A quintessência do pensamento autárquico

Tendo acompanhado durante as últimas décadas o desempenho desassombrado daqueles que têm determinado o destino da terra algarvia, e que a resgataram de uma modorra arcaica indigna da civilização, demudando-a numa terra progressiva e trepidante, não posso deixar, ainda assim, de me surpreender com o lampejo inspirativo da autarquia de Lagoa que, num rasgo temerário, abriu fronteiras para uma inovadora concepção estética do pensar a cidade, tendo ido rebuscar, certamente, ao movimento fauvista, a intensidade cromática com que pigmentou as promenades lagoenses.

A expressão do pensamento autárquico atingiu, assim, com este toque de midas artístico, o refinamento último, o depuramento absoluto, a consagração da obra-prima.

Para melhor compreender todo o processo evolutivo que, desde os primórdios, conduziu a sabedoria autárquica até ao momento da sublime apoteose rubicunda, vamos então fazer um exercício de retrospectiva.

A passagem da idade da pedra para a modernidade aconteceu quando, em uníssono, os autarcas elegeram, fervorosos, o supremo valor que deveria nortear a sua ação: o «pugresso».

Confrontado com uma tradição em linha com os ecos longínquos, mas ainda audíveis, de uma excêntrica e conservadora personagem de antanho que dava pelo nome de Manuel Teixeira Gomes e que em 1904 denunciava horrorizado a construção de chalets na Praia da Rocha, contrapondo que nas falésias de tão sublime praia só eram admissíveis ruínas de templos gregos, o presidente da Câmara de Portimão da altura (anos 60 do século passado), assumiu a ruptura e a liderança sob o signo de um novo paradigma: Torremolinos!

A partir daqui o mote estava dado e a Praia da Rocha foi assoreada com biliões de toneladas de areia sepultando a maior concentração no mundo de rochedos monumentais numa única praia («pirâmides, esfinges, castelos e basílicas […] ruínas de cidades colossais» – M. Teixeira Gomes).

Era preciso abrir espaços para as multidões, para a construção, para os automóveis, para as negociatas (e para se governarem). Aquela praia com pouca areia e com muita pedra era um empecilho! A terraplanagem do território iniciou assim, legitimada nas cabeças pensadoras oficiais, um processo para esventrar as terras e os casarios em todas as frentes, para que o esplendido betão pudesse medrar sem constrangimentos, para cima, para os lados e para a frente até – alto lá que se tem que respeitar o ambiente – 1 centímetro atrás da beira das falésias (e das dunas).

Assim o «pugresso» disparou sobre esta terra, que não valia um pataco, substituindo as pobretanas chaminés, platibandas e açoteias, as praias arcaicamente idílicas, a paisagem mediterrânica desconsoladamente bucólica, pelos lustrosos resorts, os higiénicos campos de golfe, os vibrantes shoppings, as elitistas marinas e as competitivas estufas.

Enfim, o êxtase triunfal do admirável mundo moderno foi implantado no Algarve sob a batuta da sapiência iluminada duma dinastia de autarcas cujo legado há-de ficar perpetuado na História desmentindo categoricamente aquela calúnia do Mário Pinto que disse que “estamos a construir espaços de horror (físicos e espirituais) para vivermos e onde teremos de habitar por décadas ou por séculos”.

Agora, já podemos proclamar ao mundo, aliviadamente, que o ex-líbris do Algarve já não é a rústica e pobrezinha chaminé, mas sim o símbolo do empreendedorismo que paira sobre todas as outras coisas: o mamarracho!

Não quero deixar de nomear, personalizando, alguns dos mais grandiloquentes arremedos do génio concretizador desta plêiade de distintos presidentes da Câmara, que se mostraram incansáveis na sua senda modernizadora, sacrificando-se denodadamente pelos superiores interesses desta terra que, sem a sua pertinente intervenção, ainda esbracejaria em infestas raízes culturais: a demolição do Palácio do Lã, do Banco Nacional Ultramarino e do Cinema de Santo António em Faro (não prestavam); a transfiguração das avenidas românticas de Faro, de Olhão e de Loulé (o «pugresso» assim oblige); a «torremolinização» de Portimão, Praia da Rocha, Quarteira, Armação de Pêra e Monte Gordo; a «disneylização» de Albufeira e de Lagos; a substituição, ao longo de todo o Algarve, do indigente casario tradicional (sobra 10 por cento) por casas modernas de excepcional recorte arquitectónico; a grande muralha da china erguida ao longo de toda a costa alcantilada (também se deve ver do espaço); o sepultamento com cascalho e areão castanho de uma dúzia de praias idílicas no Barlavento, sendo a Praia de Dona Ana a mais conhecida (era preciso aumentar a lotação); a entrega da Lagoa dos Salgados às feras (aquele pântano ali abandonado…).

Mas ainda quero referir algumas obras de arte saídas das mentes inspiradas dos nossos criativos autarcas: o elevador estilo Óscar Niemeyer na Praia do Peneco; a escada rolante surrealista na Praia dos Pescadores; os passadiços sobrelevados em tudo o que é sítio, quais instalações artísticas, candidatos à próxima Bienal de Veneza; a sementeira de mupis e de placards publicitários a embelezarem o espaço público, melhores que esculturas clássicas; o mar de estufas hidropónicas, autênticas peças de land art. Poderia continuar a desfiar um rosário de obras de destaque que tem mais do que as 200 contas da reza, mas já chega para amostra.

Inusitadamente, vá-se lá saber porquê, o léxico dos autarcas é omisso em palavras como identidade, autenticidade, espírito do lugar, património, preservação, beleza, respeito pela terra e outras do género.
Se calhar foram banidas do novo acordo ortográfico.

De qualquer modo e, pese embora a superior coleção de opções políticas dos autarcas que esmifrou, perdão, modernizou a nossa terra, não posso deixar de, mais uma vez, me curvar perante a arguta, irreverente e genial intervenção urbana do edil lagoense, cuja temeridade criativa ficará, sem sombra de dúvida, inscrita nos anais da História do urbanismo contemporâneo. Bem-haja!

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