Um Morgan de três rodas

A marca britânica Morgan decidiu que os automóveis da atualidade são demasiado genéricos e foi aos inícios do século XX ressuscitar uma ideia genial para quem ama a condução.

Henry Morgan nasceu a 1 de agosto de 1881 na pequena aldeia de Moreton Jeffries, em Herefordshire, Inglaterra. Passados 135 anos do seu nascimento, a marca que exibe o seu nome é uma das mais icónicas de todo o mundo, ao lado de nomes como a Ferrari, a Porsche ou a Lamborghini.

A Morgan não faz supercarros. Os seus desportivos não são iguais a qualquer outro automóvel na estrada, mas uma constante evolução de um processo artesanal de construção. Isto tem garantido um lugar único no mercado e uma legião de fãs e clientes que se mantém fiel década após década.

A premissa de insistir em construir carros maioritariamente em madeira pode ser incompreensível para alguns. Mas para outros, aqueles que sonham com a marca, é a única forma possível para este emblema.

Foi com o primeiro Three-Wheeler, cujo protótipo original Henry Morgan construiu em 1909, que tudo começou para a marca e, numa manobra que não poderia ser uma homenagem maior à sua própria história, a Morgan lançou recentemente a versão do seu mais emblemático modelo de sempre para o século XXI.

3-Wheeler-(11)O novo Three-Wheeler é uma lufada de ar fresco e uma pedrada no charco para toda a indústria automóvel, que está meio perdida com o advento do carro elétrico, a condução autónoma, a necessidade de reduzir emissões e uma fatia importante de clientes que está mais preocupado com a conectividade do seu iPhone ao carro do que o carro propriamente dito.

O Morgan Three-Wheeler está feito para aqueles para quem o automóvel ainda é um objecto de prazer e o hedonismo sobre rodas algo que deve ser estimado e aproveitado ao máximo. A sua imagem tem uma íntima ligação ao passado. Mas não é uma cópia adaptada, como um Fiat 500 ou um VW beetle. Um carro com três rodas nesta configuração não pode fugir muito daquilo que é este Morgan, mas se olharmos para os modelos que ocupavam as estradas há quase um século atrás, as diferenças estão bem marcadas.

Com um chassis tubular de duas rodas à frente e uma atrás, o Morgan é um carro como nenhum outro e oferece uma experiência de condução única e inigualável. Os dois passageiros têm à sua frente um motor V2 produzido pela americana S&S, segundo uma especificação Harley-Davidson, ainda que com afinação específica para a Morgan, que, com 1983cc debita 82 cavalos. Pode parecer pouco, mas este triciclo pesa apenas 525 quilos, o que o torna um brinquedo de gente crescida. A potência é transmitida à roda traseira através de uma transmissão de cinco velocidades saída de um Mazda MX-5 que é absolutamente perfeita. Com a referida meia tonelada de peso, o Three-Wheeler é surpreendentemente rápido e cada curva é uma oportunidade para um pequeno drift perfeitamente controlado em total segurança. Os 100km/h aparecem em 8 segundos – parece muito menos porque a 30km/h já vamos a rir que nem uns perdidos – e até aos 150km/h tudo se passa sem qualquer problema. Daí para a frente é melhor passar para outro carro.

No pouco tempo que passei ao volante do Three–Wheeler, a sensação que guardo como constante é a da adrenalina em níveis elevadíssimos e um sentimento de que não há outro carro assim. Ou triciclo. Também não é possível passar incógnito: o Three-Wheeler chama mais à atenção do que qualquer Ferrari e duvido que até mesmo um elefante a voar tivesse mais pessoas a apontar para ele.

O interior é 100 por cento personalizável e a exclusividade estará sempre garantida, sendo este um automóvel que, como é novo, é já um clássico futuro, o que é curioso, pois as suas origens datam de há mais de cem anos.

O que também é curioso é o facto de este ser o Morgan mais peculiar de todo o catálogo atual da marca e o que mais destoa do resto – sendo o que tem uma maior ligação às origens da empresa.

Não é o carro mais confortável do mundo e certamente não é o mais prático, mas é irreverente como nenhum outro e tremendamente divertido. O Morgan Three-Wheeler é, sem dúvida, a forma mais moderna de viver as maiores aventuras dos anos 1920, 30, 40 e 50 em pleno século XXI. Como dizia um colega jornalista, não é o Three-Wheeler que tem uma roda a menos, são os outros carros que têm uma roda a mais. Eu não o diria de melhor forma…

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