Guitarrista algarvio Rui Mourinho conversa sobre a carreira

«Aprendi muito com os professores, mas ainda mais com os alunos».

«Fui passar férias a Silves e, uma manhã, deveria ter 15 anos, cheguei a casa do meu primo Miguel, que estava a aprender guitarra, vi-o tocar e fiquei deslumbrado com o instrumento. Devo ter ficado assim toda a manhã, pois só me recordo da minha tia nos ter vindo chamar para o almoço. Aprendi com ele a colocar os dedos nas cordas e a fazer alguns acordes», começou por dizer ao «barlavento» Rui Mourinho, 40 anos, natural de Portimão.

«Foi uma sensação tão forte que, quando regressei a casa, em Albufeira, pedi à minha mãe para ir aprender a tocar o instrumento. Inscrevi–me numa loja de música, única opção formativa existente, e arranjei um part-time nas férias, para conseguir comprar uma guitarra, enquanto ia aprendendo numa emprestada. Ao fim de dois anos, sempre a querer aprender mais, o professor, disse-me que era pianista e que não sabia mais guitarra para me ensinar».

Eis o início deste talentoso guitarrista que lançou, em fevereiro, o seu primeiro CD a solo, «Guitar Works – Volume I», inteiramente baseado na obra de um compositor contemporâneo, Stephen Goss, cujos trabalhos começou a estudar no âmbito da tese de mestrado e que continua a aprofundar para o doutoramento.

Regressando ao início da carreira, Rui Mourinho inscreveu-se, ao mesmo tempo, no Conservatório Regional Maria Campina e na Universidade do Algarve, ambos em Faro, no curso de Engenharia Elétrica e Eletrónica, cursando o primeiro durante o dia e o segundo no regime noturno. Contudo, cedo concluiu que não podia continuar com ambos e decidiu abandonar engenharia. «Já sentia que o meu caminho era a música, mas nunca pensei em segui-la como profissão. O que eu desejava mesmo era aprender». Após seis anos no Conservatório, o professor Eudoro Grade, que Rui Mourinho considera ter sido «um pai para muitos de nós», aconselhou-o a ingressar no Ensino Superior e inscreveu-se na Escola Superior de Música de Lisboa, onde tirou o bacharelato. Depois, cursou a licenciatura, permanecendo em Lisboa durante a semana e dando aulas no Algarve, ao fim de semana.

«Os professores gostavam do meu trabalho, viam alguma qualidade e, de vez em quando, arranjavam-me algo. O professor Eudoro Grade abriu-me muitas portas e, assim, fui conciliando o ensino e a interpretação, tanto no país, como no estrangeiro. Em 2009, surgiram os primeiros mestrados em música e tornei-me mestre em performance. Neste momento, sou doutorando na mesma área».

No passado, gravou como elemento do grupo Vá-de-Viró, «música de câmara com raízes tradicionais, tentando recuperar músicas e melodias», e também com o Ensemble de Flautas de Loulé.
Gonçalo Pescada deu-lhe a ideia do CD a solo e, em 2016, entre a família, «da qual não abdico», as aulas em Portimão (na Escola Básica e Secundária da Bemposta) e em Albufeira (no Conservatório de Música), os concertos e o doutoramento, conseguiu encontrar tempo para gravar, com o apoio da autarquia albufeirense.

Rui Mourinho considera que a proliferação do ensino especializado de música mudou o panorama musical algarvio para melhor. «A formação é tudo. Como é qualquer arte, uns nascem com talento e outros necessitam de compreender. A música é como uma língua; se escutarmos e não compreendermos nada, desligamos. Os alunos podem não seguir uma carreira como músicos, mas tornam-se melhores ouvintes, mais esclarecidos. Forma-se um público com ouvido preparado para entender melhor os vários géneros musicais», explica.

Além disso, também acha que a música enriquece o desenvolvimento social, porque «aprendem a respeitar os outros, a ouvir, a esperar a sua vez, a trabalhar em grupo».

Mourinho quer continuar a ser professor e intérprete, porque «as duas componentes completam-se. A música é uma atividade comunicativa e a melhor maneira de aprender é a ensinar. Tanto o professor como o intérprete beneficiam da troca de conhecimentos, o que me obriga a refletir e a ter melhor entendimento do que me ensinaram, para poder explicar. Tenho de conhecer os meus pontos fortes e fracos, para poder perceber os pontos fortes dos alunos e os que necessitam de ser melhorados. Aprendi muito com os professores, mas muito mais com os alunos», conclui.

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