A nova EN125, estrada do medo ou o caminho da coragem?

Carlos Gouveia Martins | presidente da Juventude Social Democrata do Algarve

Na política e na vida, mas sobretudo na vida política, é sempre muito mais fácil deambular ideias e defraudar convicções em qualquer área de conforto e na espuma dos dias do que ser incómodo, irreverente, mas firme nos ideais em qualquer cenário.

Vale muito mais quem, em minoria, se chega à frente para defender a maioria do que quem ganha razão pela força dos números. Não adianta, nem critico o espírito de sobrevivência do ser humano, tão fortemente vincado enquanto animal político, mas tolero muito pouco a ausência de coragem na ação cívica de quem representa o povo. O Algarve viverá sempre entre alguns clichés de utilidade política, embora meramente momentânea na proximidade da ida às urnas: regionalização, sazonalidade em virtude do turismo, pescas e, agora mais recentemente, a caneta que escreve os discursos e o púlpito que segura o microfone começaram a conviver com um novo cliché popular de caça ao voto: «Estrada Nacional 125».

Entre uma espécie de defesa à La Palice sobre a necessidade de intervenção do governo nas infraestruturas, o mau estado das vias em locais específicos de maior tráfego ou ainda o aumento de sinistralidade, a maior parte dos agentes políticos sempre foi unanimemente convergente na forma: focam-se sempre no «passa culpas». Independentemente do nome do primeiro-ministro, sem qualquer relação entre o facto de ser PS ou PSD e com maior ou menor simpatia pelo ministro da tutela e seus secretários de Estado, a culpa é sempre «dos outros».

E essa ação só acrescenta quilómetros na estrada do medo que vivemos. Sobre coragem, que é o caminho que prefiro, vejamos. A EN125 é uma estrada urbana na quase totalidade dos concelhos que atravessa entre Vila do Bispo e Vila Real de Santo António. Também não é menos verdade que esses troços de pretensa estrada nacional têm vivido um significativo aumento do fluxo automóvel desde a introdução do pagamento de portagens na A22. Não é mentira, então, afirmarmos que todos os quadrantes partidários, forças vivas regionais, entidades competentes e algarvios subscrevem que a sinistralidade rodoviária aumentou na maior estrada nacional da região.

Posto isto, em fevereiro, o atual ministro adjunto Eduardo Cabrita alertou que o governo de António Costa queria aprovar a descentralização de competências antes da campanha das autárquicas. Nada contra, quanto antes melhor!

E, nesse mesmo raciocínio, informou o país que dentro da área dos «Transportes e Vias de Comunicação» é real o
objetivo de que, cito, «a gestão de todas as estradas nos perímetros urbanos e dos equipamentos e infraestruturas neles integrados» passem para a competência dos municípios.

Muito bem! A melhoria do nosso Algarve é e sempre será um assunto supra-partidário aos meus olhos, e quero afincadamente que o ministro adjunto cumpra as ambições de tantos antecessores seus nesta matéria. Deixar tudo como está é insustentável. Acima de tudo, demonstraria a não vontade do governo central em reformar e estruturar, de forma adequada à evolução dos tempos, a região mais cobiçada de Portugal.

Se, como está, não dá, temos de mudar. E os dados estão a jogar a favor de quem não tem medo. Os senhores autarcas defendem que a EN125 não oferece condições, os senhores deputados à Assembleia da República andam de proposta em proposta à procura de alterar algo sem mexer nada, os algarvios assumem que é preciso fazer algo e o atual governo (em conjunto com a Associação Nacional de Municípios Portugueses) afirma que o caminho sobre esta matéria é passar competências para os municípios.

Enfrentemos a realidade. A responsabilidade dos troços rodoviários da EN125 tem de reverter para a tutela dos nossos municípios, acabando o período do «passa culpas».

Agora que a JSD/Algarve lançou o repto aos presidentes de Câmara, espero com muita sinceridade que a região se una no caminho de defender o conjunto dos 16 concelhos como um todo, e que possamos entregar ao Ministério do Planeamento e Infraestruturas o pedido para que se inicie o processo de municipalização da EN125 através de um despacho do sr. ministro Pedro Marques.

O Algarve carece de uma estrada nacional digna e plena de condições para receber os milhões de turistas, nacionais e estrangeiros, que visitam esta região que é a maior bandeira do turismo português. Mas alguns meses de turismo não são prioridade superior à real necessidade de condições para o dia a dia, de todos os dias do ano, de meio milhão de algarvios.

Com a reversão da EN125 para Estradas Municipais, não pode um dos mais importantes distritos para o país (não confundir com «do país») perder uma estrada nacional que integre a rede nacional de estradas de Portugal. Também pela equiparação de concelhos que a A22 abrange (11 dos 16 concelhos), o caminho da melhoria do Algarve passa por encontrar soluções para chegar ao dia em que aplaudiremos o Decreto-Lei que reverta a Autoestrada do Algarve (A22) numa nova EN125.

Supra-partidariamente, sendo algarvio, é isso que espero, sem medos. Que uma região se una num caminho de coragem para tornar a atual EN125 numa nova EN125 que seja digna do Algarve, de todos nós e de todo o mundo que quer cá vir. Porque o Algarve é, para mim e também para muitos milhões de «algarvios» de todos os continentes, a bandeira que melhor representa este país.

Categorias
Opinião


Relacionado com: