Luthier de Olhão constrói instrumentos à medida de cada músico

João Pessoa exporta os seus instrumentos feitos à mão do Algarve para todo o mundo.

João Pessoa nasceu em Moçambique, há 45 anos. Viveu na África do Sul até aos quatro e no Brasil até aos dezoito. «Depois, vim para casa», disse, uma vez que Olhão é a terra natal da sua mãe.
Não há muita gente a construir guitarras, baixos, cavaquinhos e afins em Portugal, pelo método artesanal. Na guitarra portuguesa, contam-se pelos dedos. Há os Grácio e os Cardoso e pouco mais. No caso de João Pessoa, não é um legado familiar, mas uma opção de carreira. «Sempre tive a pancada da carpintaria e, quando era adolescente, comecei a fazer instrumentos por curiosidade. Arrisquei, fiz um e, depois de ter concluído o curso de Design na Universidade do Algarve, resolvi abraçar a profissão a sério», contou.

Desde 1999, a sua empresa «JP Custom Guitars» constrói instrumentos de corda personalizados, de alta qualidade, tanto acústicos como elétricos. O desafio é perceber «as necessidades de cada músico, quer em termos sonoros, quer ergonómicos. Qual a sua estrutura física, qual o tamanho de mãos, que tipo de som deseja. A partir daí, o instrumento é feito por medida, especificamente para quem o vai tocar. Contudo, quem deseja um acústico tem de ter uma referência. Já deve ter tocado um dos meus modelos, para conhecer as suas tonalidades e poder escolher o que mais se enquadra na sua música ou no seu gosto pessoal», explicou. O material utilizado é fundamental para responder às expetativas dos clientes.

«Uso madeiras curadas durante muitos anos, muito estáveis. Tenho fornecedores específicos, de acordo com o material de que necessito – madrilenos, italianos, dos Estados Unidos da América, da América do Sul». É feito um molde do instrumento e inicia-se o processo. João Pessoa fotografa o progresso dos trabalhos e envia fotografias, semanalmente para o cliente acompanhar o projeto. A meio da construção, sempre que possível, o músico vem experimentar o braço, antes de o instrumento seguir para a fase de acabamentos. Contudo, o luthier do Algarve tem muitos clientes de longe, com os quais só contacta através da internet e que nem sempre podem fazer os testes presencialmente. Têm de confiar na arte, na experiência e no saber deste construtor.

Um instrumento leva, em média, entre 50 a 70 horas de trabalho. O ritmo de produção não pode ser contínuo, porque os instrumentos são colados, sem um único prego, e há que respeitar o tempo de secagem das colas e dos vernizes. A solução encontrada por João Pessoa para rentabilizar o seu tempo, é trabalhar em vários projetos em paralelo. Ainda assim, não produz mais do que duas a três obras por mês. Um instrumento elétrico, por exemplo um baixo ou uma guitarra, com a assinatura do luthier de Olhão não custa menos de mil euros. Os acústicos são mais caros, porque requerem mais trabalho, mais rigor e um cuidado mais demorado nos acabamentos. «O tempo que levo a fazer o reforço de um tampo acústico é o mesmo que gasto a fazer o corpo inteiro de uma guitarra elétrica», comparou.

Uma guitarra portuguesa não sai por menos de dois mil euros. E «é barato, comparado com a mesma gama feita por pessoas com nome antigo no mercado. Ofereço a melhor relação preço/qualidade e a assistência técnica dos meus instrumentos é gratuita». E trata-se de um instrumento belo e complexo. «Leva, no mínimo, quatro tipos de madeira: as ilhargas e o fundo são em pau-rosa ou pau-santo; o tampo é construído em cedro, abeto ou pinho de flandres; há mogno ou o cedro vermelho para o braço e ébano para a escala. Depois, há os frisos e as decorações, que podem ser feitos em madeiras diferentes. E ainda os trastes, que vêm em rolos. São cortados e embutidos nos roços abertos no braço. São vários continentes que se juntam num objeto». A terminar, João Pessoa explica como funciona este mercado dos instrumentos musicais: «a grande fatia dos meus clientes algarvios para os instrumentos elétricos são os músicos de bandas. No caso dos instrumentos acústicos são professores de música. Mas também trabalho muito para o resto do país, principalmente com os elétricos e os eletroacústicos».

No seu atelier também existe uma secção de reparações de instrumentos, bastante requisitada pela comunidade local. Refira-se que os instrumentos da «JP Custom Guitars» têm vindo a ganhar a confiança e o respeito de muitos músicos portugueses e estrangeiros. O ano passado, Pessoa lançou um projeto de crowdfunding com o objetivo de levar a marca algarvia à Musikmesse, a maior feira europeia de instrumentos musicais em Frankfurt. Conseguiu angariar 7805 euros, ou seja, 113 por cento do que necessitava, com 124 apoiantes.

Quinta João de Ourém
– Armazém 1
8700-207 Olhão
Tlm 963 367 274
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