a Política: ou quando tocamos a vida de alguém

«muita vida leva o homem lá no meio do mar, muito homem leva a vida sempre, sempre, a trabalhar».

Se em Faro entrar no Mercado Municipal pela porta norte e olhar para a banca de peixe mesmo à sua frente é muito provável que os robalos, ainda vivos, e as corvinas, as maiores, possam ter saído nessa mesma manhã do barco do Francisco Gaspar, antiga glória do Clube União Culatrense, viveirista e pescador que, crendo na lenda que já ouvi contar na Culatra, tem nas linhas da palma da mão o mapa perfeito da rota migratória destas espécies pelas nossas águas.

Talvez seja esse o segredo do «Gasparinho», mas tal não explica as grandes pescarias do Ramiro José e do Rui Conceição, do Nelinho, do Vítor Silvestre ou dos restantes proprietários e tripulantes dos 80 barcos de pesca ancorados desde 2008 no Porto de Pesca da Culatra construído por iniciativa do atual Secretário de Estado das Pescas, José Apolinário.

A verdade, não é segredo para ninguém, na Culatra, percebe-se muito de marisco, de peixe e de pesca, mas do que vos gostaria de falar é de união, esse sentimento resultante da soma da amizade com a confiança que nos leva a identificar com o outro e a fazer do destino comum a força e a determinação para superar dificuldades.

150 anos depois de um punhado de homens e mulheres fixar-se numa inóspita língua de areia da Ria Formosa, o Estado Português reconheceu a legitimidade e o direito à primeira habitação dos pescadores, viveiristas e mariscadores da Culatra.

A Portaria nº 277-B/2018, de 15 de outubro, foi publicada esta semana, com a assinatura de três ministros do governo do Primeiro-ministro, António Costa a quem é devida uma palavra de sincero agradecimento por ter tido a sensibilidade, que até hoje havia faltado, para fazer justiça a estas 400 famílias que levam a vida a trabalhar no meio do mar. Sopra uma brisa de confiança na Ria Formosa.

No núcleo da Culatra decorrem obras de requalificação do espaço público. Cerca de 1,5 milhões de euros estão neste preciso momento a ser investidos pela Sociedade Polis.

Nos Hangares e no Farol pararam-se as demolições. Definiu-se uma linha de maior risco (40 metros de distância da água), onde não devem existir casas, salvaguardando as primeiras habitações e as casas de pescadores, retirando das restantes habitações (a esmagadora maioria) a espada e o medo que sempre pendia sobre a cabeça das pessoas.

Na Assembleia da República, por proposta do Partido Socialista, aprovou-se uma recomendação ao governo para o reconhecimento dos vários núcleos habitacionais, tendo, entretanto, o Ministério do Ambiente aberto o processo de revisão e atualização do Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC Vilamoura / Vila Real de Santo António) no âmbito do qual se irá desenhar o futuro enquadramento legal destes aglomerados.
O governo voltou a realizar dragagens nos canais e barras da Ria Formosa permitindo por um lado a renovação das águas interiores, a melhoria da navegação e, fundamental, o reforço dos cordões dunares das ilhas barreira.

Na margem, a nova Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Faro e Olhão está praticamente pronta e a entrar em funcionamento. Um investimento de 14 milhões de euros absolutamente central para garantir a qualidade das águas na Ria Formosa.

A Doca de Faro foi requalificada. Há 27 anos que ninguém ali realizava qualquer intervenção de beneficência ou melhoria e a Docapesca abriu o concurso público na expectativa de que existam empresários interessados em avançar com a Doca exterior.

Na Ilha de Faro, o governo inscreveu 250 mil euros na proposta de Orçamento de Estado para 2019 relativo ao realojamento dos pescadores e a Sociedade Polis está apenas a aguardar resposta da Câmara de Faro para lançar novo concurso para a construção da Ponte.

Por fim, os pescadores do núcleo da Culatra vão puder ter uma licença para as suas casas, que serão renováveis e transmissíveis para os seus descendentes.

Imagino o rosto feliz da Madalena Conceição, talvez tenha até acendido uma vela à Nossa Senhora dos Navegantes, da Mónica Bonzinho, da Vânia Buchinho, da Lília Manjua, da Tânia Lopes, da Nélia Sousa e, claro, da Sílvia Padinha, esse raio de luz saído da mitologia grega, sempre preocupada em garantir o futuro da Culatra, dos filhos da Culatra, dos jovens casais a viver em casa dos pais ou dos avós, muitas vezes com gritantes limitações, porque não podiam até agora ter teto próprio.

Não sei se, como profetizava a música do Júlio Pereira, «a enguia, o mexilhão, o linguado, o berbigão, os peixes todos» cantaram em festa para a Ilha da Culatra, mas sei que esta decisão do Governo de António Costa muda a vida dos homens e mulheres daquela comunidade piscatória. Isso, a capacidade de tocar a vida dos outros e o amor ao Algarve foram tudo o que me trouxe à política.

PS – à memória do José Júlio, antigo colega no Centro Distrital da Segurança Social de Faro, que me esperou no pontão da primeira vez que pisei a areia da Culatra. Este momento também é teu.

Luís Graça é deputado socialista na Assembleia da República eleito pelo círculo de Faro e líder da Federação do Partido Socialista Algarve.

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