A Erosão Democrática

1. É, hoje em dia, um dado adquirido. A ascensão do populismo e a tendência para formas de governo musculadas, ou até de carácter ditatorial, é um facto. Com uma particularidade: esses governos foram eleitos pelo voto expresso dos cidadãos. Trata-se de uma tendência que se manifesta à escala mundial, de que o Brasil de Jair Bolsonaro é o exemplo mais recente, a juntar aos populismos da Europa (polacos, húngaros ou romenos), orientais (as Filipinas de Duterte) ou americanos, como é o caso de Trump. E já se fala do efeito de boomerang sobre a própria Europa – veja-se o caso da Itália. Criou-se um paradigma assente em três ou quatro eixos de manipulação: insegurança e violência, imigração e refugiados, descrença na democracia (ou, pelo menos, no sistema vigente), medo relativamente ao futuro. Constata-se, neste paradigma, uma presença gritante sob a forma de ausência: o eixo das utopias e dos valores. Do meu ponto de vista, é preocupante!

2. Em Portugal, a geração da minha idade sofreu a ditadura Salazarista e a opressão da PIDE, depois viveu entusiasmada a tentativa de construção de um país novo. Libertámo-nos de um regime tenebroso, mas depois não nos entendemos quanto à nova sociedade que queríamos construir. Voltámo-nos uns contra os outros. Hoje os mais novos não fazem ideia do que foi o regime fascista. Não sabem contra quem lutar. Preocupam-se, cada qual por si, em ter o máximo de comodidades, em ganhar dinheiro, em viver o dia a dia sem pretender construir nada de novo. E, à escala do mundo ocidental, vamos percebendo um sentimento de perplexidade generalizada, de descrença no progresso da humanidade e de dúvida quanto ao futuro – sentimento que se revela em ideias tais como a do fim da História, da morte das utopias, do desaparecimento das ideologias, da anomia contemporânea, da crise de valores, da decadência pós-moderna. O denominador comum é o desânimo. Este é o movimento global que preocupa ou envolve a maioria dos pensadores atuais e que influencia a opinião pública e o comportamento coletivo.

3. Cruzando os quadros descritos nos dois pontos anteriores, conseguimos perceber o porquê de reações do cidadão do quotidiano que, perante as câmaras de um canal televisivo, defendia a tese catastrófica de que o que nos espreita é a forte possibilidade de uma guerra nuclear ou qualquer coisa como isso. Por minha parte, entendo que o mais necessário é não cair num fatalismo paralisante. Não se pode deixar de lutar contra o caos social e aceitar o regresso ao passado obscurantista oferecido por forças populistas e nacionalistas que aproveitam, em seu favor, a crise em que o mundo vive. Existe uma forma de combater estas tendências: falando verdade aos cidadãos e voltando a mobilizá-los para causas, ideias e políticas que a maioria das pessoas reconheça como suas e de acordo com os seus interesses comuns. Creio que não faltam argumentos. Mas isso exige coragem aos líderes e às forças políticas progressistas. E exige, sobretudo a capacidade de não pensar apenas no dia seguinte.

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