António Sequeira: a arte de pintar porcelana

«Não tive professor nenhum que me ensinasse o que faço hoje. Mas frequentei muitos seminários de pintura em porcelana, promovidos por brasileiros e portugueses. Inclusive, por uma senhora de Silves, Lurdes Abraços, uma grande pintora que vive entre Lisboa e o Brasil. E foi assim que aperfeiçoei a minha técnica de pintura à mão livre».

Natural de Silves, onde nasceu há 79 anos, António da Silva Sequeira diz que, desde sempre, gostou de «riscar» e de mexer em tintas. Já adulto, visitou o estúdio do pintor Samora Barros, na encosta fronteiriça a Silves, ficando maravilhado.

A tendência aumentou para continuar a riscar e a mexer nas tintas. Mas estava fora de questão cursar as Belas-Artes. «Ainda iniciei um curso de desenhador técnico de arquitetura, que não acabei», confidenciou-nos. Aos 30 anos, emigrou para a Alemanha. Para matar o tempo e as saudades, começou a pintar umas telas, com que ia decorando as paredes da sua casa, sem divulgar o seu trabalho.

Mas acabou por tornar-se conhecido e vender alguns trabalhos?
António Sequeira
– As pessoas que me visitavam começaram a reparar nos trabalhos e a perguntar onde os adquirira. Quando lhes dizia que eram pintados por mim, pediam-me para lhes pintar alguns. E eu fazia. No início, nem pedia dinheiro. Eram eles que me davam alguma coisa, de livre vontade, para pagar os materiais.

Em 1980, regressou ao Algarve, começando a construir uma habitação em Portimão, onde passou a residir. Foi nessa altura que tomou conhecimento de que uma senhora ensinava pintura em porcelana, na técnica de Companhia das Índias. E, segundo ele, dominava completamente a técnica, ao fim de um mês, porque a mesma é trabalhosa, mas fácil de aprender (ver caixa). E deixou as aulas, porque não era aquilo que o satisfazia. O que queria mesmo era pintar à mão livre. Algum tempo depois, encontrou a professora, que tinha alunos interessados, em Portimão, mas não encontrava local próprio. E ele deixou-a usar o atelier que tinha montado em casa e o seu forno.

Como começou a ensinar?
Na altura, eu trabalhava num hotel e poucas vezes assisti às aulas, porque já sabia o que ela ensinava. Em determinado momento, as pessoas ficaram fartas da mesma coisa e desistiram. Mas, como viam as minhas pinturas à mão livre, pediram-me que lhes desse aulas. Aceitei-as e comecei a ensinar. Mas isto não foi assim de repente. De 1980 a 1990, fui fazendo os meus trabalhos, nas horas vagas, desenvolvendo gradualmente a minha técnica. Só a partir de 1990 comecei a dar aulas.

E ainda dá aulas?
Não, porque a crise levou as pessoas a abandonar. Os materiais são caros. Os únicos pincéis que servem para pintar em porcelana são os de pelo de marta, que custam uma fortuna. Contudo, são os que permitem que a pinta se misture com a porcelana, sem relevo. A peça, depois de acabada, continua lisa; não se acha a tinta, mas está lá a cor. E o ouro é caríssimo.

Mas, à exceção desse mês de introdução à técnica de pintura em porcelana, não teve formação formal em pintura?
Não tive professor nenhum que me ensinasse o que faço hoje. Mas frequentei muitos seminários de pintura em porcelana, promovidos por brasileiros e portugueses. Inclusive, por uma senhora de Silves, Lurdes Abraços, uma grande pintora que vive entre Lisboa e o Brasil. E foi assim que aperfeiçoei a minha técnica de pintura à mão livre. A minha preferência vai, principalmente, para paisagens em tela e flores na porcelana.

Abandonou a Companhia das Índias?
Ainda faço algumas coisas, mas pouco. E os alunos não querem essa técnica. Preferem dar asas à sua imaginação, no impressionismo.

Qual é a técnica de execução?
Primeiro, preparo uma palete com todas as cores de que necessito. De seguida, vou colocando borrões na peça e abrindo as pétalas, as folhas, os troncos; enfim, os diversos pormenores do desenho. Mas há que ter muito cuidado. Se a tinta for demasiada, a reação química que acontece, no forno, entre a porcelana e a tinta, rebenta a peça.

Portanto, a peça só vai uma vez ao forno?
Exceto se levar ouro, que queima entre os 5000 e os 6000, enquanto a tinta vai aos 7500. O ouro não pode ir ao forno ao mesmo tempo, porque borra tudo, se tocar na tinta.

Tem feito várias exposições?
Sim, tenho. Em Almada, em Lisboa, na Batalha, Lagos, Faro. Fiz uma em Portimão, mas nunca tinha feito uma na minha terra natal, até ao momento, embora as pessoas me pedissem. E também pinto em placas de cerâmica vidrada, com uma técnica semelhante à porcelana e que considero mais duradouras do que as telas.

E a comercialização? As pessoas adquirem, ou limitam-se a ver as exposições?
Não se vende. Em tempos, fiz a FATACIL, durante 9 ou 10 anos. E aí vendi muita coisa, principalmente a portugueses do norte. Chegavam ao meu stand, onde eu trabalhava ao vivo, compravam muita coisa e, no ano seguinte, regressavam e compravam mais. Cheguei a vender painéis grandes, em placas, para o estrangeiro. Com a crise, morreu um bocado. De vez em quando, aparece-me uma pessoa a pedir para lhe pintar uma peça, mas aviso logo que vai demorar muito tempo, pois não tenho peças para meter no forno. O custo de funcionamento do forno não permite ligá-lo para cozer uma ou duas peças.

Quanto é que pode custar, por exemplo, um jarrão?
Entre 100 e 150 euros. A peça em branco não é barata. Depois, tem as horas de trabalho e as queimas. Mas as pessoas não olham para isso; só veem os preços. Não dão valor ao trabalho dos artistas. As minhas peças até são baratíssimas, comparadas com os preços que se encontram por aí fora. A exposição encontra-se na Biblioteca de Silves, até 5 de março, estando também aberta nas tardes de sábado.

Companhia das Índias

Na técnica de Companhia das Índias, o desenho é passado para a peça através de papel químico, sendo depois desenhado a caneta. De seguida, vai ao forno, a uma temperatura de 7500, para fixar o desenho. A partir desse momento, pode ser pintado. Contudo, porque as diferentes cores necessitam de temperaturas diferentes para fixar, o trabalho tem de ser executado em etapas, com várias idas ao forno, das temperaturas mais baixas para as mais elevadas, encarecendo a obra final. No impressionismo pintado à mão livre, o trabalho só vai ao forno uma vez, ficando pronto.

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