Elsa Ramos mostra a força de EXISTIR em exposição fotográfica

«Se nunca fotografaste com uma câmara analógica, nem revelaste fotos a preto e branco em câmara escura, não és fotógrafo», diz Elsa dos Ramos, fã incondicional do fotógrafo Sebastião Salgado. Esta ex-profissional de fotografia viu o seu sonho de partir para Inglaterra, para estudar e tornar-se fotojornalista, interrompido por um acidente de viação, aos 27 anos, quando o carro que conduzia foi colhido por um comboio, numa passagem de nível sem guarda à porta de casa, deixando-a paraplégica.

«Os primeiros quatro anos foram muito difíceis, porque uma pessoa não aceita que, repentinamente, perdeu a capacidade de andar. É muito difícil. Quando me disseram que não voltaria a andar, preferia ter morrido a estar numa cadeira de rodas. Maltratei literalmente as pessoas ao meu redor», admitiu ao «barlavento» Elsa dos Ramos, no cenário da «sua» Santa Luzia, que tanto ama. Mas o tempo cura tudo, como diz o nosso povo, e «quando deixei de sentir pena de mim, pedi para falar com o psicólogo e ele arranjou-me a caixa dos pirolitos», brinca.

Neste momento, frequenta um curso de formação em gestão e contabilidade em Loulé, na EXISTIR, associação sem fins lucrativos que tem por objetivo a reabilitação e integração de pessoas deficientes ou desfavorecidas. Isto, porque «se trabalhar em fotografia, deixo de receber a pensão por invalidez durante o período do contrato de trabalho, o que não contesto. O que não está certo é, no final do contrato, ter de esperar entre seis meses e três anos para voltar a receber a pensão. Contudo, posso fazer formações e trabalhar em qualquer outro ramo de atividade, sem qualquer problema».

Para quem começou a fotografar com 10 anos de idade, quando o pai lhe ofereceu a sua primeira câmara, é difícil. Por isso, agora fotografa como hobby. «Antes do acidente, tinha o sonho de fazer fotoreportagem e, até, ser repórter de guerra. Agora, fotografo o que vejo. Adoro enquadrar pessoas que não sabem que estão a ser fotografadas. É aí que se capta a sua essência», diz-nos com um brilho nos olhos. Aliás, quando se fala de fotografia, os olhos expressivos de Elsa dos Ramos vão mudando entre alegria, nostalgia, paixão, tristeza, como se fossem um caleidoscópio de emoções.

Elsa adora viajar e já apresentou fotografias de paisagem, em várias exposições. Mas agora, propõe um tema totalmente diferente. A exposição «Olhar sem medo de ver» inaugurou, dia 12 de maio, às 15h30, na sede da associação EXISTIR, onde irá estar patente até 30 de junho.

«São 40 imagens obtidas no Centro de Recuperação do Sul, em São Brás de Alportel. Têm a ver com a vida após o acidente, seja de viação, cardiovascular ou outro», explica. «Mostram várias fases da recuperação, do processo para que as pessoas possam ter uma vida o mais normal possível, embora nunca seja como a que já tiveram. O objetivo é sensibilizar. Mas há muita gente que tem medo de enfrentar esta realidade e prefere ignorá-la. Há três anos que ando a tentar fazer esta exposição e não tenho conseguido patrocínios. Assim que digo qual é o tema, respondem logo que não têm verba. Se calhar, se fosso para fotografias de paisagens, já teriam», sublinha.

A exposição seguirá depois para São Brás de Alportel, a pedido da autarquia, e estará patente, também, na unidade clínica que serviu de pano de fundo. Elsa dos Ramos gostava, contudo, de mostrar este trabalho na sua cidade natal, Tavira, o que ainda não aconteceu, porque «não me convidam. Adorava expor na Fundação Irene Rolo», por exemplo.

Desde janeiro que a nossa entrevistada faz parte dos órgãos sociais da EXISTIR, projeto que a irá manter ocupada durante os próximos quatro anos. Ao contrário das direções anteriores, a atual tem duas pessoas portadoras de deficiência. «Por isso, quando têm problemas, falam comigo ou com o presidente, que é tetraplégico. Identificam-se connosco porque sentimos o que sentem. E a associação existe pelos utentes e não pelos dirigentes. Existe porque há pessoas que vão lá para receber formação. Se deixarem de ir, a EXISTIR fecha as portas. Por isso, temos de satisfazer as suas necessidades e expetativas, dentro das nossas possibilidades».

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