Fernando Martins, um alfaiate portimonense ao serviço de sua majestade

O príncipe André, filho da rainha Isabel II do Reino Unido, duque de Iorque e sexto em linha para o trono britânico, necessitou de um colete para atender uma ocasião oficial, em Portugal, há cerca de dois anos. Quem fez tão notável acessório foi um alfaiate de Portimão, Fernando Martins.

«Era um colete especial, todo em seda natural, desenhado por ele, com uma gola que se ia unir à peça base. Quando fui contactado, só me perguntaram se podia fazer um colete e qual o preço. Quando recebi o fax com o desenho é que me apercebi para quem era. E fiquei um pouco nervoso, confesso, porque ele já tinha sido vestido pelos melhores alfaiates do mundo», recorda ao «barlavento». Mas, como bom profissional que é, aceitou a encomenda e avançou com o trabalho. O príncipe provou, aprovou e a peça foi entregue a tempo e horas.

«Recebi, mais tarde, um telefonema de um colaborador próximo do príncipe, a dar-me os parabéns, porque ele é muito esquisito, usa os melhores alfaiates, mas põe sempre algum defeito nos trajes. E não criticou o meu trabalho. Senti-me muito feliz».

Filho do caseiro da Quinta da Torre, na zona da Penina, em Portimão, Fernando Martins, hoje com 75 anos, não tinha muitos companheiros de brincadeira, em criança. Aliás, estava limitado às primas. Por essa razão, acabou por brincar com trapos e agulhas e tomou-lhe o gosto. Quando, aos 12 anos, disse ao pai que queria ser alfaiate, aquele não gostou, porque preferia que fosse para barbeiro.

Mas o nosso entrevistado levou a sua avante e foi aprender a profissão com o alfaiate Coelho, sendo o primeiro empregado masculino deste profissional, entre dez costureiras e ajudantes. «A primeira coisa que aprendíamos era tratar dos pesados ferros de engomar. Acendê-los, meter carvão de hora a hora, despejar as cinzas… só depois é que aprendíamos a tirar alinhavos e a chulear (dar ponto de costura ligeiro na borda de um tecido, para que não desfie). Comecei a ganhar sete escudos e cinquenta (menos de 4 cêntimos) por semana. E, se tinha um aumento de um escudo, fazia uma festa».

Ainda não tinha aparecido o pronto-a-vestir e tornava-se necessário programar com antecedência a roupa nova, fosse um fato, um casaco ou um simples par de calças. «Um fato, com duas pessoas a trabalhar, levava cinco dias a fazer. Tínhamos de tirar as medidas, fazer a primeira prova e a segunda, com as costuras só alinhavadas, mais a prova final para os pequenos acertos».

Depois, falou-nos de uma prática muito em uso, no passado, quando se poupava. Até pessoas de posses mandavam virar o casaco preto do fato de casamento, para ser usado pelo filho para a mesma função. «O único problema era o bolso ficar no lado contrário ao habitual. Mas apareceu uma senhora que cerzia muito bem, era muito perfeita, disfarçava na perfeição o corte do bolso antigo e já podíamos colocar o novo no lado certo e ninguém notava que não era novo».

O aparecimento do pronto-a-vestir foi o princípio do fim da profissão. «Era mais barato, mas a qualidade era inferior. Cheguei a vender fatos a 250 contos, pois até tinha tecido a 100 contos o metro. Era só para clientes muito especiais. No entanto a 100 e 120 contos, fiz muitos. Mas até as entretelas eram de lã, não eram sintéticas. E nada era colado. Era tudo cosido à mão ou à máquina».

Quando lhe falámos no aparecimento dos materiais sintéticos, Fernando Martins riu. «Primeiro apareceu o terylene. Se a gente punha o ferro em cima e se distraía, queimava o fato. Mais tarde, apareceu a trevira, com muito melhor qualidade. Mas o pronto-a-vestir tem um problema que persiste: as pessoas têm barriga, ou não têm, os ombros são mais largos ou mais estreitos, os braços e as pernas mais compridos ou mais curtos… e torna-se necessário ajustar a roupa. Esses ajustes são o ganha-pão dos alfaiates ainda em laboração».

Fernando Martins pensa que a profissão pode renascer, como têm renascido outras, desde que sejam oferecidos cursos de formação profissional adequados aos dias de hoje.

E justifica: «não imagina o número de clientes que, atualmente, me pedem para lhes fazer fatos por medida para o casamento. Por outro lado, já me apareceram três rapazes a pedir para aprender o ofício, nem que seja fazer calças. Mas eu aviso que é uma profissão que tem as suas regras. Só aprende quem tem realmente vocação. Há profissões onde os menos vocacionados se conseguem adaptar. Nesta, não». Já fez todo o tipo de fatos, desde os trajes de gala para um casal circense a trabalhar num dos melhores circos de Paris, uma farda de gala para o casamento de um comissário de polícia, trajes para cavaleiros, togas para juízes e advogados. Todo o fardamento do hotel «Delfim», em Alvor, quando abriu, saiu do seu atelier. Tal como a primeira farda azul, de gala, dos bombeiros locais. «Tinha de estar pronta para o aniversário. Dormi três noites num sofá, na oficina, para me voltar a agarrar às fardas, mal abria os olhos. Mesmo assim, houve bombeiros a pregar botões, na véspera, para conseguirmos acabar o trabalho».

De há uns anos a esta parte, fica-se pelos ajustes e algum traje novo, muito ocasionalmente e tem de ser para alguém muito especial. Mas o mestre Fernando Martins sentia um vazio, um desejo por realizar: fazer uma batina para um padre. Como não há fome que não dê em fartura, já fez quatro, nos últimos dois anos. Tudo começou com o padre Miguel, que substituiu o padre Arsénio na igreja da Senhora do Amparo. Seguiu-se a do padre Jesus, em Monchique, o de um jovem seminarista e uma batina de verão para o Padre Mário. «Mas eu disse ao padre Jesus, que é negro, que a batina, sendo da sua cor não tinha realce, pois só o colarinho branco é que brilha. E ele disse-me que ia pedir autorização ao Papa e ao Bispo para usar uma batina branca, como em África. Ainda vou fazer a quinta», disse-nos a sorrir.

Não podíamos terminar a entrevista sem lhe perguntar porque é que, havendo muito mais mulheres do que homens a costurar nas alfaiatarias, eram raras as mulheres que se assumiam como alfaiates por conta própria. «Um dos dois patrões para quem trabalhei, o já falecido João Fulano, dizia que as motivações e os objetivos eram diferentes: as mulheres iam para a costura para arranjar namorado e ganhar para o enxoval e os homens iam para a profissão para arranjar dinheiro, casar e sustentar uma família»…

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