Vilamoura World redesenha polémica «Cidade Lacustre»

Considerado irrealista para o mercado de hoje e complexo de implementar no terreno, o projeto da «Cidade Lacustre» vai avançar, mas com um conceito diferente do inicial.
O argentino Juan Gómez-Vega, vem substituir o britânico Paul Taylor na liderança de Vilamoura World.

Era um conceito errado, admitiu ao «barlavento» Juan Gómez-Vega, 39 anos, o novo CEO de Vilamoura World. A ideia de uma nova urbe de luxo sobre a água, com canais de navegação para os donos de iates poderem ancorar as embarcações à porta das vivendas e apartamentos, prometia atrair milionários de todo o mundo.

Aliás, a necessária rede de lagos e canais obteve o reconhecimento de interesse público por despacho governamental, em 1995. Mais tarde, o Plano de Urbanização da «Cidade Lacustre» de Vilamoura foi aprovado pela Assembleia Municipal de Loulé e ratificado pelo governo em 1999.

Aquando da venda da Lusotur ao grupo espanhol Prasa, em 2004, por 380 milhões de euros, o arquiteto Rafael de la Hoz desenhou o projeto do empreendimento, que chegou a ser apresentado no Salão Imobiliário de Lisboa, no final de outubro de 2007. A água, contudo, não correu o curso previsto. No rescaldo da crise financeira dos últimos anos, o fundo texano «Lone Star» adquiriu Vilamoura e o resort e tem agora planos mais realistas para o presente e o futuro.

Segundo o novo CEO Juan Gómez-Vega, que vem substituir o britânico Paul Taylor, a «Cidade Lacustre» não caiu, mas tem uma filosofia diferente. «Terá entre 1200 a 1500 casas. É o filet mignon do nosso banco predial. O conceito original previa um elevador para iates, com a possibilidade de ancoragem à porta de casa. Não funciona. Custa muito dinheiro e não existe mercado para isso. Se pensarmos um pouco, alguém consegue imaginar a fila de barcos a entrar e sair nas manhãs de verão?», ironizou. «Por outro lado, acho que seria um público-alvo incorreto para Vilamoura», admitiu.

Hoje, «estamos a trabalhar com o município de Loulé e com a Agência Portuguesa do Ambiente na infraestrutura de dois lagos de água salgada, na engenharia do fundos, e da parte hidrodinâmica e funcional. Terão embarcações, mas para recreio e lazer», adiantou ao «barlavento».

Questionado sobre esta matéria, o autarca louletano Vítor Aleixo, confirmou que «há pequenos ajustes. Em 1999, as necessidades e os conceitos eram uns, e passados tantos anos, muita coisa mudou. Neste momento, a relação e o diálogo entre a Vilamoura World e a Câmara Municipal de Loulé é excelente e estamos a trabalhar num clima muito construtivo. Penso que as coisas estão a correr bem para que o investidor possa ficar satisfeito».

O que nunca mudou, contudo, foi a contestação dos ambientalistas, sobretudo da associação «Almargem», que em abril de 2014 anunciou a apresentação de uma queixa contra o Estado português junto da Comissão Europeia. Na altura, estava em causa o despacho nº 5191/2014, de 11 de abril, que reconhecia «relevante interesse público» à utilização não-agrícola de 36 hectares de solos abrangidos pela Reserva Agrícola Nacional (RAN). Na altura, a «Cidade Lacustre» previa três lagos, mais de 2490 residências, dois hotéis de cinco estrelas e zonas comerciais e dois aldeamentos. Hoje, Juan Gómez-Vega tem 650 mil metros de área disponível para construir.

