A Cegueira de quem não Alcança

«Bem quereria, George,
Bem quereria mostrar-te o meu país que foi de
Marinheiros;
Mas já não há marinheiros.
Há um deserto de tudo.
Um povo que calçou pantufas no espírito
E se dá ares sem saber de quê (…)»
Fernando Cabrita, poeta de Olhão

O mal-entendido que contamina, desde logo, o texto de António Francisco Ventura Pina dá o mote para o conjunto de argumentos esgrimidos em resposta ao meu artigo «As vistas de Olhão», publicado na edição de 9 de outubro.

Para quem leu e releu o meu artigo e, mesmo assim, chega à conclusão errada de que eu lamento que Faro não possa crescer para a Ria, é porque navega num outro alfabeto de conceitos e de compreensões. Assim, onde eu vejo vistas, António Pina vê obra, onde eu sinto emoção, António Pina avança com empreendedorismo, onde eu vejo valor, António Pina vê preço. Um espaço de vistas para a Ria existe para ser comtemplado, não para ser emparedado. Os sítios que são inspiradores são para ficar como estão, íntegros, puros, sozinhos, para que o seu espírito não se enevoe e deixe de vibrar.

Contudo, a filosofia de quem manda no Algarve tem outro entendimento e, perante tais cenários, opta invariavelmente por lá plantar a pegada da concupiscência…, «é a economia, estúpido!», remata António Pina. Contudo, em contraponto com o PIB, emerge, cada vez mais irresistível, um novo paradigma: «Felicidade Interna Bruta» (Jigme Singye).

Mas existe um segundo contaminante que, de tão arcaico, pensava que já se tinha esvanecido há muito, evidenciado na lapidar frase «Olhão já não é mais o bairro de Faro». Esta fissura paroquial prenhe de complexo de inferioridade olhanense face a Faro, pelos vistos ainda assombra muito boa gente…

Passemos à frente. António Pina fala do mau cheiro que havia em Olhão. Na verdade o perfume mantém-se, só que mudou a essência. Agora, o cheiro que permanece advém de esgotos mal esclarecidos e das descargas dos barcos acostados no porto de recreio que não tem qualquer sistema de saneamento.

Sou, de seguida, acusado de golpe baixo e de desonestidade intelectual por não datar os desmandos urbanísticos que António Pina afirma serem coisa do passado. Ora, a principal razão da paragem da construção (que foi global) foi a crise financeira e não a sensibilidade ou pruridos urbanísticos da Câmara.

Pelas suas palavras induz-se, assim, que esta câmara será incapaz de, por exemplo, sobrecarregar a já muito sacrificada Avenida da República com mais prédios monstruosos e que todos os belíssimos casarões em estado de decrepitude, disseminados na zona central da cidade, irão ser reabilitados e não deitados abaixo para dar lugar a mais prédios informes. Caro António Pina, acha mesmo que isso vai acontecer?!

Mas os desmandos no tempo presente estão por todo o lado. As casas do Centro Histórico têm continuado a ser alvo das mais vis descaracterizações, sem o mínimo cuidado relativamente à sua traça originária, grassando atualmente uma epidemia de lataria como marquises, alpendres e painéis solares no contexto dos telhados de Olhão, fatores de horrorosa dissonância, e que têm sido autorizados a torto e a direito.

Também a calçada portuguesa tem sido incompreensivelmente removida de inúmeros sítios para dar lugar a um piso informe e mercenário. Pergunto, por outro lado, se esta Câmara (e todas as anteriores) já promoveu a classificação de algum edifício na cidade. Vergonha das vergonhas, nem um!!

Relativamente aos edifícios bem recuperados por cidadãos estrangeiros, é falso que tiveram a sindicância da Câmara e da Direção Regional de Cultura.

Foram, isso sim, iniciativas próprias de pessoas sensíveis e cultas (que convivem em vernissages) que desenterraram os princípios da arquitetura tradicional genuína, em contra corrente com o gosto pimba imperante e que tem abastardado as casas tradicionais de uma ponta à outra da cidade.

E para culminar temos um plano de pormenor do Centro Histórico de Olhão, da autoria da Câmara, que permite, entre outras coisas, a ampliação do pré-existente para três pisos (!), significando isto a liquidação, a prazo, da maior proeza arquitetónica de Olhão, que é o seu sistema de açoteias, mirantes e contra-mirantes, algo de único em todo o mundo.

E como cereja em cima do bolo temos, pasme-se, o projeto, sobre a demolição de um enorme e precioso edifício do séc. XVIII, com cantarias, pilastras e trabalhos de massa à moda pombalina e que faz a ligação entre a Igreja Matriz e o bairro da Barreta, de uma torre (Eiffel?) patética, de mais de 20 metros (porque não uma roda gigante com cadeirinhas, tão em voga?), para o turista poder contemplar o processo de extinção das açoteias e mirantes, à medida que as casas se vão transformando em pequenos prédios e a frágil medina se vai desarticulando e sufocando (adeus cidade cubista!).

Não entendo, pois, de que proteção António Pina fala.

Vou, por último, referir a questão central do meu artigo, «As Vistas de Olhão»: a ampliação do porto de recreio e a sua transformação numa marina, até ao cais T.

A enormidade deste projeto que, para lá de outras consequências, vai tapar por completo, qual estore rebaixado, a relação de vistas para a Ria na zona ribeirinha, ilustra, de forma cristalina, o conceito que resfolega nas entranhas pensantes de quem o defende: a transfiguração sem contraditório do genuíno, do singelo e do cultural, em ostentação standard de marina, champanhe e calçadão. Ao fim e ao cabo a receita pacóvia da moda, do especulador básico, que ignora e despreza o principal: a essência do sítio e o espírito do lugar (bye, bye turismo cultural, da natureza e de experiências, o turismo do futuro).

O chalet Victória Saias, pertença da Câmara, ergue-se à entrada de Olhão, como um monumento de indefetível simbolismo: no seu esventramento, ruína e achincalhamento, extroverte-se de forma lancinante a dimensão do desamor e ignorância que as sucessivas Câmaras de Olhão têm tido face à sua terra, em tempos detentora de uma aura sem igual.

PS: Aproveito o ensejo para homenagear Bob Dylan, autor universal e intemporal, e citar aquele refrão: «how many times can a man turn his head and pretend that he just doesn´t see? The answer, my friend, is blowing in the wind, the answer is blowing in the wind»…

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