Obra da ETAR de Faro/Olhão está 71 por cento concluída

Estão concluídos 10/14 avos (71,4 por cento) da infraestrutura que a partir do final de junho acabará com os maus cheiros junto à Ria Formosa entre as duas cidades.

Já está concluído o emissário de cerca de 1,5 quilómetros que liga o fim de linha da nova Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Faro/Olhão ao Esteiro da Garganta, onde será descarregada água limpa, livre de odores e sem coliformes fecais, na Ria Formosa, a partir de 23 de junho. «A obra está a seguir o planeado, dentro do normal. Tem uma inovação única no país ao nível do tratamento final do efluente. Trata-se da tecnologia holandesa Nereda, para tratamento biológico, baseada em grânulos aeróbicos, que permite uma limpeza de lamas muitíssimo mais rápida do que um sistema tradicional», explicou Joaquim Peres, presidente do Conselho de Administração da Águas do Algarve, ao «barlavento» durante uma visita técnica ao local, na sexta-feira, 26 de janeiro.

Estrutura por onde sairá a água tratada na nova ETAR para a Ria Formosa.

Peres já tinha feito uma instalação-piloto em Lisboa, na ETAR de Frielas. A nova infraestrutura algarvia aproveita, contudo, todo o potencial do sistema Nereda num projeto criado de raiz. «A principal vantagem é a grande economia de energia. Por outro lado, a área ocupada com a construção é muito mais pequena, porque os tanques estão feitos em sobreposição uns aos outros», esclareceu.
Em Portimão, a ETAR da Companheira também mantém o prazo, previsto para 6 de março. «Estamos na fase de instalação de equipamentos. Quem passar por lá perto ainda verá a confusão saudável e natural das obras. Quando chegar à data, estou convencido que estará pronta», disse.

Teresa Fernandes e Joaquim Peres da Águas do Algarve.

Em termos de conceção, «são ambas muito distintas. Os concursos públicos foram lançados em datas diferentes. Não se pode dizer que uma é melhor ou mais avançada que a outra. A ETAR de Faro/Olhão teve o processo mais afinado. Mas ambas irão cumprir perfeitamente bem os seus objetivos. No fundo, aquilo que irão fazer é produzir água de qualidade que, no extremo, poderia voltar a ser consumida pelas pessoas. Com um sistema de tratamento terciário, com membranas e ozonização, estaríamos em condições de voltar a beber essa água, sem grandes questões», comparou o gestor.

Ciclovia e paisagem para fruir
Também a ciclovia que passará na envolvente da ETAR «vai mesmo acontecer, numa atuação conjunta com as autarquias de Faro e Olhão, que se têm empenhado no projeto. Nós vamos deixar toda a plataforma preparada para as Câmaras fazerem o acabamento final. Ou seja, faremos o trabalho preparatório por cima da nossa conduta. As autarquias têm mostrado grande interesse», sublinhou Joaquim Peres, embora sem precisar prazos. Após o término da obra, «o empreiteiro tem um ano, para a chamada fase de arranque, durante a qual tem de se otimizar todo o tratamento. Mas a partir do dia 23 de junho, os odores praticamente desaparecem. Seria um pouco de loucura minha dizer que nunca mais haverá cheiros. Estamos a falar de instalações mecânicas que podem ter uma avaria. Mas só nessas circunstancias», explicou.
«O antigo sistema de lagoas é deficitário e lento. No futuro, as lagoas serão desativadas e objeto de renaturalização. Não vão receber qualquer esgoto. Todo o efluente que entrar na nova ETAR terá uma descarga final na Ria, onde será lançada uma água com uma qualidade muito elevada», voltou a frisar.

«Ou seja, este espaço, que é paradísico, vai ficar com condições muito boas, em função da natureza envolvente. Desde o início da obra está em curso um programa de monitorização e contagem das aves e da avifauna, com a elaboração periódica de relatórios, que são enviados para o Instituto de Conservação da Natureza (ICNF), e Agência Portuguesa do Ambiente. A análise dos resultados tem-nos deixado bastante tranquilos. De facto, aquilo que se verifica é que a obra não afastou as aves deste local onde vinham nidificar», sublinhou.

