A fantástica arte comestível da algarvia Ana Remigio

Uma artista de Lagoa, quase desconhecida na sua terra, chegou ao maior e mais importante concurso mundial de doçaria esculpida, no Reino Unido, onde apresentou seis obras, e arrecadou cinco medalhas de ouro e uma de prata, entre 1300 trabalhos submetidos à apreciação do júri. Aconteceu em novembro. O feito passou praticamente despercebido em Portugal, como é hábito.

O «barlavento» conversou com esta dona de casa, mãe de duas crianças de 9 e 11 anos, que pratica esta atividade como ocupação artística, porque do ponto de vista comercial, «as pessoas só veem que é um bolo. Não estão preparadas para pagar as muitas horas gastas no estudo e na construção da estrutura, na confeção e na decoração. Este tipo de bolo, em Inglaterra e Espanha, vende-se entre 150 e 300 euros. Aqui, se pedir 50 euros, acham caro. Eu não faço bolos, faço arte comestível», explica Ana Remigio, rodeada pelas imensas peças que decoram a casa, todas diferentes, todas maravilhosas, algumas com mais de um metro de altura, e a variar entre os 10 a 15 quilos de peso.

Tudo começou por acaso, quando os cupcakes apareceram em Portugal e uma amiga lhe pediu para fazer um bolo para o filho. Apaixonada pela doçaria desde criança por influência da mãe e da avó que faziam doce fino, além das receitas conventuais, começou a exercer a sua arte para familiares e amigos.

Os bolos esculpidos para venda «costumam ser de pão-de-ló, seco e rijo para suportar a escultura em pasta de açúcar adicionada por cima. A base das minhas esculturas são diversas, como o bolo inglês com frutas, bolos de chocolate, de cenoura, entre muitos outros possíveis. A admiração das pessoas pelo meu doce esculpido é que encontram algo apetitoso, ao cortar, ao contrário do que esperavam», ou seja, há muito sabor além da decoração.

Ana Remígio diz que um bolo feito a três dimensões pode atingir tamanho e peso consideráveis. «Às vezes chega aos 15 quilos. É necessário estruturar todas as variáveis para não desmoronar. Primeiro, tenho de estudar onde e como colocar as várias divisões para que sustentem o total e permitam o transporte em segurança. Só depois é que entro na fase de confeção, sendo a decoração o último passo». Entre a segunda e a terceira fase, o bolo é barrado por uma camada de pasta de açúcar, a qual sela o recheio, permitindo que se conserve por muito tempo, sem perder as qualidades gastronómicas.

A competição é uma vertente que começou há pouco mais de um ano, porque Ana Remigio queria saber qual o valor da sua arte, em comparação com as demais ofertas no mercado.

Claro, outra motivação é a aprendizagem. Iniciou-se num pequeno e muito antigo concurso na Irlanda. A organização informou-a que ganhar uma medalha de bronze nesta, corresponde a ouro noutras competições congéneres, devido à exigência dos critérios. Participou e conquistou esta distinção, pelo que decidiu ir ainda mais longe.

A Cake International organiza três grandes eventos anuais, no Reino Unido. Em 2016, Ana Remigio foi a Londres, em agosto, e arrecadou duas medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze. Em Birmingham, em novembro, durante o concurso que é considerado o maior e o mais importante, ganhou cinco medalhas de ouro e uma de prata.

As doceiras concorrem em 20 categorias diferentes. A medalha de prata foi conquistada na categoria cupcake, considerada uma das mais complicadas, a par dos bolos de casamento.

«Mais tarde, já depois de entregues os prémios, a juíza disse-me que só não ganhara ouro porque as figuras estavam um pouco maiores do que deviam ser», ou seja, foi apenas uma questão de pormenor.
«Espero, em breve, vencer nesta categoria, pois vou aprendendo os pequenos detalhes que não estão escritos nos regulamentos, mas que contam muito» na avaliação final. O sonho desta algarvia, contudo, é conquistar o «Best in Show», prémio para a melhor peça em competição. Desafiada pelo marido, Ana Remigio considera imortalizar alguns dos seus trabalhos em barro, já que a técnica de moldagem é semelhante, para que nunca passem de prazo e possam estimular a imaginação e criatividade das novas gerações que queiram dar continuidade ao seu trabalho.

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