A Dor e o «Circo»

Já não sabemos o que nos indigna mais, se mais um atentado com vítimas inocentes, desta vez na Bélgica, se, o que se vai tornando usual, todo o «espetáculo mediático» montado em torno dele.

Já não se trata de informar, esclarecer e denunciar o mesmo, mas de o «explorar» ao máximo, uma exploração que garanta audiências e tiragens, ditado por uma lógica de mero «mercado» que tudo vai dominando, ao mesmo tempo, que, paradoxalmente, se acaba por promover toda uma «publicidade» em volta dos seus autores/mentores, tal como estes terão pretendido!

Para isso, num processo de autêntica morbidez, cinismo e oportunismo:
Repetem-se, até à exaustão, imagens por mais cruas e chocantes que sejam, sem respeito algum pelas vítimas e seus familiares, não raro extraídas das redes sociais, que, tantas vezes, são denunciadas como deformadoras da opinião pública pela imprensa tida como «verdadeira e cristalina» (a mesma que nos vendeu, a mero título de exemplo, «as armas de destruição massiva» que, pretensamente, existiriam no Iraque do tempo de Saddam Hussein e foram justificativo da invasão daquele país, com todas as consequências hoje à vista).

Recorre-se a «especialistas» vários para comentar tudo e mais alguma coisa, que pulam, «excitados», de canal televisivo em canal televisivo ou são chamados a elaborar «aprofundados» artigos de opinião, mas que, contudo, quase sempre olvidam outras não menos vítimas inocentes, estas de drones ou de mísseis teleguiados, seja no Afeganistão ou no Iémen, talvez por as considerarem, neste caso, meros «danos» colaterais (leia-se, a este propósito, o corajoso livro do norte-americano Jeremy Scholl, com o titulo «Guerras Sujas»).

E, assim, num elucidativo sinal dos tempos que correm, no meio do sofrimento e da dor, instala-se o «circo» que o omnipresente «mercado» exigirá.

Categorias
Opinião


Relacionado com: