Fernando Santos Pessoa deu «a consciência poética da paisagem» à Universidade do Algarve

Muitos amigos, colegas, académicos e ex-alunos marcaram presença na sessão de homenagem, ao final da manhã de sábado, 25 de novembro, no Campus de Gambelas da Universidade do Algarve (UAlg), em Faro.
Fernando Santos Pessoa.

O lançamento do livro «Intervir na paisagem» de Fernando Santos Pessoa foi o mote perfeito para homenagear o autor, projetista, planeador, professor, escritor, divulgador, biógrafo, representante de relevantes cargos públicos e fundador da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP). António Branco, reitor da Universidade do Algarve, a quem coube as primeiras palavras da sessão, lembrou «a enorme dimensão do trabalho, da vida e da ação de cidadania» do «pai» da licenciatura em Arquitetura Paisagista da academia algarvia, lecionada em Faro desde 1997.

«Estes 20 anos não poderiam ter existido sem ele, por uma razão simples. Na altura, a professora Emília Costa desafiou-o para nos ajudar a criar um curso de Engenharia do Território à semelhança do que existia no Instituto Superior Técnico (em Lisboa). Mas em muito boa hora conseguiu convencer a universidade que a opção melhor» seria uma oferta diferente. E, lembrou o magnífico, «essa mudança estratégica foi totalmente influenciada pela visão do arquiteto
Fernando Pessoa».

Criou-se então o primeiro plano curricular, ao qual «ele acrescentou à formação técnica e altamente especializada, três dimensões absolutamente essenciais: a dimensão ambiental, a cultural e a poética. Trouxe-nos a consciência poética da paisagem, a consciência poética dos jardins, a consciência poética que nós devemos ter em relação à vida e ao planeta», sublinhou o reitor António Branco.

Fernando Santos Pessoa lecionou ao longo de 10 anos na UAlg. «Criou a identidade do nosso curso. Marcou indelevelmente os estudantes, os docentes e também a universidade para sempre. Tenho a obrigação de lhe agradecer este enorme legado, esperando nós estar à altura de o continuar», afirmou ainda.

Uma ovação de pé por Filipe Jorge, Maria de Lurdes Cristiano, João Reis Gomes, António Branco, Jorge Canela e Gonçalo Duarte Gomes.

O ex-aluno Gonçalo Duarte Gomes, hoje presidente da direção da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas, lembrou alguns dos valores e exemplos pelos quais ainda hoje se norteia, fruto da convivência com o seu antigo professor.

«Admiro a atenção e cuidado do seu pensamento, sempre preocupado com a componente humana das paisagens e com o próximo, numa lógica de dignidade e de ética, em que o respeito pelo homem é sempre indissociável do seu suporte vital, psíquico e moral. Sem perder o necessário pragmatismo que estas coisas implicam. Admiro também a resistência e a determinação com que continua a intervir na vida pública», dissertou.

Gonçalo Duarte Gomes recordou que, nas aulas, «não nos transmitia dogmas. Propunha uma compreensão mais vasta de tudo aquilo que nos rodeava, do reino dos homens, da natureza e da poética, de tudo aquilo que de alguma forma transcende a mera soma das partes». «Despertou em mim uma consciência cívica. Inspirou-me a abraçar a intervenção ambiental como um dever moral». Ou seja, «aquela ideia de que dar um pouco de nós àquilo que é de todos nós é o dever inescusável de qualquer cidadão que se queira dotar desse termo».

Aprendeu também que «o trajeto da ideia começa sempre, mas sempre, com um lápis na mão e papel à frente. É assim que se inicia qualquer processo criativo. Além disso, há outros dois elementos imprescindíveis para os quais a universidade não nos prepara: muito café e boa música, desde o jazz à clássica. O professor Fernando Santos Pessoa ensinou-me que Deus efetivamente ouve Mozart, mas os anjos divertem-se ouvindo Beethoven», disse.

Por fim, em jeito de conclusão, não deixou escapar a referência à poesia, com um trocadilho. «Alguém falou aqui no outro Fernando Pessoa. Mas acho que este tem uma vantagem. Consegue igualmente ser tão complexo e multifacetado, mas sem precisar de heterónimos».

