Márcio Ramos, «explicador» de guarda-redes

Márcio Ramos, 35 anos, antigo guarda-redes profissional, notou que existia uma lacuna na preparação específica de jovens aspirantes a essa posição e decidiu colmatá-la. O seu trabalho já começou a dar frutos, no estádio municipal de Estômbar, que a Câmara de Lagoa colocou à disposição da sua escola.

Márcio iniciou-se com 11 anos, no Povoense, um clube modesto de Lisboa, tendo transitado para as escolas de formação do Sporting Clube de Portugal, dois anos depois, vindo a jogar seis anos nas camadas jovens e dois na equipa B deste clube. Depois, alinhou em várias formações, por todo o país, tendo terminado a sua carreira no Portimonense, aos 33 anos. E decidiu abrir uma escola de guarda-redes. «Funciona com miúdos dos seis aos 17 anos e o projeto surgiu porque é notória a falta do treino específico para guarda-redes, no Barlavento algarvio.

Marcio_Ramos_4Aliás, essa falta é notória em termos nacionais. Os clubes não conseguem ter treinadores para dar essa formação, por razões económicas. Fui incentivado a abrir a escola, já depois de ter iniciado as funções de guarda-redes dos juniores do Portimonense. Sinto-me bem a ensinar tudo aquilo que aprendi, durante muitos anos, depois de ter passado pelas mãos de vários treinadores», explicou ao «barlavento».

Segundo Márcio Ramos, há pouca formação para esta posição tão específica dentro de uma equipa. «Não só nos aspetos técnicos e táticos, mas também nos aspetos psicológicos. Um treinador de guarda-redes tem de saber o que este está a sentir, nos vários momentos do jogo. Se não foi guarda-redes, não consegue saber o que se sente, ao defender um penálti ou ao sofrer um frango. O que é que tem de fazer para reagir».

O agora formador considera que é necessário ter uma enorme força mental, porque a pressão, quer dos colegas, quer dos adeptos, quer de si próprios, é enorme. O guarda-redes é sempre a última barreira, a culpa dos golos recai sempre sobre estes jogadores. «Sinto que, com o trabalho que tenho vindo a fazer, eles se sentem mais preparados, tanto mentalmente, como no campo técnico-tático, para que todos possam desempenhar melhor as suas funções, nos seus clubes».

Sim, porque qualquer um dos cerca de vinte jovens, de várias idades, que frequentam, neste momento, a escola do Márcio Ramos, joga num clube. «Eu sou uma espécie de explicador. Os pais sentem que os filhos têm potencial e capacidade, mas que não conseguem melhorar, por falta desse treino específico, nos clubes onde militam, e vêm falar comigo para os ajudar nesse campo. Eu tento corresponder e colmatar as fraquezas que existem, sejam físicas, técnicas ou psicológicas».

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O nosso entrevistado diz que alguns dos jovens que chegam à sua escola, já tiveram esse treino específico, «estão mais à frente», mas a maioria nunca o teve. Também a idade é fator a ter em conta.

«Um miúdo de seis ou sete anos terá um treino específico totalmente diferente daquele que necessita um outro com 16 ou 17. E é muito mais fácil trabalhar com um miúdo mais novo, porque ainda não têm vícios».

Márcio Ramos considera o jovem Tomaso, que o Futebol Clube do Porto contratou e foi entrevistado pelo «barlavento», há algumas semanas, o expoente máximo dos seus alunos, até ao momento, com uma grande maturidade emocional. Mas diz ter mais na forja.

«O controlo emocional é muito importante num guarda-redes e também se treina. Tão importante como saber agarrar uma bola, fazer um voo, cair com uma bola, sair a um cruzamento».

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Não podíamos deixar de abordar a marcação e defesa de penáltis, a situação mais que coloca mais pressão e stress ao guarda-redes. «Há várias situações que podemos utilizar para tentar defender um penálti. A mais importante é acreditarmos que o vamos defender. Há movimentos com o corpo para tentarmos induzir o adversário em erro. Tentar saber para que lado é que habitualmente marca. O posicionamento corporal de quem vai chutar também dá indicações, mas isto num patamar mais elevado, como é óbvio. Mas não é uma ciência exata; caso contrário, defendiam-se todos os penáltis. Como há jogadores que esperam que o guarda-redes se atire para um lado, para atirar para o outro, há quem tenha o sangue-frio para esperar até ao último minuto, para não dar essa vantagem. É um eterno duelo». A concluir, Márcio Ramos fez questão de agradecer publicamente à Câmara Municipal de Lagoa, na pessoa do vereador Luís Encarnação, todo o apoio que lhe tem sido dado, nomeadamente com a cedência das instalações. E, também, ao senhor Teodoro, o maior investidor da SAD do Portimonense, que apoiou o projeto de braços abertos e lhe deu total disponibilidade para avançar e acumular com a posição que ocupa no clube.

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