Novidades «Made in Portugal» à conquista da China

O programa «China Start» decorreu de 6 a 10 de março, em Xangai, Hangzhou e Shenzhen, com o objetivo de promover as novas empresas portuguesas, procurar investimento e potenciais parcerias.

O «China Start» dá a oportunidade a start-ups europeias de participarem numa formação de alta qualidade, com o acompanhamento e instrução de especialistas de renome no mercado chinês, como professores de Harvard, Columbia e Wharton, e também gurus do investimento, que oferecem as «armas» necessárias aos jovens empreendedores presentes para melhorarem os seus pitchs (apresentações) junto dos possíveis investidores no gigante asiático.

Tive oportunidade de acompanhar esta iniciativa, organizada por uma das principais academias de negócios chinesas, a Cheung Kong Graduate School of Business (CKGSB), financiada pela fundação Li Ka Shing (pertencente a um dos homens mais ricos do mundo), que tem entre os seus alumni alguns dos empresários mais poderosos da China, como Guo Guangchang da Fosun, Jack Ma da Alibaba ou Fu Chengyu, chairman da SINOPEC.

Fui enquanto representante da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, fruto da sua parceria com a CKGSB, acompanhado por quatro jovens portugueses, e enquanto colaborador do «barlavento» e algarvio, não poderia deixar de partilhar um balanço desta viagem.

Esta segunda edição do «China Start» contou, pela primeira vez, com participações de Portugal, através das start-ups CoolFarm, GBSN Research, Oncostats e Sword Health. Estamos habituados a que eles venham ter connosco, bem, desta vez fomos nós ter com eles.

A aventura começou no dia 6 de março no campus da CKGSB, em Xangai, numa aula lecionada pelo fundador da escola, Xiang Bing, sobre a conjuntura económica, política e cultural da China, um dos países mais capitalistas e menos socialistas do mundo segundo considerou. Nem o jet lag me deixou prestar menos atenção.

Além de reitor da CKGSB, Bing é membro da direção de uma panóplia de empresas em Hong Kong e na China continental (entre as quais duas que constam do top Fortune 500). Além de participar no Fórum Económico Mundial, oferece a sua análise a vários órgãos de referência como Financial Times, The Economist, Bloomberg, BBC, entre outros.

Seguiu-se um workshop de pitch de investimento, com o guru do investimento Denes Ban, que gere um fundo com um portfólio de 400 milhões de dólares, e depois, uma sessão de apresentações das start-ups na sede da Fosun, um dos principais investidores chineses em Portugal (dona da Fidelidade, Luz Saúde e acionista maioritário do BCP).

No segundo dia, depois de mais uma sessão de formação, com Teng Bingsheng, acerca de estratégias de entrada no mercado chinês, aquisições e alianças, os empresários tiveram de pegar o touro pelos cornos, perante uma série de investidores presentes no DOBE Group, uma das principais incubadoras de empresas na China. Os europeus apresentavam soluções engenhosas para problemas na produção agrícola, saúde, recursos humanos e marketing. A irreverência europeia (e claro está, a portuguesa) mostrou aos chineses que muita da evolução tecnológica ainda reside no ocidente. Houve ainda tempo para uma passagem pela mais conhecida incubadora chinesa, a Chinaccelerator, localizada bem no coração de Xangai.

Na quarta-feira, 8 de março, seguimos para Hangzhou, onde está estabelecida uma super empresa chinesa, a Alibaba, algo que o eBay e a Amazon devem temer. A sede está ao nível de uma Google ou Apple, sendo que o mais interessante é que o seu fundador, Jack Ma, um dos homens mais carismáticos na China, implementa uma filosofia que relembra aos seus funcionários que eles trabalham para ajudar as pessoas com mais dificuldades. Não é caridade. Promover o negócio entre pequenos empresários e as classes mais baixas é o principal objetivo da Alibaba. No mundo, as três principais formas de pagamento são o Visa, Mastercard e o Alipay (ferramenta da Alibaba), sendo que esta ultima é a 2ª maior mundial, detendo 50 por cento das transações na China.

No dia seguinte, quinta-feira, dia 9, foi altura de viajar para a Silicon Valley chinesa, Shenzhen, cidade das mil e uma novas tecnologias, vizinha de Hong Kong e da nossa Macau. O destino foi a sede da Tencent, provavelmente a maior empresa tecnológica da China, e uma das maiores do planeta. Entre outras aplicações, lançou o WeChat, que todos os chineses, velhos ou novos, homens ou mulheres, pobres ou ricos, usam para tudo. É muito mais que o facebook. É a maneira de comunicar dos chineses, mas também de fazerem pagamentos, investir, fechar negócios, pedir boleia, saber quais os melhores sítios para comer durante o dia, entre muitas outras coisas. A Tencent também faz jogos, entre os quais o conhecido League of Legends, o qual nós ocidentais tanto gostamos.

Sim, o dia não poderia ter corrido melhor, e eis que entra à nossa frente a maior personalidade de toda a China, que curiosamente até nasceu nos Estados Unidos (apesar de descendente de chineses). Richard Chiang é um dos mandachuvas da 3Nod, uma fábrica inteligente que produz tudo o que possamos imaginar, desde material de música, imagem e até eletrodomésticos inteligentes. A fábrica é a personificação da inovação e da «internet of things».

Bem, a história de Richard é quase hollywoodesca, ele que já foi polícia em Los Angeles, foi baleado 6 vezes, enfrentou a falência, e investiu os últimos 4000 dólares que lhe restavam numa loja que se tornaria uma das mais famosas na cidade californiana. Foi para a China para se tornar bilionário num projeto inovador. Entre os seus amigos estão Justin Timberlake e Akon, que o ajudam a promover os seus novos produtos electrónicos. Ah, e também faz música e concertos. Sim, é uma personagem… «Lets make shit happen», disse-nos.

Depois destes fantásticos momentos foi tempo para voltar para o campus da CKGSB em Shenzhen, para mais uma sessão de pitch de investimento das nossas start-ups perante os investidores. Foram quase três horas de apresentações. De novo, foi muito o interesse demonstrado nas empresas, principalmente nas portuguesas, que possivelmente viram as portas do mercado chinês se escancararem à sua frente. Não tiveram receio dos muitos milhões à sua frente, simplesmente foram-nos buscar.

O último dia foi para reflexão e de entrega de diplomas. Infelizmente tive de regressar logo depois do almoço, pois tinha avião mais cedo. Ainda assim, tive tempo de me despedir daqueles com quem partilhei uma das oportunidades mais flagrantes nas nossas vidas profissionais. A qualidade presente neste programa era digna de «Premier League», pelo que mais edições se esperam e que esta se torne uma marca importante na expansão das nossas start-ups.

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