A Fatura

Se são muitos os refugiados políticos e de guerras várias que, com perigo da própria vida e alvos de todos os tipos de traficantes, procuram, em frágeis embarcações, chegar à Europa, atravessando o Mediterrâneo, não deixam de ser cada vez mais, a juntarem-se-lhes, os que assumem uma outra categoria de refugiados, os das alterações climáticas!

Fruto, em grande parte, de tais alterações, o deserto do Saara, em África, expande-se, inexoravelmente, em direção ao sul e, em consequência disso, às populações que vinham vivendo da agricultura e da pastorícia, observando, entretanto, os campos ressequidos e cobertos de areia, outra coisa não lhes restará senão partir e procurar outros locais onde possam sobreviver, como a Europa.

Mas, o mais significativo, é que tais alterações climáticas não foram provocadas por essas mesmas populações, mas por nós, do designado «mundo ocidental», em nome do «progresso», que nos permitisse não ser classificados de «terceiro-mundistas», com todo o nosso consumismo e modo de vida assente em poluentes combustíveis fósseis, como o carvão e o petróleo!

Assim, não devemos estranhar que tais populações nos venham apresentando a sua justa «fatura», ao pretenderem refúgio na Europa, onde, pelo menos, ainda não faltará tanta água como nas terras que se viram obrigadas a abandonar.

Abandono, já agora, acrescente-se, igual àqueles que se vão registando um pouco por todo o mundo, como o que está acontecendo com um número crescente de pequenos e médios agricultores do Vale Central da Califórnia, nos EUA, tido como um dos celeiros do país, por se sentirem incapazes de suportar o custo de furos que lhes permitam captar água cada vez mais escassa e a maior profundidade, custo só já suportável por grandes empresas agrícolas, fazendo lembrar tempos como os retratados por John Steinbeck em «Vinhas da Ira».

PS – Sugerimos ao leitor um trajeto a pé pela berma esquerda da estrada que vai da ponte da Ilha de Faro à Rotunda do Aeroporto, bordejando a mata ali existente. Não, não é para poder admirar qualquer flora, mas poder observar como continuamos a tratar a natureza, ainda por cima numa região que se pretende a «ex-libris» nacional do turismo: todo o tipo de lixo atirado para a referida berma!

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