Esgoto a céu aberto na Luz de Tavira causa alarme em viveiros de bivalves

Pedro Gois, sócio-gerente do viveiro «Ostras da Torre d’Aires», na Luz de Tavira, está preocupado com as escorrências do esgoto de uma urbanização próxima. Teme que o foco de poluição resulte num aumento da mortalidade dos bivalves e prejudique o investimento da empresa, que já ultrapassa os 150 mil euros, desde o início da atividade, em 2016.

O alerta foi dado na quarta-feira, 18 de abril. «Fomos contactados por um vizinho, que já vem a detetar há algum tempo, esgotos a céu aberto a desaguar diretamente na Ria Formosa, junto aos viveiros de ameijoas e ostras, neste caso, o nosso. Informou-nos que já tinha verificado esta situação em meados de fevereiro e reportado o caso à Câmara Municipal de Tavira e à Junta de Freguesia da Luz de Tavira».

No final da semana passada, o «barlavento» foi ao local e confirmou o caudal pestilento a sair de uma tampa de saneamento nas traseiras da urbanização «Lux Tavira Residence», junto à Estrada das Antas.

A fuga, por se infiltrar na rede das águas pluviais, escoa até um ribeiro que desagua na Ria. Alguns moradores, que pediram o anonimato, garantem que o cenário se repete com frequência desde a conclusão daquele bairro residencial. E asseguram que no verão o problema se agrava, dando origem a mau cheiros e mosquitos.

Pedro Gois contactou de imediato a Linha SOS Ambiente e Território do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, assim como a empresa a Águas do Algarve (AdA), que deslocou uma equipa ao local. Contactou ainda a empresa municipal Tavira Verde. «Admitiram o entupimento na rede e disseram que em breve, tudo estaria resolvido».

Contactada pelo «barlavento», Teresa Fernandes, responsável pela comunicação da Águas do Algarve, explica que «a descarga de águas residuais deveu-se a problemas na rede em baixa, que segundo sabemos já foram resolvidos pela Tavira Verde na passada sexta-feira ao final do dia, mediante uma ligação ao nosso coletor, autorizada previamente pela Águas do Algarve».

O viveirista, engenheiro eletrotécnico de profissão, também aponta o dedo à Estação Elevatória (EE) da Luz de Tavira, «onde podemos ver grandes quantidades de areias ali depositadas, dando a entender que algo poderá não estar bem». Teresa Fernandes explica, porém, que «a mesma resulta da deficiente drenagem de águas pluviais, no exterior do recinto da EE, a que somos alheios. O que, de qualquer modo, não tem qualquer relação com o problema anterior. As águas de esgoto, encaminhando-se para a ribeira são provenientes do coletor da Tavira Verde. A Águas do Algarve atenta a estas situações, e de forma a proteger a população e o meio ambiente, tudo fará para apoiar, na medida do que nos é possível, e identificar as melhores soluções para esta e outras situações que possam ocorrer. Sendo certo, que damos preferência a atitudes/ resoluções pro-ativas e não reativas».

Também contactada por escrito pelo «barlavento», a 20 de abril, a Junta de Freguesia da Luz de Tavira, informou apenas que o pedido de esclarecimento «foi reencaminhado para as entidades competentes».

Já António Salgado, diretor de planeamento e obras da Tavira Verde, respondeu que se tratou de «um colapso do coletor de águas residuais domésticas, com obstrução total do mesmo. Apesar da intervenção iniciada para a resolução da situação, imediatamente após a ocorrência, concluiu-se que, devido às características do coletor e a profundidade de implantação, cerca de 4,00 metros, com nível freático elevado, a mesma não seria de rápida e eficaz conclusão».

Assim, «após contacto com a AdA, Águas de Portugal, foi executada ligação do nosso coletor ao sistema intercetor daquela entidade, tendo a situação das escorrências ficado resolvida por volta das 17 horas do dia 20 de abril. Foi dado conhecimento da situação ocorrida à APA-ARH Algarve».

Pedro Gois produziu perto de 40 toneladas de ostras em 2017, sendo a maioria para exportação para França e Espanha. Este ano, o objetivo é atingir os 50 mil quilos, se tudo correr bem. «Tínhamos ideia que não havia aqui nada de esgotos até sermos confrontados com esta situação. Agora, temos mesmo de estar preocupados. Se há erros de construção naquela urbanização, se há mistura de efluentes domésticos com águas pluviais, então, há que tentar corrigir. Ou vamos ser todos coniventes com uma situação que está mal?».

Já depois do fecho de edição, na terça-feira, 24 de abril, o gabinete de comunicação e relações públicas do município de Tavira, enviou um e-mail ao «barlavento» a informar que «o assunto reportado foi encaminhado internamente, com vista a uma averiguação rigorosa e cuidada do exposto», remetendo para mais tarde «uma resposta conclusiva».

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