«Dias de Aromas», cheiros e ervas aromáticas do coração do Algarve

Abrigada no barrocal algarvio, entre Estoi e São Brás de Alportel, fica uma pequena encosta de 2,3 hectares bem temperada com uma grande variedade de ervas-de-cheiros. Projecto de cariz familiar, esta produção biológica quer também ser um oásis de vida na época baixa do turismo.

Antigamente a perpétua-roxa era popular em chás e infusões medicinais. Hoje é o adereço perfeito para um Gin irresistível e original, ou para provocar uma explosão de cor no sushi servido num japonês trendy de Faro. Agora imagine o que mais se pode fazer com as 36 variedades de plantas e ervas aromáticas da «Dias de Aromas», uma quinta biológica em São Brás de Alportel.

Tudo começa com a determinação de um casal ao pegar num terreno familiar esquecido, entre montes e caminhos de burros. Pensaram em fazer algo novo. Agricultura, mas diferente. O primeiro amor foi a pimenta-de-cayenne, o passo de entrada no nicho dos condimentos em pó. Contudo, rapidamente, Nuno Dias e Laura Mendonça perceberam que têm todo um potencial mercado aqui mesmo à porta de casa.

A ervas que produzem fazem parte da cultura popular, da sabedoria tradicional, e estão de novo em voga. Redescobertas por uma nova geração chefs de topo e outros criativos do Algarve ávidos de frescura e qualidade.

O boom na procura é hoje tal que as encomendas são diárias e há um tendência de crescimento. Nuno Dias, economista, ligado à área do turismo, tem uma explicação natural: «as grandes explorações agrícolas apanham, por exemplo, duas ou três toneladas de manjericão. Metem tudo no frio. Só mais tarde é que fazem a distribuição. Aqui, os chefs fazem as suas encomendas e no próprio dia colhemos, embalamos e entregamos», explica.

Aneto e tomilho-limão – dois pedidos frequentes – chegam, na mais lenta das hipóteses, às cozinhas na manhã seguinte após a colheita. Ainda trazem o aroma do orvalho e da terra. Os produtos são entregues por dois distribuidores independentes. Este ano, pela primeira vez, plantaram ceboleta (spring onion). «Foi tão bem aceite que esgotamos à primeira encomenda», revela Laura Mendonça.

As equináceas, «que servem para fazer um chá que reforça o sistema imunitário» florescem com vigor em tons púrpuras, perto da horta experimental onde germinam mimos para os chefs se divertirem: mizuna vermelha, acelgas, chicória pão-de-açúcar, e até uma variedade de salva com sabor a ananás.

«Estamos a fazer uma grande aposta numa erva aromática conhecida no Algarve por nêveda (Calamintha Baetica), também chamada erva-das-azeitonas. Também temos stevia, uma planta doce. Basta um grama para substituir 30 gramas de açúcar. Fizemos a experiência com bolos, uma colher de sopa substitui os 400 gramas de açúcar», diz Laura.

Nuno e Laura já aprenderam que há muita vida para além do refugado – o mais banal destino das aromáticas no quotidiano. Ainda assim, às vezes, são surpreendidos pelo potencial inovador dos seus próprios produtos.

Recentemente, no restaurante EMO Gourmet, em Vilamoura, serviram-lhes bebidas decoradas com um adereço familiar: um pequeno mas robusto caule verde.

«Usam o bolbo da nossa erva-príncipe para aromatizar o Gin. Fazem uns pequenos cortes para soltar a citronela, o que liberta um forte sabor a limão», explica Laura Mendonça, formada em gestão de empresas. Trabalhou na banca durante 13 anos. Saiu amigavelmente para se dedicar em pleno a este projecto agrícola de cariz familiar.

«Mudei radicalmente a minha vida. Costumo dizer que a minha mente é livre quando estou a trabalhar no campo».

A ideia para a quinta começou a sair do papel em 2011. «Quando começou esta crise, penso que toda a gente neste país começou a pensar no que seria o seu futuro. Os meus avós eram agricultores, e já havia um terreno na família. Quando comecei a falar num projecto agrícola muita gente se riu na minha cara”» brinca Nuno Dias.

O casal de jovens agricultores levou a ideia a sério e viu o seu projecto aprovado aos fundos do PRODER (Programa de Desenvolvimento Rural). Contudo, «melhoramos bastante as infraestruturas e o nosso investimento foi muito superior, talvez mais do dobro» do previsto, totalizando cerca de 230 mil euros.

