DS 4 Crossback 2.0 Blue HDI

Criar uma marca automóvel em pleno século XXI é uma tarefa de proporções inimagináveis, mas a DS começou de forma auspiciosa.

A história está cheia de automóveis marcantes, que definiram épocas e preencheram o imaginário coletivo pelas suas performances, design ou resultados desportivos. Mas mesmo dentro desse catálogo de modelos, alguns são mais especiais que outros – e poucos são tão importantes como o Citroën DS de 1955, o mais avançado projeto de engenharia automóvel que o mundo já vira.

O boca-de-sapo foi apresentado ao mundo no Salão de Paris, em pleno Grand Palais, a 6 de outubro de 1955, perante uma multidão estupefacta. Pintado num tom champanhe com o tejadilho em grená, o novo Citroën DS 19 parecia muito mais uma nave espacial do que um automóvel.

Um dos presentes, o famosíssimo filósofo Roland Barthes, afirmou mesmo que «o DS mais parece algo caído do céu do que montado numa fábrica». Com um preço base de 940 mil francos, era 200 mil francos mais caro que o equivalente Peugeot 403, mas foram precisos apenas alguns momentos para se perceber que isso não seria um entrave ao seu sucesso comercial. Apenas 45 minutos depois de ter sido mostrado pela primeira vez aos parisienses e à imprensa global, o DS registava 749 ordens de compra. No final do primeiro dia, mais de 12 mil unidades tinham sido vendidas. No encerramento da Salão, dez dias mais tarde, a Citroën tinha 80 mil novos clientes.

O DS tornou-se no mais famoso automóvel francês de todos os tempos. Foi o tempo que fez dele uma lenda do mundo automóvel. É fácil então entender que o Grupo PSA tenha tomado a decisão de chamar à sua terceira marca – depois da Peugeot e Citroën – a sua nova deusa.

O espírito do modelo de 1955 é ainda uma inspiração. Os seus valores formarão a base para uma nova linha de pensamento e, esperam os responsáveis da DS, uma gama que consiga passar essa mesma mensagem de espírito avant-garde. Palavra francesa que, na origem, é um termo militar adotado pelos teóricos franceses do século XIX para descrever os artistas que, à época, desafiavam as convenções e transformavam a sociedade através de uma luta constante com os valores instituídos. Será a nova DS capaz de fazer o mesmo?

A convite da DS, estive em Paris no ano passado para a inauguração da DS Week, uma semana de eventos que pretendeu juntar as celebrações oficiais dos sessenta anos do DS original com o lançamento da nova marca DS. Conduzi o agora o novo DS4 Crossback, o mais recente passo na declaração de independência da DS em relação à Citroën.

Seguindo a mesma evolução tomada pelo DS5 há um ano atrás, o novo DS4 procura uma personalidade mais vincada, uma identidade própria e distinta. No novo DS4 e DS4 Crossback, a versão crossover da gama que ensaiei, a linguagem estética exterior e interior é um elemento fundamental dessa imagem, apresentando ideias estilísticas marcantes, que vincam a diferença para os rivais.

O DS4 Crossback que a marca cedeu para este ensaio foi o topo de gama para Portugal, equipado com o motor dois litros diesel de 180 cavalos na versão de Sport Chic. A evolução para o anterior Citroën DS4 é clara, num automóvel cujo maior interesse é não seguir o caminho traçado por outros. O DS4 equilibra bem a sua faceta premium com a necessidade de ser um automóvel prático para o dia-a-dia. E apesar de não ter pretensões desportivas – uma opção sensata, diga-se de passagem – nem de oferecer uma experiência de condução inesquecível, é um ótimo companheiro para as tarefas diárias e oferece aquela sensação de que o nosso carro não é igual a todos os outros, o que me agrada.

O motor diesel de 180 cavalos permite ritmos elevados com consumos interessantes, na casa dos 7 a 7,5 litros, e a caixa automática está bem escalonada para o conjunto. Obviamente que um motor destes prefere uma auto-estrada do que o trânsito da cidade. Mas não tenho razões de queixa do DS4 nas muitas horas que passei às voltas em perímetros urbanos.

O requinte francês nota-se na carroçaria de dois tons ou nos bancos com função de massagem e a tecnologia na iluminação LED, deteção de ângulos mortos e baixa pressão dos pneus ou na câmara traseira de estacionamento. Esta versão Crossback de topo custa mais de 40 mil euros e será certamente ultrapassada em vendas pelo 1.6 Blue HDI de 120 cavalos que, na especificação Chic, começa nos 29 285 euros.

O DS4 ‘normal’ com um 1.2 a gasolina de 130 cavalos consegue ser ainda 4500 euros mais barato. Carlos Tavares, o CEO do Grupo PSA, diz que demora 30 anos a criar uma marca do zero, o que significa que a DS tem muitos desafios pela frente, mas um começo auspicioso já ninguém lhe tira. Um DS pode não ser para toda a gente, mas para quem procura fugir do tradicionalismo alemão, exotismo italiano e não quer ter mais um Renault, Peugeot ou Citroën, a DS é uma opção a ter muito em conta.

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