A Super-Lua: da astronomia às neurociências

A Lua atingiu em Janeiro o perigeu da sua órbita, altura em que fica mais próxima da Terra e, logo, aparentemente maior. Mas o tamanho com que percepcionamos a Lua depende em grande parte da forma como o nosso cérebro lida com as relações entre distância e extensão percebidas, gerando o que se chama de «ilusão da Lua». Observar uma Super-Lua tem, pois, tanto de Astronomia como de Neurociência.

Ocorreu na passada terça-feira a segunda lua cheia de Janeiro, a qual, ao coincidir com o perigeu da sua órbita, atingiu a sua menor distância da Terra e, logo, o seu maior tamanho aparente. É provável que o/a leitor/a, sabendo de antemão do invulgar fenómeno, e dadas as condições climatéricas apropriadas, tenha tentado observar o evento e, talvez, registar com a câmara do seu telemóvel todo o esplendor desta «Super-Lua»; e, ao contrário do que esperava, a fotografia resultante pouco mais mostrasse que um pequeno ponto de luz onde a lua deveria estar, em evidente contraste com o cenário diante dos seus olhos. De resto, é possível que uma experiência similar lhe tenha ocorrido no passado – uma lua perto do horizonte particularmente majestosa sendo reduzida a um mero ponto quando fotografada (a menos que use uma tele-objectiva ou um zoom óptico considerável). Se estes cenários lhe são familiares, experienciou uma das mais fascinantes ilusões perceptivas passíveis de ocorrer em contextos naturais – a «ilusão da lua»: quando vista perto do horizonte, a lua parece significativamente maior do que quando ocupa uma posição mais elevada no céu. Conhecida desde a antiguidade, a «ilusão da lua» depende criticamente da forma como o nosso cérebro lida com a relação entre distância aparente e tamanho percebido.

Apesar da sua natureza ilusória, este efeito está longe de ser negligenciável: a lua, quando perto do horizonte, aparenta ser em média 50 a 70 por cento maior do que quando vista na sua maior elevação celeste. Por comparação, uma Super-Lua como a que ocorreu esta semana apresenta um tamanho de cerca de 14 por cento maior em comparação com uma Lua no apogeu da sua órbita (quando está mais distante da Terra). Como tal, para um observador casual, a «ilusão da lua» é, de longe, o fator mais relevante para o tamanho aparente do nosso satélite natural. Um pequeno exercício que poderá fazer na próxima vez que vislumbrar uma lua particularmente grande é o seguinte: procure estimar que moeda cobre completamente a lua quando segurada à distância de um braço dos seus olhos; de seguida, e com um dos seus olhos fechados, segure a moeda escolhida à sua frente (com o braço esticado) e sobreponha-a à imagem da lua. A maioria das pessoas facilmente escolherá uma moeda de 1 ou mesmo 2 euros, quando na verdade uma moeda de apenas um cêntimo cobre facilmente a totalidade da lua.

Não obstante a sua dramática magnitude e prevalência, a ciência ainda está para encontrar uma explicação consensual e satisfatória para a «ilusão da lua», apesar de serem já conhecidos vários factores que a determinam. Para Aristóteles, a ilusão nada mais seria do que a ampliação óptica da lua pela atmosfera terrestre, que atuaria como uma lupa gigante – não só nenhuma medição física do tamanho aparente da lua corrobora esta explicação como um efeito similar ocorre quando o planeta Terra é observado a partir a Lua (sem a presença de atmosfera), como foi constatado pelos astronautas das missões Apolo. Ptolomeu parece ter sido o primeiro a reconhecer o carácter perceptivo do efeito. Hoje em dia, a «ilusão da lua» tem mesmo sido usada como prova da maturidade científica de qualquer teoria acerca da forma como o nosso cérebro apreende as relações espaciais entre os objetos com base em informações visuais.

Um facto básico da visão é que, a partir de imagens bidimensionais projetadas nas retinas dos nossos olhos, se percepciona um mundo tridimensional, ocupado por objetos de diferentes tamanhos e a diferentes distâncias. Estamos tão habituados a que o nosso cérebro rotineiramente nos forneça uma percepção vívida do mundo tridimensional que é fácil subestimar os desafios que tal requere. Por exemplo, quando vemos uma pessoa a afastar-se, a imagem que essa projeta nos nossos olhos diminui progressivamente e, no entanto, não a vemos como estando a encolher: de alguma forma o nosso cérebro consegue compensar a relação geométrica entre tamanho e distância (Lei de Euclides) de forma a ter em conta que a pessoa se está a afastar de nós obtendo assim o que se apelida por «constância de tamanho» (um objecto aparenta ter o mesmo tamanho independentemente da distância ao observador).

No caso da «ilusão da lua», uma explicação popular é de que a cúpula celeste é por nós percepcionada como uma redoma achatada, em que o zénite (ponto imediatamente acima da nossa cabeça) se encontra mais próximo de nós do que um ponto perto do horizonte, mais distante. Ocorre que a projeção da Lua cobre sensivelmente a mesma porção da nossa retina, esteja ou não perto do horizonte – mas como uma Lua perto do horizonte aparenta estar mais longínqua, o nosso cérebro, habituado a considerar a relação entre distância e tamanho, leva-nos a crer que essa é maior. Uma representação esquemática desta proposta pode ser vista na imagem seguinte.

Artigo de Nuno Alexandre de Sá Teixeira ao abrigo do projeto Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva.

O autor
Nuno Alexandre de Sá Teixeira formou-se em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, e doutorou-se em Psicologia Experimental pela mesma instituição. Trabalhou como investigador doutorado no Departamento de Psicologia Experimental Geral da Universidade Johannes-Gutenberg, Mainz, Alemanha, e, posteriormente, no Instituto de Psicologia Cognitiva da Universidade de Coimbra. Neste momento é investigador doutorado no Centro de Biomedicina Espacial da Universidade de Roma ‘Tor Vergata’, Itália. Os seus trabalhos científicos têm-se centrado no estudo da forma como variáveis físicas (em particular, a gravidade) são instanciadas pelo cérebro, como «modelos internos», para suportar funções perceptivas e motoras na interação com o mundo. Assim, os seus interesses partem da charneira entre áreas temáticas como a Psicologia da Percepção, Psicofísica e Neurociências.

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Ciência


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