O momento decisivo segundo João Ribeiro

O fotógrafo João Ribeiro acaba de lançar um excelente livro, «Street Photography», editado pela AlmaLusa. Folheámos um exemplar, gostámos do que vimos e decidimos conversar com o autor, tentando saber mais da sua vida, da sua obra e dos seus projetos.

Este jovem «algarvio» nasceu em Lisboa, há 36 anos, mas vive em Tavira desde os cinco. Disse-nos que cresceu rodeado por fotografias, pois os pais fotografavam por hobby e um dos avôs também tinha uma boa coleção de retratos de família espalhadas pela casa. Assim, não surpreendeu ninguém quando, aos 17 anos, trabalhou no verão e conseguiu parte da verba necessária para adquirir a sua própria câmara, para poder fazer uns cliques à vontade.

«Surgiu-me logo a oportunidade, nesse verão, de fazer uma reportagem fotográfica para o Aeroclube de Tavira, que estava a inaugurar a sua pista. As coisas até correram bem, nessa altura. Ainda hoje existem quadros que, depois, mandei fazer e ofereci ao clube. A partir daí, o bichinho continuou a crescer, até hoje, embora o profissionalismo só tenha aparecido mais tarde».
João Ribeiro iniciou-se ainda na época da fotografia analógica e só muito mais tarde aderiu à digital. Contudo, continua um apaixonado por câmara escura, químicos, revelação, secagem dos negativos, passagem da imagem ao papel. Haverá grandes diferenças entre os dois métodos?

«Costumo dizer, como muitos autores que consulto, que o digital ainda não consegue atingir aquilo que a fotografia analógica atinge, em termos de qualidade de imagem. Estamos a falar da fixação direta da luz numa superfície fotossensível ou da luz convertida em imagem através de impulsos elétricos. Só aderi ao digital, porque a analógica se tornou muito dispendiosa. E o digital torna o trabalho de reportagem mais fácil, porque deixa ver logo o resultado. Nos últimos tempos, tenho-me especializado muito mais no analógico do que no digital».

Ingressou na Força Aérea, no ano 2000, como voluntário. «Nos seis anos em que lá estive, permaneci sempre ligado à fotografia, porque, nos sítios por onde passei, os comandantes sempre me pediram para fazer alguns trabalhos, tanto fotografia aérea como de exercícios militares. Isso culminou em 2004 com uma exposição sobre o centenário do campo de tiro de Alcochete, com fotos minhas e de arquivo».
Quando saiu da Força Aérea, em 2006, levou uns anos a adaptar-se à vida civil e fez uma pausa na fotografia. Em 2009/2010, começou a pesquisar sobre fotografia e a estudá-la. Decidiu investir na sua formação, fez um curso sobre estética fotográfica, através do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, e outro de técnico de fotografia na Universidade de Oxford, tendo concluído ambos.

Em 2011, o nosso entrevistado juntou algumas pessoas interessadas em fotografia e, com um colega, fundou a Associação de Fotógrafos do Algarve (NAFA). «Ao começar a tentar passar a outras pessoas os meus conhecimentos, em tertúlias semanais, que rapidamente passaram a masterclasses com muita adesão, ganhei o interesse pelo ensino, achando interessante levar a fotografia a toda a gente, demonstrar que não é nenhum bicho de sete cabeças e que toda a gente pode entender a fotografia, sem grandes problemas. Tirei a formação inicial de formadores (CAP) e comecei a ser requisitado pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) para algumas ações de formação».

Há três anos, João Ribeiro ingressou como formador na área da fotografia na Escola Profissional Gil Eanes, em Portimão, fazendo a sua vida entre as cidades do Arade e do Gilão.
Interessando-se por várias áreas de fotografia, com destaque para a tendência moderna da astrofotografia, escolheu a fotografia de rua, quando decidiu publicar. Porquê?

«O tema fascina-me bastante, pela adrenalina e pelo massajar cerebral que nos dá podermos caminhar entre as pessoas e captar momentos, muitas vezes antecipando-os para os podermos registar para a eternidade».

Fotografia de rua ou retrato de rua? Esta é a pergunta que surge muitas vezes, em relação ao trabalho de fotógrafos de rua famosos, como Cartier-Bresson ou Kaushal Parikh, cuja maioria das fotos parecem encenadas. O que pensa o João Ribeiro?

«Dentro da fotografia de rua, há várias vertentes. A maior parte dos livros de Cartier-Bresson são retratos de rua, mas também fez excelentes fotos de rua. O segredo consiste em esperarmos num local, tentando antecipar um momento. E ele foi o grande defensor do momento decisivo».

Folheando o livro «Street Photography» deparámo-nos com várias tendências, incluindo retrato de rua. João Ribeiro explicou ao «barlavento» que «o livro mostra mais retratos de rua do que fotografia de rua pura, captando o momento decisivo. Não sigo uma linha pura, porque gosto de familiarizar-me primeiro com o local onde vou fotografar, para poder sentir o pulsar das pessoas. Só depois me misturo e começo a disparar, quando sinto o momento decisivo. Muitas vezes, estou a fotografar em cima das pessoas e elas nem se apercebem, porque estou a olhar noutra direção. Jogo muito com isso. Pretendo mostrar, de forma provocatória, outra imagem das pessoas. Explorar uma maneira própria de fotografar».

Nos projetos futuros, disse-nos que «Estou há sete anos como dirigente associativo e sei que é difícil. No início, toda a gente tem muito interesse mas, passados dois ou três anos, começam a desinteressar-se e o trabalho fica em cima de dois ou três. Mas continuo a ser mula teimosa e, como existe uma lacuna no Barlavento, estou no processo de iniciar aqui uma associação de fotógrafos, para levar a fotografia às pessoas de forma divertida».

Para saber mais sobre o livro ou a associação de fotógrafos na forja, os contactos do João Ribeiro são: 965 112 181 ou [email protected]

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