«Os problemas do Algarve não passam do Caldeirão» diz José Vitorino

Considerando o trágico e inesperado falecimento de Carlos Silva e Sousa, e por «respeito e homenagem» ao autarca de Albufeira, a Algfuturo – União pelo Futuro do Algarve, decidiu adiar a realização das Jornadas «Economia do Barlavento em Debate», marcadas para amanhã, sábado, dia 24, no Museu de Portimão. Em declarações ao «barlavento», José Vitorino justifica que «hoje no Algarve estamos todos de luto. É mínimo que podemos fazer», endereçando sinceras condolências à família e munícipes de Albufeira. A nova data será anunciada em breve.

barlavento: Fazia falta organizar este debate?
José Vitorino:
A questão que se coloca hoje é a que se colocava há 16 anos quando fui presidente da CEAL. Nessa altura, dinamizei um encontro económico e empresarial do Barlavento algarvio, com os autarcas de então. Achámos e continuo a pensar que o Barlavento é a periferia do periferismo algarvio. E, portanto, se é verdade que os problemas do Algarve não conseguem passar da Serra do Caldeirão, a realidade e o potencial dessa sub-região também não ganha muita expressão pública.

Mas Portimão sempre foi um polo influente a nível político…
Tem uma força enorme e é um concelho importantíssimo. Mas estamos a falar do Barlavento, dos sete concelhos mais a oeste. O Barlavento representa na riqueza regional, nos diversos indicadores, entre os 30 e os 40 por cento da economia. Mesmo com a via férrea ainda em situação de agonia e a Via do Infante parada durante quase uma década, e outros estrangulamentos conseguiu crescer. É uma sub-região com muitas áreas de baixa sazonalidade no turismo. E tem uma agência de desenvolvimento de enorme potencial e um poder financeiro e político de grande representatividade. Está a fazer um bom trabalho e tenciono falar sobre isso.

Estas jornadas são uma forma da associação Algfuturo dar-se a conhecer fora de Faro?
Não. Nem eu sou um neófito, nem isto é para fazer propaganda. Estas jornadas constam das conclusões do nosso grande congresso do ano passado, no qual esteve presente o Presidente da República. Estão em preparação há seis meses e têm tido muito boa recetividade. Há no Barlavento cerca de 30 associações, com excelentes dirigentes e muito bons empresários. É importante dar-lhes um estímulo à autoestima, para que sintam que juntos têm mais força. De algum modo isso já acontece, embora possa aprofundar-se mais a concertação de posições entre o poder público, privados e associações. Tenho sentido que há essa vontade recíproca.

Continua a defender a regionalização?
Ao longo da minha experiência de 40 anos de vida pública e associativa, lembro-me de um estudo que apresentei no Porto, em 1986, sobre o Poder Regional. Na altura concluí que, com o sistema centralizado que existia em Portugal, era praticamente impossível reverter os atrasos estruturais e assumir uma posição dianteira para vencer os desafios da União Europeia. O sistema não permitia modernizar o país e aproveitar a própria riqueza humana das pessoas. Hoje mantenho a posição. Avançou-se muito no municipalismo, que, no conjunto, tem feito um trabalho notável. Mas no que toca a criar órgãos de poder intermédios, não avançou. Agora está a ser preparado um pacote no qual se inclui a descentralização para o nível regional. Esperamos que avance, com o consenso possível. Este governo meteu a mão no processo e está comprometido. Que seja dado um primeiro pontapé de saída, um passo em frente. Depois outros virão e a regionalização prevista na Constituição chegará.

Conhece os planos de desenvolvimento regional a médio longo prazo?
Não há, ou têm sido sobretudo teoria. Cada vez que abre um quadro comunitário de apoio, fazem-se reuniões para se recolher opiniões. Já houve planos para a aplicação dos fundos comunitários, linhas de orientação conjugadas com as orientações gerais que vêm de Bruxelas e que se prolongam até às regiões. Esse é outro problema. Se não há no país regionalização, se não há força para que ao nível de cada região possam valer pontos de vista fundamentais para as suas estratégias de desenvolvimento, bom, acontece o que aconteceu numa reunião em Faro. Fez-se o balanço dos 30 anos de fundos europeus no Algarve, e estavam presentes todos os ex-presidentes da CCDR. Qual foi a grande conclusão? Lamentavam não se ter alterado o que era estratégico. Voltamos à questão de 1986. Não há um arquétipo institucional em que a região possa fazer valer os seus pontos de vista para os aplicar. Em que os parceiros sociais possam participar. E os fundos comunitários têm sido poucos.

Na sua opinião, qual deve ser a prioridade para o Algarve?
É preciso pôr em cima da mesa, com verdade, que o Algarve tem 1 por cento de valor acrescentado bruto de empresas de alta (e média) tecnologia, para uma média do país de 12 por cento. Como é que chegamos a algum lado com estes valores numa sociedade que vive a era digital? Como é que se faz para que, em 10 anos, o peso da agricultura, pesca e indústria seja superior aos 8,5 por cento? O Algarve não tem sustentabilidade só com base numa economia de serviços de baixo valor acrescentado. Senão, não se consegue reverter uma economia em que 2/3 do volume de negócios das empresas são gerados apenas em quatro meses (1/3 em oito meses) e em que 70 por cento é gerado nas atividades ligadas ao consumo dos turistas e visitantes. São os tremendos desequilíbrios da sazonalidade.

Na semana passada, cinco associações subscreveram um comunicado de apoio à AMAL na contestação ao petróleo. Não estava assinada pela Algfuturo. Porquê?
A nossa posição face à gravidade que representa a exploração de hidrocarbonetos na região é pública. É uma ameaça transversal para toda a economia. A questão aí tem a ver com sermos uma associação jovem. Quer a AMAL, quer a CCDR, quer a RTA são organismos que têm estruturas de que essas associações fazem parte há anos. É uma questão de natureza institucional. Ninguém nos convidou para subscrever o documento. Mas também ninguém teria que nos convidar. Tudo virá a seu tempo. Não pomos reserva nenhuma a pertencer a qualquer órgão consultivo regional e estamos preparados para isso, como já demonstrámos. Por outro lado, a Algfuturo mantém boas relações com os dirigentes de todas as associações.

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