A «Gorjeta»

Sempre que entro num restaurante, confesso que travo, a final, toda uma luta entre o dar ou não «gorjeta» a quem me serviu, que quase me acaba por estragar a refeição, tal a agonia nesse momento sentida! Se não dou, receio ser classificado de «avarento» ou «unhas de fome» e, na próxima vez, ser servido com menos simpatia, quando uma refeição, por mais opípara que se possa apresentar, tipo sardinhas assadas com salada montanheira, sem o condimento da simpatia ser como comida sem sal.

Isto, claro está, para já não falar de, ainda por cima, correr o risco de ver a fatia de melão da sobremesa reduzida a um esguio caiaque.

Se a dou, tal poder ser considerado como uma tentativa de corromper o empregado, de forma a que, à revelia dos interesses do patrão, futuramente me servir uma fatia de melão a lembrar, ao invés, um petroleiro!

Depois, sempre me interrogo se quem me serviu será mal remunerado pela entidade patronal, vendo-se na condição (humilhante) de depender da minha «dádiva» ou, ao invés, condignamente remunerado será, tendo, quiçá, uma vida melhor do que a minha, caso em que, com a minha «gorjeta», estarei a fazer figura de parvo.

Finalmente, ainda se me levanta a questão de não compreender a razão pela qual a «gorjeta», a ser entendida como um reconhecimento por um bom serviço prestado, se encontrar institucionalizada, apenas, em alguns sectores, como o da restauração, em vez de a todos, democraticamente, contemplar, como, por exemplo o funcionário das Finanças que, com um sorriso nos lábios, nos cobra os impostos ou o GNR que, cavalheirescamente, com uma continência e tratando-nos por «Senhor(a) Condutor(a)», nos autua por excesso de velocidade.

Assim, sem discriminações, podíamo-nos sentir todos, orgulhosamente, «gratificados» por termos prestados os melhores serviços uns aos outros, contribuindo, por tal facto, para a grandeza do país!

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