Emissário de saída do efluente final tem 1,5 metros de diâmetro.

A Águas do Algarve desafiou o RIAS – Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens, para fazer este estudo e para «fazer a caracterização das espécies com vista à edição de um guia de campo, despretensioso, a publicar no futuro». Isto porque «até poderemos vir a ter atividades de educação ambiental na futura ETAR. Faz sentido, podendo as pessoas fruir dos espaços envolventes, nada como dar conhecimento daquilo que cá existe». Por outro lado, a problemática ETAR Poente de Olhão «vai desaparecer. Nesse local ficará apenas uma lagoa seca, com uma nova camada de tela, que servirá como ponto de descarga de emergência, caso aconteça algum problema na estação elevatória. Neste caso, nada será vertido para a Ria Formosa, mas confinado num espaço para o efeito».

Imprevistos na Companheira
O presidente Conselho de Administração da Águas do Algarve tem acompanhado todas as fases da obra da ETAR de Faro/Olhão através de um aplicativo no telemóvel. Uma rede interna de webcams mostra, em tempo real, o progresso dos trabalhos. «É uma situação sugerida por mim e aceite pelo empreiteiro. Não tem peso absolutamente nenhum no orçamento e permite fazer um acompanhamento de proximidade. Qualquer situação de dúvida rapidamente se esclarece com um telefonema», mostrou Joaquim Peres ao «barlavento». «Estamos a desenvolver uma cultura de cumprimento de prazos. Há todo o trabalho da equipa da casa, da fiscalização, e dos empreiteiros, na certeza de que as obras só se fazem uns com os outros», frisou.
Em relação às contas, «o que estava orçamentado é para cumprir. Agora, houve situações que não era possível terem sido determinadas antes. Enquanto que em Faro/Olhão não haverá desvios com toda a certeza, na Companheira já não se poderá afirmar isso. Estamos a falar de um maciço rochoso,
cársico, que ninguém sabia que em tempos pré-históricos teria sido objeto de estadia humana. Isso veio a alterar um pouco as condições de execução dos trabalhos», admitiu ao «barlavento».
Em Portimão, também os detalhes «vamos ter um arranjo com árvores amendoeiras, alfarrobeiras, figueiras. E cumprir as regras do ICNF nas pavimentações, regularização das valas para circulação da água, aquilo que são as obrigações legais», disse.
Ambas as ETAR terão uma vida útil de 100 anos. «É o horizonte destas obras públicas. Embora a população residente esteja a diminuir, a que frui deste espaço tem vindo a aumentar. Isso teve de ser calculado. Em Portimão temos ali toda uma zona turística, junto ao Arade, e praias que não podem perder as bandeiras azuis. Haver esgoto ali, não tem jeito nenhum», concluiu.

Autonomia energética

A nova ETAR de Faro/Olhão é um investimento que ronda os 14 milhões de euros, terá uma capacidade para tratar os esgotos de uma população de 113800 habitantes, incluindo o efluente de São Brás de Alportel, cuja estação elevatória também está neste momento a avançar. Para Joaquim Peres, um aspeto importante é «a capacidade de produzirmos a energia necessária para que esta instalação funcione com custo zero de energia, seja autónoma e autosuficiente». Para esse efeito será instalado um parque solar fotovoltaico, que aproveita uma parte do terreno libertada pela baixa volumetria física das instalações. «E estamos a desenvolver uma solução inteligente para a gestão das lamas. Vamos criar uma secagem solar, para as lamas não andem a passear-se pelo país com um grande grau de humidade (mais de 80 por cento), que é o que costuma acontecer até agora», explicou.

Reutilização da água já tem interessados

Joaquim Peres compara esta ETAR de última geração a uma «fábrica de água», porque no final do processo de tratamento, a água pode ser destinada à rega ou limpeza urbana. «À parte da construção, estamos a fazer também toda uma sensibilização para a reutilização. A Câmara de Olhão está interessada em receber uma parte dessa água. Outra será destinada à agricultura e até ao turismo. Poderá ser recebida numa localização em que se deseje. Ou seja, pode ser descarregada nos lagos dos campos de golfe que funcionam como depósitos provisórios antes da rega», explicou. Para já, esta água será utilizada na limpeza das próprias instalações.

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