Nuno Lopes, o artesão joalheiro

«Chegamos à Praia da Rocha e 90 por cento das pessoas que lá vemos apresentam material contrafeito, comprado ou montado. Artesãos com carteira, são muito poucos».

Nuno Lopes, 40 anos, é um artesão joalheiro portimonense. O seu interesse foi despertado, na adolescência, por um artesão argentino que encontrou na Amazónia, que trabalhava o arame e com quem passou duas tardes. Um dia, agarrou nuns pedaços de arame que tinham sobrado e nos alicates e decidiu fazer uma pulseira igual à que tinha adquirido do Brasil. A namorada gostou, pediu para fazer outra e mais outra, alguém mostrou uma a um senhor de uma loja, este contactou-o, Nuno começou a fazer para ele e nunca mais parou.

barlavento – Mas a joalharia não é fácil, tem de se conhecer bem os materiais, obriga a uma formação específica, não é?
Nuno Lopes – No final do meu curso em engenharia agropecuária, consegui um estágio em Lisboa. O trabalho ajudou a pagar a minha formação artística, na Contacto Direto, onde estive cerca de dois anos. Mas é difícil entrar no meio da joalharia; ou se vem de uma família de joalheiros, ou temos uma família rica, porque os materiais e as ferramentas são caríssimos. Aguardei para ir crescendo como pessoa e ver quais as possibilidades. Dediquei-me à minha carreira académica, trabalhando para a Direção-Geral de Veterinária, durante dez anos. Entretanto, ia praticando em casa, fazendo coisas para amigos e familiares.

Em 2008, aceitou um convite da sua atual namorada e foi a Espanha fazer um teste de joalharia para um centro de formação profissional. Foi aceite e ficou lá cerca de três anos, trabalhando já para a empresa, a meio tempo, no último ano, enquanto continuava a formação.
Evolui bastante nas técnicas da joalharia clássica feita à mão, porque o país vizinho tem subsídios e escolas que funcionam. Ao fim de três anos e meio a trabalhar em Sevilha, e com a crise económica a agravar-se, os empregos foram escasseando, deu-se a grande subida do preço do ouro e fiquei sem trabalho. Regressei a Portimão, montei uma oficina e comecei a fazer as minhas peças, a marcar o meu caminho e o meu espaço próprio dentro da comunidade da joalharia e do artesanato.

Que materiais usa?
Prata e pedras semipreciosas são os principais. Como ainda não tenho uma oficina como gostaria, as perdas de materiais são elevadas. Por isso, evito trabalhar o ouro.

Como faz a comercialização?
Gostaria de abrir uma oficina com todas as condições ao público. Até lá, porque o meu objetivo é criar peças únicas, procuro expor em feiras, galerias e mercadinhos locais, em contacto direto com o público, para poder explicar os meus trabalhos e para que as pessoas possam sentir a minha personalidade nos mesmos. Prefiro, muitas vezes, trabalhar por encomenda. A pessoa deve usar uma joia que seja só sua, usar artefactos no dia a dia que a distingam dos outros.

Vivendo numa zona turística, vende mais aos nacionais ou aos estrangeiros?
Nos últimos três ou quatro anos, a maior percentagem das minhas vendas têm sido feitas a turistas. Atribuo o facto ao fator económico em que nos encontramos e também à sensibilidade das pessoas para o produto em causa. Os países do sul da Europa são menos sensíveis ao artesanato e aos resultados de trabalhos de artes e ofícios do que os do norte.

É possível viver do artesanato?
Há que equacionar muito bem quatro pontos, antes de iniciar a atividade: custos de produção, valores porque vamos vender, que tipo de peças vamos produzir e que tipo de clientes queremos alcançar. Se a equação for bem feita, dá para viver do artesanato. Levo o mesmo tempo a fazer um brinco em arame ou em ouro. Mas, como o ouro é mais caro, consigo ganhar mais. Prova que dá é que eu vivo dele. Mas não se pode contar com a segurança ao final do mês. Também se deve fazer a distinção entre artesanato e manualidades. Nos últimos anos, com a crise dos empregos, quem tem habilidade de mãos dedicou-se a fazer manualidades.

Pode explicar-nos a diferença?
O artesanato implica a transformação de matéria-prima. Não posso considerar um artesão quem compre um fio de couro, vá a uma loja e compre uma mão-cheia de contas e um fecho, enfie as contas no fio e aplique o fecho. E ainda há pior: os que compram artigos em grandes quantidades, feitos industrialmente, e os distribuem pelos «artesãos de rua», que não criam nada, exceto riqueza a nível pessoal, prejudicando os verdadeiros artesãos, por vezes a vender na banca ao lado, e os próprios comerciantes, que pagam impostos durante todo o ano e têm o mesmo produto vendido numa banca em frente por alguém que se intitula «artesão». Chegamos à Praia da Rocha e 90% das pessoas que lá vemos apresentam material que é contrafeito, comprado ou montado. Artesãos com carteira, na Praia da Rocha, existem muito poucos.

Mas estão lá como artesãos ou como vendedores ambulantes?
O problema é que está tudo misturado, quando uns são simples vendedores e os outros produtores de riqueza. Os artesãos promovem o país com produtos de qualidade, porque quem dá a cara tem de ter qualidade. Então, façam uma separação e definam as áreas de venda ambulante e a de artesãos. E, quando falo em artesãos, falo em artistas locais, artífices, artistas plásticos, pintores.

Cultura em vez de megaprojetos

Na perspetiva do nosso entrevistado, Portimão, Praia da Rocha, Alvor e Ferragudo têm grandes condições para apresentar cultura, durante o verão. Em vez de megaprojetos, que não deixam nada nas cidades, podem ser realizados eventos pequenos, mas sustentáveis, como foi feito em Tavira. Enquanto isso não acontece, vai comercializando nos municípios de Loulé, Tavira e Monchique e em galerias fora do país, como Sevilha e Madrid. Segundo Nuno Lopes, a maioria dos municípios do Algarve ainda não criou condições logísticas para a apresentação e comercialização de trabalhos de qualidade. Em sua opinião faltam condições para que os artistas possam trabalhar ao vivo, contribuindo para a cultura artística dos cidadãos. No caso de Portimão, adorava que as instalações desocupadas na fortaleza de Santa Catarina fossem cedidas aos artesãos, criando um importante polo de interesse nessa zona da Praia da Rocha. Também vê a Zona Ribeirinha com grande potencial.

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