Beto Kalulú resume carreira de quase meio século na música em novo livro

A primeira coisa que nos atrai é uma grande cabeleira revolta a encimar um rosto magro e um corpo esguio. Já foi cor de azeviche, mas hoje tem duas tonalidades: branca e aloirada na parte superior, fazendo lembrar um halo. Ninguém fica indiferente a este jovem de 67 anos, um músico carismático que vive intensamente.

Excelente contador de histórias, diz-nos as horas com a mesma energia com que nos conta como foi modelo para os posters das lojas «Porfírios» de Lisboa e Porto, no início do anos 1970, ou como criou uma colónia de músicos, em Carvoeiro. E faz sempre questão de mencionar todos os seus colegas de aventuras. Aliás, a carreira deste cantor, compositor e percussionista, vai dar origem a um livro biográfico, a lançar em junho.

Na obra, Joaquim Correia conta-nos o seu percurso artístico com quase meio século de existência e também nos dá uma panorâmica da música e dos músicos que fazem parte da sua vida. Ao mesmo tempo, deverá sair o seu novo CD, produzido por Enzo d’Aversa, que participa em algumas músicas, tal como Tuniko Goulart e os Compotas.

Beto Kalulú nasceu em São Mamede de Infesta, mas foi para Angola com três anos. Desde muito novo que a música foi o seu sonho e a sua vida. Ganhou visibilidade como baterista, ainda como Beto Silva, a partir de 1967, com o grupo The Windies. Veio para Portugal, em 1976, e formou uma banda. Cansou-se de Lisboa e decidiu rumar a Albufeira, onde já tinha estado em 1972, durante a viagem Luanda – Londres, que considerava a capital da música. E os outros músicos acompanharam-no. Ao fim de dois meses, descobriu Carvoeiro, onde assentaram arraiais. Mas o dinheiro era pouco. Chegava para pagar a renda ou para comer. Beto escolheu a segunda opção e descobriu as obras, então paradas, do Hotel Almansor (atual Tivoli Carvoeiro). E os abrigos dos trabalhadores desocupados. Construíram portas e janelas com tábuas e ali viveram durante quinze anos. Era uma comunidade artística onde estiveram alguns grandes músicos do panorama nacional.

Até 1982, Beto fez algumas longas incursões musicais pela Europa, fazendo sempre amizades duradouras. Em Grenoble, chegou a dar aulas de percussão e a acompanhar aulas de afro-danças. Sempre que tinha saudades, regressava ao Algarve, onde foi baterista do grande saxofonista Manuel Guerreiro, tocando juntos por muitos anos. Foi o período do jazz.

Embora continue a atuar com várias formações, lidera um conjunto base, a Beto Kalulú Band, de que fazem parte o seu filho Tomé Silva na bateria, Marcos Vitor no teclado e Quim Brandão no baixo. No alinhamento para concertos ao vivo recorre aos saxofonistas Matt Lester e Martin e, ainda, a outros convidados, de acordo com o tipo de evento. Já atuou em diversas cidades de França, Alemanha, Inglaterra, África do Sul, Madagáscar e Brasil.

«Infelizmente, não sou pianista nem guitarrista, o que me facilitaria a composição. Compus todas as minhas músicas na cabeça. A «Praia do Carvoeiro», por exemplo, deram-me uma harmónica, surgiu um balanço, ensaiei nas congas e escrevi a letra sobre as crianças», contou.
Quando a palavra reforma vem à baila, Beto é contundente: «Nem penso nisso! Descontei quarenta e tal anos para receber uma reforma de 328 euros. Entretanto, os políticos vagabundos que trabalham meia dúzia de anos recebem logo reformas de 10 mil euros e mais».

Faltava saber como aparecera o alcunha Kalulú. Depois de muitas tentativas, Beto explicou. «Juntei-me com o Zé Manel e o Quim Brandão, em 1983. Fomos tocar a uma discoteca em Coimbra, mas o grupo não tinha nome. Quando o dono da casa insistiu, o Zé Manel estava a comer um prato africano chamado kalulú e foi o nome que lhe veio à cabeça para o grupo. Como ficámos juntos muito tempo, o pessoal começou a referir-me como o Beto Kalulú e o nome ficou».

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