Complexo «Uptown» testará o mercado

O primeiro desafio do argentino Juan Gómez-Vega será a coordenação do empreendimento «Uptown», a noroeste de Vilamoura. Serão 280 casas residenciais, 50 apartamentos turísticos e 7000 m2 de lotes a retalho. «Vamos lançar um concurso para o conceito de arquitetura, disputado por uma empresa portuguesa e três internacionais, escolher um parceiro para comercializar os terrenos, e, também, um bom operador para o pequeno boutique hotel familiar, de 25 chaves». Este investimento ronda os 75 milhões de euros. «Na primeira fase, queremos trazer a mercado 70 apartamentos», revelou. O plano é lançar a pré-venda já no verão de 2017 e as primeiras obras até final do ano. O segundo projeto a urbanizar dá pelo nome de «Fairway», ao lado de «L’Orangerie». «Vamos trabalhar em parceria com um investidor que comprou o terreno» para o urbanizar. Estão previstas 85 unidades, destinadas ao mercado residencial. Sob sua gestão, «a principal mudança é que damos um sinal de confiança ao construirmos nós próprios, o «Uptown». É um grande investimento que vai «testar» a viabilidade para a «Cidade Lacustre».

Os mercados-alvo para Vilamoura World

Na opinião de Juan Gómez-Vega, o comprador pós-crise é exigente, conhecedor, e muito ponderado. «Pelo preço de 4000 euros por metro quadrado, o cliente hoje quer algo sustentável e acessos pedestres. O consumidor português não é o mais difícil e são quem procura uma casa maior, 120 m2, para segunda habitação. Os franceses contentam-se com 100 m2 e os britânicos e irlandeses ficam felizes com 70m2. Os orçamentos são semelhantes, com todos a ponderar gastar até 500 mil euros».

O responsável está confiante em relação à retoma do mercado mobiliário. «Pensamos que a procura francesa é consistente e vai continuar a crescer a longo prazo. No entanto, porque é um fenómeno recente, os investidores demoram tempo até decidirem comprar algo. Pelo contrário, o mercado anglo-saxónico, britânicos e irlandeses há muito tempo que conhecem o Algarve. Se virem uma propriedade que gostem, compram-na. Claro que com o Brexit e a desvalorização da libra, pensam duas vezes, já não são tão impulsivos. Depois, temos os escandinavos. Aliás, em fevereiro vamos a uma feira em Estocolmo para quem procura um lugar ao sol. Em termos históricos, aqui em Vilamoura, 50 por cento dos investidores são portugueses, seguidos dos britânicos e irlandeses, e o resto é uma mistura eclética. Claro que nos últimos três anos, o interesse francês é o que mais cresceu», contabilizou.

Marina de Vilamoura inaugura Centro Internacional de Alto Rendimento

O novíssimo Centro Internacional de Alto Rendimento da Marina de Vilamoura, abre esta sexta-feira, 17 de fevereiro. É uma parceria entre a Companhia Náutica e a Marina de Vilamoura, com o objetivo de dar todas as condições de treino e de estágio a atletas de alta competição. Vai disponibilizar uma frota diversificada de embarcações das classes Optimist, 420, 29ers, Laser 4.9, e as classes olímpícas Laser Standart, Laser Radial, Laser 470, e botes semi-rigídos para os treinadores. Funcionará durante todo o ano, embora com um pico entre outubro e maio, altura em que vários países do centro e norte da Europa não têm condições climatéricas e de mar favoráveis. Os estágios poderão ser flexíveis, segundo as especificidades das equipas, a condição física dos atletas, a dieta adequada ao desempenho pretendido, com suporte técnico, teórico e o apoio psicológico. Para já, de 25 a 27 de fevereiro, Vilamoura recebe a 43ª edição da Regata de Carnaval, que este ano terá mais de 500 participantes.

