«Há escassez de sardinha e de mão de obra» diz Jorge Vairinhos

«O problema não é a quota de pesca, mas a má gestão da mesma», diz Jorge Vairinhos, 60 anos, que acaba de trocar mais de quatro décadas de atividade na pesca do cerco pela pesca artesanal, com covos e redes de amalhar. «Pescar significa procurar, sem garantia de encontrar. No passado, um barco saía para a faina e não apanhava nada, durante dois, três ou mais dias. Repentinamente, tinha sorte e vinham na rede 10, 12 ou 14 toneladas de sardinha. Vinha toda para terra, era vendida na lota e compensava os dias sem capturas. Hoje, se tal acontecer, o pescador está limitado pela quantidade de captura diária possível. Imagine que é obrigado a jogar fora. É injusto ter o peixe na rede e ter de libertá-lo. Além de que muito vai morrer, pois já perdeu a escama, enquanto esteve aprisionado na rede».

Jorge Vairinhos nasceu em Angola e estudou até aos 17 anos, quando a descolonização obrigou a família a regressar a Portugal. Como tinham parentes em Quarteira ligados ao mar, foi ali que assentaram arraiais e foi no mar que o jovem começou a trabalhar.

Vem do tempo em que o problema não era a falta de peixe, mas o seu escoamento. Havia muita sardinha, o consumo público era baixo e as fábricas, que assimilavam cerca de 90 por cento das capturas e eram o ganha-pão dos pescadores, começaram a fechar.

«Comecei de baixo, fui subindo na hierarquia, degrau a degrau, até chegar a mestre. Passado uns anos, adquiri a Mirita, traineira que já tinha governado como mestre, acumulando as funções de patrão e mestre. Por razões de saúde, tive de deixar o mar e arranjar um mestre».

Como tinha tempo disponível, dedicou-se à Barlapescas, uma organização de produtores sediada em Portimão, a cujos órgãos sociais esteve ligado, até que decidiu desistir da pesca do cerco, porque «a pesca da sardinha, neste momento, não tem atrativos».

Durante anos, Vairinhos esteve presente nas reuniões entre governantes e armadores para a fixação das quotas e da sua gestão, acrescentou que, com os atuais stocks em baixa, passam muitos dias sem capturas. E que, se houvesse interesse, poderiam encontrar um modo de gestão mais racional e que desse melhores condições aos pescadores e armadores.

E porque tal não acontece? «Os governantes, principalmente os secretários de Estado com quem lidámos ao longo dos anos, não eram grandes entendidos na matéria. E a pesca da sardinha representa cerca de 50 por cento do PIB do sector, tanto em termos económicos, como sociais. Existem Organizações de Produtores (OPs), principalmente no norte, que têm muita força a nível social e económico. Como se diz, quem tem dedos é que toca viola e esses indivíduos é que mexem os cordelinhos; não é o governo».

Segundo Jorge Vairinhos, toda a gente sabia que os recursos estão em baixo e que as quantidades iam ser menores no corrente ano (a quota ainda não foi atingida e os barcos continuam a pescar). Mas havia a convicção de que os preços iriam subir e compensar a falta de capturas e tal não aconteceu, «porque houve fatores externos que o impediram».

Questionado sobre se a razão era a importação maciça de peixe por parte das fábricas de conserva, responde que não. «As fábricas têm de comprar noutro lado, ou não trabalham. E têm dificuldade em acompanhar os preços do peixe fresco, por causa do consumo doméstico e principalmente da restauração».

Então, quais foram os fenómenos externos? «Quem inflacionava os preços eram os hipermercados. Hoje, têm um controlo maior, estão mais comedidos nos preços de compra e levaram à baixa dos valores em lota. Este ano, os preços foram razoáveis para os consumidores, mas pouco expressivos para os pescadores, porque a época da pesca da sardinha resume-se, na verdade, a três meses fortes».

Além da redução do stock, também a qualidade da sardinha tem vindo a decair, desde o grande atraso na maturação à falta de sabor, mesmo quando estão gordas. Vairinhos atribui esse fenómeno, tal como a escassez de recursos, «às grandes alterações climatéricas que estão a acontecer, pois os estudos indicam que o esforço de pesca contribui apenas para 25 por cento dessa redução. E o fenómeno não está limitado a Portugal. É muito mais vasto».

Faltava perceber as razões que levaram este antigo mestre e armador a trocar de artes. «A pesca artesanal dá-me o garante de ter trabalho o ano inteiro, pois não sou subsídio-dependente, nunca recebi subsídios da Segurança Social, em toda a minha vida. As épocas da sardinha são muito curtas e não acho apetecível trabalhar cinco ou seis meses no ano, faturando apenas durante três ou quatro e depois ir para o Fundo de Desemprego. O que iria inclusivamente afetar a reforma, porque, na pesca, os descontos são feitos sobre o valor das vendas, apurando-se, a partir dos descontos, um valor salarial correspondente.

Outro motivo foram as mudanças feitas, a partir do ano passado, na atribuição do subsídio concedido pela União Europeia para os barcos ficarem em terra durante os meses de defeso. Começaram a dar os subsídios em função das vendas efetuadas por cada embarcação. Logo, quem vendeu mais e ganhou mais tem direito a uma fatia maior do subsídio. Quem ficou beneficiado foram seis ou sete barcos de Matosinhos, que pescaram sardinha em todo o país, acabaram com biqueirões, fizeram uma safra magnífica e, depois, o subsídio incidiu sobre a venda dos biqueirões, quando o subsídio é para a pesca da sardinha. Acho que não está certo e, quando não gosto, simplesmente viro as costas».

Categorias
Talento


Relacionado com: