamente uma «raça»?

É um grupo específico de animais domésticos com uma aparência homogénea (fenótipo), um comportamento homogéneo e/ou outras características que o distinguem de outros organismos da mesma espécie. As raças formam-se pelo isolamento genético e pela adaptação natural ao meio ambiente ou por reprodução seletiva, ou por uma combinação dos dois. Apesar de ser um conceito basilar para a criação de animais e a agricultura não existe uma definição única, cientificamente aceite do termo.

É previsível e natural que desde as primeiras descrições de meados do século XIX e início do século XX tenham ocorrido alterações fenotípicas e genotípicas nos bovinos da região algarvia da segunda metade do século XX, pois nada foi feito para definir e manter um padrão de raça, e os traços distintivos dos animais foram, provavelmente, evoluindo através de cruzamentos descontrolados com bovinos oriundos de outras regiões.

A única base de trabalho para avaliar a recuperação da pretensa «raça algarvia» era o conhecimento de antigos criadores da existência de animais mais ou menos dispersos, respondendo às características fenotípicas da «raça».

Elaborado o projeto, envolvendo a UAlg, os (então denominados) INIA/EZN/EAN (Instituto Nacional de Investigação Agrária/Estação Zootécnica Nacional/Estação Agronómica Nacional), a DGV (Direção Geral de Veterinária), a ASCAL (Associação de Criadores de Gado do Algarve) e a DRAALG, com a colaboração de cientistas e técnicos de grande competência e elevada motivação e assegurado o financiamento através da DGV/PIDDAC no âmbito dum programa de Melhoramento Animal, foi dado início ao estudo em fevereiro de 2002.

Os resultados e as conclusões foram apresentados num relatório final datado de maio de 2005 e em revistas científicas internacionais da especialidade.

Em resumo, de um universo de 46 bovinos (42 vacas e quatro touros) inicialmente selecionados segundo os critérios acima referidos, emergiram 19 (16 vacas e três touros) como um núcleo distinto das 11 raças nacionais e de três exóticas que foram usadas nas análises de comparação, recorrendo a duas abordagens inteiramente distintas e independentes: uma morfológica (aplicando a taxonomia numérica, em que foram avaliados 170 caracteres morfológicos nos touros e 183 nas vacas, num total de 257 vacas e 76 touros de todas as raças) e outra de genética molecular (utilizando 27 marcadores genéticos, conhecidos como microssatélites, nos mesmos animais). Os resultados permitiram concluir com solidez e rigor, que aquele grupo de 16 vacas e três touros era o núcleo a partir do qual a raça algarvia poderia ser reconstruida e/ou recuperada.

Em reunião convocada apenas em 2011 (!), realizada na DRAALG, os representantes dos protagonistas do projeto concluíram sobre o interesse em avançar com a criação dum Livro Genealógico. Foi conseguido um orçamento para iniciar a recuperação da raça que ficou a cargo da ASCAL encarregue de gerir o referido documento.

Entretanto, na sua maioria os animais mantiveram-se dispersos, foram sido vendidos, envelhecendo, morrendo, abatidos, tendo antes, por precaução sido retirado e conservado sémen dos touros, antes que desaparecessem, única ação e decisão que estava ao alcance da equipa científico-técnica.

O presidente da ASCAL adquiriu cinco vacas das quais duas morreram, uma pariu, após inseminação, uma fêmea e um macho, outra foi adquirida em 2012 pela Quinta Pedagógica de Silves que, sob a responsabilidade da Câmara Municipal e na sua qualidade de guardião de vários patrimónios, se propõe preservar este património genético que constitui a raça bovina algarvia.

Esta vaca, entretanto, morreu não sem antes ter sido inseminada e parido uma fêmea, a «Bonita», a qual por sua vez tem sido objeto de tentativas de inseminação na Quinta Pedagógica.

O que se passou e tem passado na ASCAL é um buraco negro. Mas, por razões que a razão desconhece, os resultados à vista são irrisórios, drasticamente limitados, e o risco da consanguinidade inevitável.
Apesar de alguns esforços pontuais notáveis para recuperar uma raça que só muito recentemente teve reconhecimento oficial, a história do seu abandono e descuramento tende a perpetuar-se.

Poderá vir a ser, no futuro, uma marca identitária regional com viabilidade económica e não apenas uma atração de jardim zoológico? Talvez, mas só mudando resolutamente de paradigma.

Por Alfredo Cravador | Professor catedrático jubilado da Universidade do Algarve

Referências bibliográficas

1) Annes Baganha D., 1868. Resposta ao Questionário dirigido aos proprietários rurais e lavradores de todos os concelhos do reino.
2) Bernardo Lima S., 1873. Recenseamento Geral de Gados no Continente do Reino de Portugal em 1870. Imprensa Nacional, Lisboa.
3) Paula Nogueira, J.V., 1900. Les animaux agricoles. In: Le Portugal au Point de Vue Agricole. Lisbonne. 310 pp.
4) Cincinnato da Costa B.C. & Castro L., 1900. Le Portugal au point de vue agricole. Imprimerie Nationale, Lisbonne. 310 pp.
5) Bernardo Lima B.S., 1919. Os escritos de Silvestre Bernardo Lima. Bovídeos e Suídeos. Direção da Instrução Agrícola. Boletim do Ministério da Agricultura, Ano I, 7: 1-266.
6) Vale, J.M., 1949. Bovinos. In Gado Bissulco. Suínos. Bovinos. Arietinos. Caprinos. Coleção «O Homem e a Terra». Livraria Sá da Costa, Lisboa, pp. 81-168.
7) Trigo Pereira M., 1960. A raça bovina Algarvia. Direção Geral dos Serviços Pecuários. Boletim Pecuário, Ano XXVIII, 1: 137-189.
8) Rosado J., Almeida J.M., Gouveia J.M., Sobral M. & Lobo J.M.S., 1981. Raça bovina Algarvia. Inquérito para a sua caracterização e seu sistema de exploração. In: Bovinos em Portugal. Rodrigues A. (Coord.). Direção Geral dos Serviços Veterinários, Lisboa, pp. 217-222.
9) Cordeiro J.P., 1986. As raças bovinas em Portugal. Sua origem. O Médico Veterinário, 1: 29-39.
10) The state of the world’s animal genetic resources for food and agriculture. Barbara Rischkowsky and Dafydd Pilling. Commission on Genetic Resources for Food and Agriculture. 2007
11) M. F. Sobral, C. Roberto, D. Navas, I. Palmilha, M. B. Lima and A. Cravador. Identification of descendants of an extinct bovine population from the Algarve region of Portugal using numerical taxonomy analysis of morphological traits. Journal of Animal Breeding and Genetics, 126(4), 319-326 (2009).
12) C. Ginja, M. C. T. Penedo, M. F. Sobral, J. Matos, C. Borges, D. Neves, T. Rangel-Figueiredo and A. Cravador. Molecular genetic analysis of a cattle population for recovery of the extinct Algarvia breed. Genetics Selection Evolution 42:18 (2010) doi:10.1186/1297-9686-42-18.

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