Findos os discursos, e com a humildade que todos lhe reconhecem, Fernando Santos Pessoa acabou também por subir ao púlpito do Auditório Verde. «Quando olho para trás não vejo nada de extraordinário que tenha feito, a não ser trabalhar nas oportunidades que me foram dadas. Aqui passei alguns dos melhores anos da minha vida a dar aulas. Comecei em 1981, passei por várias faculdades. É um privilégio ir assistindo ano após ano, à entrada de gente nova. Se nós ensinamos alguma coisa aos alunos, também os alunos nos ensinam muito, se soubermos aprender e acompanhar aquilo que está a acontecer a cada geração. É uma riqueza muito grande», sublinhou.

Apesar dos seus 80 anos de idade, está a trabalhar num novo livro, a partir de textos de Ilídio de Araújo, falecido em janeiro do ano passado, no Porto. Araújo foi um dos primeiros arquitetos paisagistas portugueses, condiscípulo de Viana Barreto e de Gonçalo Ribeiro Telles, e uma voz crítica da betonização do país.

«Era um grande amigo meu. Uma semana antes de falecer, ele sabia que era a última vez que nos veríamos. Entregou-me um CD com mais de 900 páginas de textos que escreveu ao longo da vida. Dessas, já tenho centenas preparadas para a edição. São absolutamente fundamentais porque apresentam uma teorização muito própria da profissão que o Ilídio fazia», considerou.

«A arquitetura paisagista foi muito importante para Portugal. Os mais novos não sabem, mas quem intervinha no território eram arquitetos e engenheiros. Com o devido respeito, há 50 anos não tinham a visão global que hoje já vão tendo. E quem trouxe a visão global do território foi a arquitetura paisagista que é a arte de ordenar o espaço em função do homem. Aí está o leitmotiv da nossa ação. A natureza existe, é respeitada, mas tem de ser posta ao serviço do homem», defendeu.

«Ao longo da vida, sempre que não se cumpriram as regras e normas práticas da arquitetura paisagista, as desgraças aconteceram», disse, dando como exemplo a explosão do turismo algarvio, no início da década de 1960. «Vendiam-se terrenos por todo o lado, era caótico, não havia qualquer espécie de ordenamento» e as consequências estão hoje à vista.

Recentemente, a imprensa nacional recordou as cheias de 1967, em Lisboa. Pessoa pessoa também se lembra. Na altura, «qual é o espanto quando vejo o Ribeiro Telles, que era da oposição» ao regime salazarista, e portanto, «não tinha acesso a meios de comunicação, na televisão com o seus desenhos a giz, a explicar coisas que todos nós hoje sabemos, mas que na altura eram novidade. A falta de proteção das bacias hidrográficas, a ocupação de leitos de cheia, tudo isso devido ao mau ambiente social, à miséria que existia», recordou.

«Há duas Histórias, a que é escrita e que nem sempre é fidedigna, e a que está inscrita na paisagem. Essa é verdadeira. Paisagem é cultura, paisagem é o homem. Para se intervir tem que se ter conhecimento. Este ciclo de fogos e de falta de água que atravessamos, entre outros fatores, é tudo consequência de falta de ordenamento. Os lugares de chefia são dados a quem tem um cartão do partido A ou B, não é pela competência, e depois o país está desordenado há décadas. A arquitetura paisagista tem obrigação de voltar a impor-se», apelou.

Na plateia esteve Miguel Freitas, secretário de Estado das Florestas, «um amigo, em quem eu e muitos algarvios depositamos grandes esperanças para que possa ter uma ação decisiva na resolução dos problemas» da atualidade.

A sessão contou ainda com a intervenção de Filipe Jorge, arquiteto e editor da Argumentum, de Jorge Cancela, presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP), de João Reis Gomes, arquiteto paisagista, e da diretora da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Maria de Lurdes Cristiano.

Estiveram também presentes a vice-reitora da Universidade do Algarve Manuela David, o ex-reitor João Guerreiro, os professores Horta Correia e João Bernardes e a diretora regional de cultura Alexandra Gonçalves.

«Intervir na Paisagem»

O livro «Intervir na Paisagem» de Fernando Santos é constituído um conjunto de 33 textos com reflexões distribuídas por cinco capítulos: ecologia e ambiente; paisagem e arquitetura paisagista; ambiente e qualidade de vida; cultura e ambiente; e política, ao longo de 192 páginas. Jorge Paiva assina o prefácio. Editado pela Argumentum é, segundo o editor Filipe Jorge, «apenas a ponta do icebergue de uma grande obra» que o obra construiu ao longo dos anos.

Categorias
Educação


Relacionado com: