A demolição do Grémio Olhanense

Há dias Olhão acordou com menos um edifício importante do seu passado – o Grémio Olhanense, onde se alojava a sociedade recreativa que deu o nome ao Largo do Grémio – foi demolido e irá ser substituído por prédio incaracterístico, o que poderá ser um bom negócio para os empresários que adquiriram o imóvel, mas será um mau negócio para a cidade e a população em geral.

É natural que cada cidadão cuide apenas dos seus interesses particulares e por isso, para que o condomínio comum que é a nossa cidade possa ser cuidado, é necessária uma autarquia, que saiba cuidar deste conjunto através de regulamentos e visão de futuro. Ou seja, é necessária uma autarquia que perceba que pela preservação do património comum do concelhos.

Os cidadãos ganham no futuro sempre mais, mesmo quando alguns poucos proprietários e construtores ganham menos com os seus negócios particulares. Esta visão infelizmente tem faltado e lembro-me de ouvir dizer a dois anteriores presidentes da câmara que em Olhão não havia património para defender porque não havia edifícios com valor patrimonial.

A visão de conjunto simplesmente não existia: não se compreendia que o conjunto arquitetónico da zona histórica era valiosíssimo porque é único no mundo, mesmo que fosse apenas composto de casas sem valor individual. Não havendo monumentos, não haveria nada a preservar… pelo contrário, a visão destes autarcas iletrados era de que o melhor que tinham a fazer seria mesmo demolir completamente a cidade e reerguê-la, qual Nova Iorque à beira da Ria Formosa!

Nos últimos anos despontou uma tímida compreensão do valor que o património comum de Olhão já tem, e pode ter mais ainda no futuro. Afinal de contas, o nosso património é o que partilhamos e por isso nos une (e quem não quer sentir que pertence a um grupo unido?), e por isso nos diferencia como grupo específico e especial (e quem não quer ser especial?), é o que nos dá uma identidade única (e quem não quer ser único?), e por tudo isto, é o que nos dá autoestima (e quem não quer ter a felicidade de sentir que tem valor?).

Basicamente, os povos que compreendem o valor do seu património são mais felizes porque sentem todos os sentimentos positivos que acabei de listar. S\ão também mais ricos, porque para funcionarem de forma mais eficiente têm de ser mais unidos e, para isso, terão de partilhar referências comuns, ou seja, assumirem com orgulho e prazer o seu património comum.

É também preciso ser claro quanto ao valor monetário do património, sobretudo numa zona turística como o Algarve. Hoje Olhão está na moda. São muitos os turistas estrangeiros (mas também nacionais) que são atraídos pelo património olhanense e que produziram uma animação sem precedentes no mercado imobiliário, comércio e indústria turística. Ora isto corresponde a empregos, negócios e a riqueza, que é ganha de forma mais sustentada e igualitária, do que no modelo económico baseado no enriquecimento de uns poucos em negócios de construção civil.

Estas são as duas opções alternativas à nossa disposição: ou seguimos um modelo económico que passa pela destruição das referências patrimoniais do passado para enriquecer alguns, empobrecendo a maioria e destruindo-nos como comunidade específica; ou seguimos um modelo que passa pelo fortalecimento da nossa identidade, criando emprego sustentável e enriquecendo a maioria dos cidadãos. Esta decisão cabe à autarquia assumir para o futuro, se tiver visão para isso.

Opinião de António Paula Brito | Vice-presidente da Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão

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