Eduardo Ramos: Embaixador da música árabe

«Conheço muitos religiosos judeus e islâmicos muçulmanos que não são extremistas e aceitam bem viver uns com os outros. Há judeus no parlamento marroquino»

Nascido em Beja, em 1951, filho de um militar de carreira, foi para África aos 18 anos, integrou um grupo musical e só regressou a Portugal em 1974, estabelecendo-se no Algarve em finais de 1975. Encontrávamos Eduardo Ramos nos anos 80, tocando nos hotéis, com um tipo de música e de instrumentos que o tornavam único e desejado. Além de guitarra clássica e cavaquinho, tocava berimbau, o quissange angolano e o gambri marroquino. E cantava, com uma voz maravilhosa, entremeando músicas.

Eduardo, porquê essa tua paixão pela música marroquina?
Eduardo Ramos – A minha paixão pelo oriente vem desde os quatro anos, quando o meu pai, numa comissão de serviço na Índia, nos enviava fotos que me impressionavam. Em 1969, deu-se o Festival Woodstock, em que participou o grande músico indiano Ravi Shankar. E fiquei siderado a ouvi-lo tocar aquelas melodias na cítara indiana, no disco do festival. E comecei a tentar imitá-lo na guitarra. Mais tarde, quando comecei a estudar a música árabe, vim a perceber que há uma certa música indiana que tem muito a ver com a árabe. As melodias são comuns.

A Associação para a Defesa do Património de Silves trouxe a esta cidade um alaudista tunisino, de renome mundial, Anouar Brahem. E Eduardo Ramos ficou apaixonado pelo instrumento, decidindo que era o que queria tocar. Fez uma viagem à Tunísia para comprar um alaúde e aprender a tocar.

A transição não foi difícil, porque já tocava viola e viola de 12 cordas. Demorou cerca de três meses até segurar bem o alaúde. Depois, demorou muitos anos até conseguir tocar como toco hoje. Já lá vão 18 anos.

O nosso convidado atuou por várias vezes em Marrocos. A última foi num festival de instrumentos de cordas, a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O evento realiza-se há 18 anos e são convidados quatro países a participar, sendo o Ministério de cada um a selecionar o seu representante. A sua atuação foi um êxito e foi convidado, no final, pelo diretor-geral do Festival de Músicas Sagradas de Fez, a participar neste evento de grande projeção, em maio próximo.

Poderemos dizer que és o embaixador da música árabe, no Algarve?
Sim. O que mais quero tocar agora é música árabe, música medieval de origem cristã, música galaico-portuguesa, cantigas de amigo e de Santa Maria, de que tenho um grande repertório e um CD gravado. São cantigas do século XIII, do rei Afonso X, avô de D. Dinis. Também me apaixonei pela música dos judeus sefarditas da Península Ibérica e tenho um repertório de duas horas, do século XIII ao século XVI, com um CD gravado. É uma música muito imbuída de espiritualidade oriental e arábica, porque também são povos semitas originários da Palestina.

A cultura musical é semelhante entre árabes e judeus?
É somente a política que os separa, porque eles são irmãos. Nem é a religião, porque conheço muitos religiosos judeus e islâmicos muçulmanos que não são extremistas e aceitam bem viver uns com os outros. Há judeus no parlamento marroquino.

E a música africana? Abandonaste?
Neste momento, sim. Embora tenha um repertório muito grande e possa fazer um espetáculo sem qualquer problema, se for convidado para isso.

Nos teus espetáculos, e temos o exemplo do ciclo temático «O Meu Coração é Árabe», a realizar em Silves nos dias 13, 14 e 21 de fevereiro, convidas sempre músicos de outras áreas?
Sim. Já fiz concertos, por exemplo, com Rão Kyao e Pedro Joia.

E, agora, Custódio Castelo, um nome da guitarra portuguesa, que associamos ao fado?
Como diz o meu querido amigo Adalberto Alves, que traduziu os poetas luso-árabes, «o alaúde foi morar no coração de uma guitarra a que chamamos portuguesa». Toda a gente sabe que a guitarra portuguesa foi inspirada no alaúde. Mas modificou a sua morfologia porque, ao colocarem-lhe cordas de aço, ficou com um som mais volumoso e já não precisou de ter aquela parte mais bojuda atrás para o amplificar. O Custódio é muito histriónico a tocar, tem acordes elaborados e dissonantes e é conhecedor da música mediterrânica. Logo, acho que vai ser uma coisa linda o nosso encontro.

Quem é Abdallah Khawli, que vem recitar poemas árabes, em conjunto com António Baeta?
É doutorado em arqueologia, vive na Vidigueira e é casado com uma portuguesa. Fala muito bem a nossa língua, mas vem dizer os poemas de Al-Mutamid em árabe.

Como se deu a transição de músico comercial para esta fase erudita?
Os hotéis davam dinheiro, cheguei a tocar sete noites por semana. Fazia uma mistura de músicas estrangeiras com portugueses, metia fado e algumas cantigas medievais, ao contrário dos meus colegas, que iam só pela música estrangeira. Os diretores gostavam e não me faltava trabalho. Mas, às vezes, não dá muita satisfação, porque tocava nos bares e as pessoas estão a beber, a falar e a rir e, às vezes, chegava a casa frustrado.

Quando ouvi tocar o Anouar Brahem, há cerca de 20 anos, pensei: «É isto que eu quero fazer». Aprendi o alaúde, adquiri cerca de 300 CDs de músicas árabes de todo o mundo, indianas, medievais e sefarditas e comecei a imbuir-me daquele espírito e a criar repertório. Depois, comecei a agenciar-se com as autarquias e o Ministério da Cultura e a promover espetáculos de música medieval, árabe, judia e cristã. Gravei um CD chamado «Romances de Peregrino», que são romances da oralidade portuguesa, como a «Laurinda, linda, linda», que é um romance lindíssimo de Monchique.

Eduardo Ramos passou das sete noites semanais para cerca de 15 espetáculos anuais. Já esteve integrado num programa da União Europeia chamado «Oralidades», tendo atuado em diversos países, como Malta, Espanha, Bulgária e Itália. Ocasionalmente, atua em Espanha e em Marrocos. Os seus projetos para o futuro passam por continuar nesta linha musical, em feiras medievais, igrejas e centros culturais. Paralelamente, divulgar a poesia de grandes poetas, como João de Deus, que homenageou em CD, há dezoito anos, musicando e cantando os seus poemas.

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