Angélina Maia, a artesã do cartão

Filha de mãe francesa e pai lusitano, Angélina Maia nasceu em Nantes e aí cresceu. Acabou por casar com um português que a «rebocou» para Portugal, há 25 anos. Teve de aprender a língua de Camões, que não era falada na casa dos pais, e andou pelo norte do país. Durante anos, trabalhou com o marido numa empresa familiar, tendo a seu cargo a parte financeira. E nunca a veia artística lhe tinha passado pela mente, tanto mais que não tem qualquer familiar que faça da arte profissão. Até que, em 2011, veio para Almancil e… «tentei mudar o rumo da minha vida. Ainda fiz traduções, mas estava com vontade de trabalhar com as mãos. Talvez a aproximação dos 40 tenha tido influência. Uns anos antes, tinha visto uma reportagem sobre a utilização do cartão para fazer mobiliário. Comecei a ler, a pesquisar, e acabei por ir fazer um estágio em França. E foi uma revelação. É muito interessante e adoro o toque do cartão, que recolho nas lojas».

Espante-se quem pensar que o cartão é um material frágil. «Tem um lado fraco, mas outro muito resistente, dependendo do sentido do canelado», explica. O truque está em explorar e usar da melhor forma essa característica. «É um pouco como a construção dos barcos, também é usada cola para fortalecer a estrutura. Nos quartos dos meus filhos, tenho mesa-de-cabeceira, cabeceiras de cama de cartão. Quando me iniciei, a minha filha era pequena e fiz-lhe mesinhas e banquinhos. O meu marido, que pesa cerca de 100 quilos, era a minha cobaia para testar a resistência dos bancos», brinca.

Esta artesã não faz moldes. Começa por desenhar a ideia num papel, passa o desenho à escala e depois começa a fazer diretamente no cartão, dobrando, cortando e reforçando. É uma tarefa morosa. Uma mesa-de-cabeceira leva três dias a fazer. Para vender os seus trabalhos, Angélina Maia começou a frequentar os mercados de artesanato. E teve de fazer peças mais pequenas, para os turistas. «Comecei a fazer molduras, sardinhas, corações, brincos, colares, espelhos, candeeiros. Como não gosto de repetir as obras, fui descobrindo novas formas de trabalhar o cartão».

De degrau em degrau, Angélina Maia iniciou-se na escultura em cartão, porque uma galeria interessou-se pelo seu trabalho, mas desejava algo mais artístico do que os espelhos, candeeiros e molduras. Embora tenha experimentado outros temas, dedica-se sobretudo ao corpo da mulher, com grande incidência nos bustos. Bustos que parecem filigrana, rendilhados, que atraem a vista e quase que pedem para serem admirados mais de perto. A verdade é que são feitos apenas com um x-ato e uma régua.

«Chamo a essa técnica, renda de cartão, porque parece um rendilhado em tecido. Mas não passa do próprio canelado do material, cortado muito fininho. Quando tenho modelos pintados em dourado, as pessoas pensam que é filigrana. Perguntam-me muitas vezes qual é o metal que uso. Quando as peças têm apenas a cor natural, perguntam-me se é cortiça».

Atualmente, a artista já desfruta de reconhecimento a nível internacional. Esteve várias vezes em exposições em Paris, Nova Iorque, La Rochelle e Nantes, está exposta em várias galerias, na Suíça. Em Portugal, tem obras expostas em galerias em Tavira, Lagoa (na galeria junto à Adega Cooperativa), Lisboa, Cascais e Porto. Na sua busca pela evolução, diz que «neste momento, estou a fazer um vestido, que irá ser usado por um fotógrafo que usa várias técnicas, materiais e artistas nos seus modelos».

Ficámos a saber que o vestido levou um revestimento para o enrijecer e proteger de algumas gotas de chuva que possam, eventualmente, cair durante a sessão fotográfica.

O filho mais velho não segue o caminho artístico da mãe. A filha, 14 anos, fez várias tentativas com êxito, no passado, mas não está ainda preparada para lidar com a perfeição que a mãe exige. Entretanto, a artista vai passando os seus conhecimentos sobre a técnica de mobiliário em cartão, em workshops personalizados.

Workshops técnicos para quem quiser aprender

Angélina Maia também ensina a técnica de trabalhar o cartão. Fazer uma mesa de cabeceira, demora três dias (18 horas), incluindo as curvas, gavetas e reforço. Neste workshop são dadas as bases para a construção de outros móveis. Custa 180 euros, incluí todo o material necessário. No âmbito do projeto «Loulé Criativo», Maia também ensina a fazer molduras e chaminés. São formações de três horas, custam 30 euros, mas já requer um grupo, de forma a rentabilizar melhor o tempo da formadora. Os interessados em tirar dúvidas ou obter mais informações, têm ao dispor o telemóvel 939 534 142 e o e-mail ([email protected]). O portfólio de trabalhos pode ser consultado on-line (www.cartaoconcept.com).

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