Amílcar da Encarnação, o último tipógrafo portimonense

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Mas alguns obstinam-se em manter vivas as tradições. A tipografia Minerva do Comércio abriu as portas em 1926, pela mão de Luís Moutinho Júnior, na Rua 5 de Outubro, nº 45, em Portimão. E ainda se mantém em funcionamento, apesar da evolução da impressão offset e da digitalização, graças a Amílcar da Encarnação, 64 anos de idade e meio século de trabalho nesta firma.

«Comecei ainda no tempo do fundador, o senhor Moutinho, estive uns meses a aprender sem ganhar, e tornei-me empregado em janeiro de 1968. Na altura éramos cinco: o patrão, o mestre Máximo Xavier, o Alexandre, o Dagoberto e eu». No primeiro mês ganhou 300 escudos. Teve um aumento de 50 escudos em fevereiro e outro de igual montante, em julho, uma fortuna para o então jovem de 13 anos.

«Comprei uma motorizada». O movimento era grande. Tendo como clientes as maiores empresas locais, a como Feu Hermanos e a Feu & Calé, designadas «Casa Feu» pela população. Faziam grandes encomendas de cartas, envelopes e cartões de visita, entre outros artigos. Estamos a falar de encomendas que rondavam as 5 a 20 mil cópias, de acordo com os registos que «barlavento» consultou.

«Usava-se imenso o papel martelado, muito leve, para o correio aéreo. E as pessoas também usavam os cartões de visita, embora em pequenas quantidades, algo que caiu em desuso. E os cartões de luto e de agradecimento». Amílcar da Encarnação adora ser tipógrafo e não muda de ramo, embora esteja ligado a atividades gráficas mais modernas, porque o mercado a isso obriga.

«Agradeço tudo o que sei da profissão ao mestre Máximo Xavier, que era o tipógrafo principal e, mais tarde, se tornou o proprietário da empresa, tendo-a passado para mim, no final da carreira profissional». A única modernização que a casa sofreu foi a instalação de um motor elétrico na velha impressora, colocando um ponto final à cansativa tarefa de dar ao pedal.

«O senhor Máximo pedia-me ajuda e eu dava ao pedal, enquanto ele colocava as folhas. Fazíamos turnos, eu e os outros dois mais novos, porque aquilo era duro. No passado, havia os compositores e os impressores, mas eu sempre fiz ambas as tarefas».

A composição parece ser o mais difícil, porque os tipos (letras e caracteres) têm uma ranhura e é necessário saber a posição. E são vários tamanhos. Também há as barras das entrelinhas. E tudo é disposto ao contrário, como se estivéssemos a ler ao espelho.

«Começávamos como aprendizes», recorda Amílcar, «e nem tocávamos nas letras. Limitávamo-nos a arrumar as entrelinhas. Só uns largos meses mais tarde é que tínhamos autorização para mexer nos tipos». O «barlavento» quis saber se guardam as composições para trabalhos futuros.

«Sim e não. É complicado, porque aquilo tem um peso enorme. E também iria deixar um grande número de tipos paralisados. Assim, deixamos o corpo do documento composto, quando é igual para todos, como as faturas. Só compomos os cabeçalhos. E mesmo estes são morosos. Imaginem, por exemplo, o turismo local. As pessoas apenas querem um livro de faturas. Assim, 20 pessoas, 20 livros, 20 cabeçalhos. E nós só podemos fazer livros para faturação anual abaixo dos 100 mil euros. A partir daí, é faturação por computador».

Quando perguntámos se a impressão offset prejudicou o negócio das tipografias tradicionais, porque permite imprimir a cores e aplicar os logótipos, Amílcar responde que «só afetou por ser mais rápido e permite entregar os trabalhos mais depressa. Porque nós conseguimos imprimir a duas cores, fazendo duas composições diferentes, uma para cada cor, limpando completamente a máquina e as letras, entre cada. Os logótipos eram executados pela Casa da Moeda, em gravura, mediante fotografia, e colocados na composição. Mas as máquinas de offset fazem entre 4 e 5 mil cópias por hora, enquanto o sistema que eu uso não passa das mil». Questionado sobre se não há máquinas de impressão tipográfica mais céleres, afirma que «há as Heidelberg, com uma velocidade igual às de offset.

Aliás, estou ligado a outra empresa do ramo, onde existe uma máquina dessas para numerar, porque é tão rápida como a de offset e o sistema é mais económico». Segundo Amílcar da Encarnação, foi o sistema digital que fez cair as tipografias, porque as pessoas imprimem tudo diretamente, em papel branco, uma vez que a composição já está no computador. E só gastam o que necessitam no momento». A terminar, questionamos qual o destino da Minerva do Comércio, quando Amílcar se reformar, uma vez que não existe ninguém na hierarquia, e trabalha só.

«Ainda quero trabalhar muitos anos. Tenho um moço que está a trabalhar comigo, noutro local, e que está a dar-se bem com aquilo. Será o meu sucessor, mas não vai usar este material. É pena que desapareça, pois os estrangeiros entram e ficam pasmados a olhar para isto». Na verdade, em Faro, está em marcha um projeto para a musealização da antiga tipografia farense União, constituída em 1909 pela Diocese do Algarve. Além do parque gráfico, tem um espólio documental que conta um pouco da história da imprensa. Havendo vontades, é uma ideia a considerar, de forma a que este património, que faz parte da história industrial de Portimão não se perca.

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