«Ambos vimos de áreas muito burocráticas e estamos habituados no nosso dia-a-dia a lidar com burocracia. Conseguir fazer o que está aqui hoje foi graças à nossa experiência como gestores. De outra forma, não seria possível. Foram imensos obstáculos», admite Dias.

O maior inesperado o enorme custo de instalação de uma linha de média tensão para terem acesso à rede elétrica. De tal forma que «inviabilizava-nos o projecto».

Encontraram a solução na instalação de painéis solares (mini-geração) por um preço equivalente. Um sistema solar, ecológico e independente, resolveu o problema.

Bem gerido, tem energia suficiente para fazer circular os 50 000 litros de água/dia para a rega, através de um sistema automático que bombeia a água de um furo por 20 quilómetros de tubagens. A rega distribui também um fertilizador biológico, à base de urina de ovelha.

Pelo terreno estão espalhadas armadilhas naturais que ajudam a combater e afastar as pragas, como absintos. Pequenos tanques com água, sal e cerveja afogam os grilos que gostam das malaguetas. «Gostam de bebidas alcoólicas. Há quem experimente com vinho e tenha bons resultados. As malaguetas tiveram a praga do pulgão, mas as joaninhas resolveram o problema. A natureza acaba por se restabelecer por si própria».

A energia solar também alimenta todos os equipamentos necessários à secagem das plantas, como o desidratador industrial (inspirado na indústria naval, onde é usado nos estaleiros para secar a pintura das embarcações).

«Isto é interessante, pois mostra-nos o que deveria ser a norma. Se víssemos limitados em termos de energia, iríamos gerir as nossas vidas de forma diferente. Certamente pouparíamos dinheiro», considera Nuno Dias.

As aromáticas que ainda chegam ao mercado da restauração no Algarve são maioritariamente importadas de Espanha. O preço está inflacionado pelos vários intermediários.

«Há chefs que encomendam o nosso tomilho biológico. Dizem-nos que dura 2 a 3 semanas, como se fosse acabado de colher. Isto explica-se porque tem uma maturação natural, enquanto um tomilho não-biológico leva produtos químicos para se desenvolver mais rapidamente», diz Mendonça.

Ainda sobre a globalização: «muitas vezes perguntam-nos: e já exportam? Para onde? Quantas toneladas? Queremos apostar no espaço local. Fazer uma fusão entre agricultura, ervas aromáticas e turismo. Estamos a abertos a acolher outras actividades na nossa quinta».

Por exemplo, visitas guiadas com provas de chás, workshops, degustações ao pôr-do-sol, piqueniques e até eventos culturais. O interesse actual na dieta mediterrânica e o surgimento de núcleos locais do movimento slowfood são tendências que a «Dias de Aromas» abraça.

Parcerias com outras empresas e empreendedores locais são também fundamentais. A mais recente é a estabelecida com uma artesã que faz sabonetes de leite de burra com perpétua-roxa e essência de laranja.

À experiência do que já aconteceu em 2014, com bastante sucesso, a «Dias de Aromas» continuar a aposta no turismo. Especialmente durante a época baixa. «Vamos ter uma operação de turismo sénior, prevista desde setembro próximo a Maio de 2016. Semanalmente, receberemos uma visita de grupo», revela Nuno Dias.

Um grupo de botânicos portugueses, e, uma associação privada de médicos britânicos, também agendaram visitas, já depois do final do Verão. Com sorte, pode ser que consigam ver o lagarto sardão (Lacerta lepida), que é «o maior da Europa».

«Isto é um turismo de emoções, conclui Laura Mendonça. «Às vezes as pessoas deixam de ter contacto com a natureza nas suas vidas e esquecem-se como ela pode ter tantos aromas e sabores diferentes»…

Local de queda de um avião da Segunda Guerra Mundial

A plantação da «Dias com Aromas», no Cerro do Monteiro, Murta, Estoi, tem um outro motivo de interesse histórico. Aqui caiu um avião da RAF, a 2 de Abril de 1943. Um Douglas Boston IIIA vinha de Gibraltar para o Reino Unido. Perto do Porto, teve problemas de motor e o piloto decidiu voltar para trás. Próximo de Tavira, a tripulação saltou de páraquedas e abandonou o aparelho que acabou por despenhar-se aqui em chamas. Ainda lá estão as crateras e o caminho aberto pelos militares portugueses durante o resgate aos destroços. O local está assinalado com uma placa mandada fazer para esse propósito.

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