Mais investimento a caminho

Juan Gómez-Vega reconhece todo o mérito à diretora da Marina de Vilamoura, Isolete Correia e à equipa. «Todos os anos melhora a eficiência do serviço» prestado aos navegantes, marinheiros e proprietários das embarcações que aqui atracam. Claro, que apesar da elevada satistafação, as pessoas que nos visitam perguntam quando é que foi a última vez que investimos a sério na marina? Por isso, estamos a iniciar um programa dirigido aos nossos clientes. Estamos a auscultar as necessidades que sentem, a ouvir as sugestões, preocupações e queixas sobre vários aspetos» da operação na marina que conta 825 postos de amarração, e um exclusivo cais VIP para as embarcações entre os 20 e 40 metros. Junto ao «Lake Resort» deverá nascer também um novo «parque de estacionamento» privado. «Estamos a melhorar os aspetos técnicos e funcionais. Queremos dar um novo visual à envolvente. Há coisas que temos de intervir já, até ao verão. Depois, temos projetos que irão demorar mais algum tempo, como o yatch club », que embora não tenha um prazo de conclusão definido, é um investimento estratégico.

Longe estão os anos dourados, «há uma realidade diferente, os pequenos e médios barcos quase que desapareçam com a crise. A equipa tem feito um esforço notável para atrair mais embarcações, mas estamos a pensar em formas de reconfigurar a marina», a médio prazo, de acordo com o input de skippers e proprietários. Esta filosofia também se aplica aos empresários e comerciantes. «A nossa abordagem de comunicação, em geral, é dizer-lhes que nossos parceiros. Decidimos não aumentar as rendas das esplanadas e decks, no último encontro bianual que tivemos. Queremos que tenham um excelente ano, de forma a que em breve, e em conjunto, possamos melhorar o aspeto e atratividade» das lojas, bares e cafés da marina. «Queremos remodelar e uniformizar um pouco a sinalética, como num centro comercial. A ideia foi bem recebida», garantiu o CEO.

Sem interesse no golfe, mas novos operadores são bem-vindos

Para já, Vilamoura World não tem interesse em adquirir os campos de golfe e vê com bons olhos os novos operadores. «Não posso comentar muito sobre isso, mas devo dizer que estes períodos prolongados de inatividade, em que se fazem sempre as mesmas coisas sem se questionar porquê, tudo tende a enferrujar. É bom saber que haja pessoas interessadas em vir e fazer algo de novo, como aconteceu com o Tivoli Marina» recentemente adquirido por uma cadeia hoteleira tailandesa. «Estão a investir no centro de convenções e a melhorar o beach club. Para nós, tudo isso são boas notícias».

Juan explica porquê: «a mudança nas tendências começam com pequenos passos. Vimos isso acontecer em Ibiza. Em 2006 não era muito bom. Hoje alberga os iates mais caros do Mediterrâneo e é a marina mais cara. É muito difícil conseguir mesa nos restaurantes. Isto aconteceu em poucos anos, porque os gestores que mandam na ilha decidiram fizeram uma renovação. Construíram o Ushuaia Ibiza Beach Hotel e a partir daí houve um boom. Não defendo temos de seguir mesmo modelo. Mas é a prova que as coisas podem mudar para melhor. Se os turistas vierem cá no verão, virem clubes modernos na praia, e que os empreendimentos novos estão a ser vendidos com sucesso, percebem que há nova era de Vilamoura e o Algarve, como se fosse um renascer. Mesmo os investidores mais racionais, têm um fator humano. Precisam de se entusiasmar com algo novo».

«As pessoas não querem insegurança. O Algarve, e Portugal em geral, é algo fantástico. Os fluxos turísticos estão vir todos para a Península Ibéria. A segurança e o clima são perfeitos. Recentemente participei num pequeno-almoço com empresários, bancos e imobiliárias, todos portugueses. Eu era o único estrangeiro. Disse-lhes: nós, investidores estrangeiros estamos muito mais otimistas do que vocês em relação ao vosso país! Sim, há ruído político mas, no geral, se olharmos numa perspetiva macroeconómica, o turismo em Portugal tem tudo a seu favor. Se fizer tudo bem feito, teremos sucesso», concluiu.

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