Michael Lauren: Um músico que não pensa na reforma

Michael Lauren gosta de tocar todos os géneros e acompanhou um número impressionante de grandes artistas, como Paul Anka e Tom Jones. Nunca se dedicou exclusivamente a um género musical, tornando-se um virtuoso, porque tal levaria a convites sucessivos para tocar esse género, impedindo-o de tocar os outros. E, também, porque limitaria a sua atividade de formador, a sua outra paixão. Contudo, em Portugal, onde vive desde 2006, dedica-se quase exclusivamente ao jazz, embora se considere «um baterista de jazz com o rock and rol no coração».

barlavento – O que aconteceu, Mike, para se operar tal mudança?
Michael Lauren – Não foi complicado. Nessa altura, questionava-me sobre o que poderia fazer mais na minha carreira e onde iria viver, quando me reformasse. Tinha muitos estudantes portugueses, em Nova Iorque, que me falavam sobre o excelente estilo de vida em Portugal. Em 1998, um estudante convidou-me e vim por duas semanas. Vim e Portugal era tudo aquilo que me dissera. Nessa altura, ainda não existia educação em percussão e nem uma escola superior de educação em jazz. Regressei várias vezes para ministrar workshops. Numa dessas ocasiões, na ESMAE (Escola Superior de Música, Artes e Espetáculos), no Porto, estava a almoçar com a administração, quando soube que estavam a criar um departamento de jazz. Mas eles tinham o Mário Barreiros, um dos melhores bateristas portugueses, e eu não estava à procura de emprego. Era uma conversa de ocasião. Mas acabei por vir por três meses, porque numa semana ou duas, só vemos as coisas superficialmente, e decidi que, se me oferecessem algo concreto, vinha e saía da confusão da grande metrópole. Mas teria de abandonar muitas coisas e a segurança profissional que Nova Iorque me proporcionava. Regressei ao EUA, mas recebi um telefonema, um mês depois, oferecendo-me uma posição que me permitiria realizar mudanças, o sonho de qualquer educador. Em suma, poderia fazer em Portugal o que teria dificuldade em fazer em Nova Iorque. Porque, basta mudares um baterista para que os outros, ao ver a sua evolução, tentem manter-se ao seu nível ou ultrapassá-lo.

E conseguiu fazer essas mudanças?
Na verdade, fui o coordenador do Departamento de Jazz da ESMAE, de 2006 a 2010, contactando com alunos de outros instrumentos. Assim, a oportunidade foi ainda maior para criar e manter um certo nível de educação e de disciplina, implementando um método conceptual americano para o estudo do jazz. Foi muito mais do que tinha imaginado. E, porque pretendia ajudar bateristas em todo o País, acabei por criar a International Drum Academy em Lisboa, com um nível de ensino superior. E com mais matérias do que no Porto, porque não me limito ao jazz. Um baterista deve ter conhecimentos de vários géneros musicais e ser capaz de trazer esses conceitos rítmicos para o jazz. O jazz é uma música em evolução, bebendo nas mais diversas fontes musicais. E, para ser um músico moderno, tens de ser tão versátil quanto possível, para conseguir trabalho.

Tivemos o prazer de assistir ao Festival Internacional de Percussão de Portimão e sentimos a sua energia, que se manifestava de uma forma exuberante, tocando-nos…
Nós somos o que somos. Gosto da dinâmica e da excitação que me dá a música e, inconscientemente, transmito-as ao tocar. O músico tem de transmitir ao público o que sente, nesse momento. Há uma energia que nos percorre. E, porque sou um percussionista e experimentei outros instrumentos, para além da bateria, compreendo o que os meus colegas estão a fazer e torna-se mais fácil entrar em sintonia com eles. E adoro tocar.

Muita gente ainda pensa que bateria se toca por intuição, sem necessidade de grandes conhecimentos musicais. O Mike está a dizer exatamente o oposto…
Necessita, acima de tudo, de muito controlo e coordenação. Há bateristas que o desenvolvem por intuição, mas todos os géneros têm técnicas específicas e, se o baterista for musicalmente educado, compreende melhor o que os outros instrumentistas estão a fazer e o que necessitam de si. Aliás, os bateristas sem educação musical estão a desaparecer. E a maioria dos bons bateristas começaram noutros instrumentos.

Aos 65 anos, está a pensar em reformar-se? E onde?
Um músico não se reforma (risos). Falando a sério, estou a pensar abrandar dentro de cinco anos. A ideia é trabalhar menos, terminando a vertente docente. Ainda não decidi exatamente onde irei viver, mas o Algarve tem excelentes possibilidades de ser a zona eleita. Uma das características dos artistas é a incapacidade de deixar o trabalho à porta de casa. Sempre que posso, pratico novas ideias, muitas vezes a partir das que abandonei há vinte anos. Há qualquer coisa quase Zen no processo de ensaiar. Costumo dizer que quem não gosta de praticar não deve ser músico profissional. Porque é necessário, para nos mantermos no topo, sentir a energia, ser disciplinado, ter objetivos.

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