João Guerreiro, uma herança de peso no acordeão

João Filipe Guerreiro nasceu em Faro há 23 anos, trazendo consigo uma herança de peso: ser filho de Hermenegildo Guerreiro, um dos maiores nomes do acordeão no Algarve, grande obreiro na sua defesa, desenvolvimento e ensino da arte de bem tocar aos mais novos.
«No meu quinto aniversário, recebi uma prenda um pouco diferente do habitual. Cheguei ao meu quarto e tinha um acordeão-bebé em cima da minha cama. Comecei a experimentar até que, em determinada altura, o meu pai achou que era o momento propício para me ensinar a tocar a sério».

E assim se iniciou João Guerreiro, praticando e concorrendo, até que a entrada na universidade o obrigou a alterar a rotina. O curso de engenharia informática, cuja licenciatura já concluiu, era exigente e tão desfasado da música, que o obrigou a algumas paragens temporárias. «Cheguei a estar dois anos sem tocar». Internacionalmente, João Guerreiro ganhou o seu primeiro prémio em 2009, curiosamente na sua primeira participação a esse nível. «O Troféu Mundial foi em Albufeira, correu muito bem e fiquei em segundo. Foi muito positivo. Em 2010, fiquei em terceiro e, depois, veio a universidade e tive quatro anos de pausa».

Finalmente, terminado o curso, regressou e, em 2014, foi segundo na Taça do Mundo, realizada na Áustria, e obteve a mesma classificação em Castelfidardo, «a capital do acordão» italiana. No corrente ano, regressou a Itália, para se sagrar vencedor do Prémio Internacional, na categoria senior de Varieté. Na passada semana, em Portimão, no Troféu Mundial de Acordeão, onde se apresentaram os melhores do mundo, foi segundo na mesma categoria, só perdendo para o bielorrusso Anatoli Taran.

João Guerreiro adianta que, neste momento, está num impasse, tentando decidir sobre qual será a sua carreira principal: o acordeão ou os computadores. «Há meses que luto com esse dilema e não é fácil. A música é uma paixão, mas também sabemos que não é fácil viver dela. Há muita instabilidade; um mês pode ser bom e o próximo já não o ser. Por isso, fico na incerteza».

Questionado acerca da vertente clássica, João Guerreiro diz que nunca a experimentou, mas que talvez tente num futuro próximo e poderá até vir a gostar de interpretá-la. «O Algarve pede muita música popular e tenho essa capacidade. Também executo a vertente mais formal, a varieté, um pouco de jazz, um pouco de música do mundo, tentando aliar todos esses conceitos», explica.

Sobre o nível do concurso, «não são palavras minhas, os próprios jurados o disseram, houve muitos candidatos fortes, todos os que foram à final eram muito bons e a vitória tanto podia pender para um como para outro. Quem ficou em primeiro, poderia facilmente ter ficado em quarto ou quinto. O teatro é espetacular, a cidade é bonita e toda a gente está a adorar o país. Penso que foi positivo por parte da organização». Ainda sobre o seu futuro, o jovem acordeonista considera necessário gravar um CD, «uma lacuna na minha curta carreira». E também participar em grupos com vários instrumentos, trios, quartetos, para ir experimentando. «Gosto de experiências novas e a própria música é uma aventura».

66º Troféu Mundial de Acordeão bateu recordes de participação

Organizado pela Academia de Música de Lagos e pela Confederação Mundial de Acordeão, decorreu, durante toda a semana passada, o 66º Troféu Mundial de Acordeão, usando as fantásticas condições acústicas do TEMPO -Teatro Municipal de Portimão, exaltadas por participantes e membros do júri, em conversas informais com o «barlavento».

O evento teve a participação do maior número de sempre de concorrentes de todo o mundo. Também o Troféu Nacional de Acordeão, contou com grande participação de músicos estrangeiros. De tal modo, que os melhores classificados portugueses, por sinal algarvios, foram Hugo Madeira, 1º na categoria até 10 anos, e Francisco Monteiro, 2º na categoria até 17 anos, tendo os prémios maiores sido arrebatados por concorrentes internacionais, até de paragens tão longínquas como a China e a Rússia.

No Troféu Mundial, outro algarvio se destacou, João Guerreiro, 23 anos, que conquistou a segunda posição na categoria varieté. O brasileiro Gustavo de Almeida foi 2º, na categoria júnior varieté.

O «barlavento» foi o único órgão de comunicação social que acompanhou os concorrentes, delegados e jurados num passeio de barco à descoberta das falésias do concelho de Lagoa, no final do evento, para descomprimir e dar a conhecer um pouco do litoral algarvio, antes da Gala de Encerramento.

Aproveitámos a oportunidade para uma breve troca de impressões com a pessoa que despoletou todo este evento no Algarve, o professor Gonçalo Pescada. «O balanço foi extremamente positivo, com concorrentes de 26 países em competição e uma maratona musical durante toda a semana, para apurar os melhores. A qualidade foi muito boa, principalmente nas categorias onde os prémios são mais apetecíveis, como é o caso da categoria sénior concerto, com um prémio de cinco mil euros, em que apareceram candidatos de grande nível», considerou.

Gonçalo Pescada manifestou o seu contentamento, não apenas porque a organização e logística correu bem, mas sobretudo porque está convicto de que este evento «vai deixar raízes na região. Até porque muitos alunos nossos, que não teriam possibilidade de comprar viagens para o estrangeiro, aproveitaram este ano para fazer em casa, a preparação para o concurso. No futuro, irão ter melhor qualidade, graças a esta oportunidade».

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