Uma «Praia» entre o lusco-fusco, as demolições e a erosão da memória

A exposição de pintura da farense Ana André dá início ao ciclo de arte contemporânea «Um Certo Ponto de Vista», um projeto da Artadentro que integra o programa «365 Algarve».

É uma série de 25 quadros, feéricos, noturnos, amarelados pela luz da iluminação pública a vapor de mercúrio e com paisagens de uma natureza ferida. A «Praia» de Ana André também não tem banhistas, nem personagens. A exposição inaugura este sábado, 14 de outubro, às 18h00, no Museu Municipal de Faro, e marca também o regresso da associação Artadentro à programação pontual, depois de uma ausência que remonta a 2013.

Vasco Vidigal, curador e um dos mentores deste projeto dedicado à arte contemporânea explica porquê. «Temos estado muito parado devido à falta de financiamento. Tivemos que entrar em hibernação durante boa parte desta crise. Ficámos apenas a dinamizar aulas de pintura. Fizemos do nosso espaço, o nosso atelier e começámos a desenvolver o nosso trabalho de autor. Foi a forma que encontrámos de conseguir resistir, reduzindo tudo ao mínimo. Este ano, como começaram a retomar alguns apoios, resolvemos, recomeçar a atividade, embora de forma tímida. Não nos abalançamos a fazer ainda um programa de exposições sistemático e anual, como fazíamos. Mas aproveitamos estas iniciativas, o 365 Algarve e anteriormente o Programa de Dinamização e Valorização dos Monumentos do Algarve (DiVaM)».

No entanto, nem tudo parou. Ana André retomou os estudos e concluiu a Licenciatura em Artes Visuais na Universidade do Algarve. «Deu-me outro ritmo de trabalho, e aprofundei mais a parte teórica. Foi positivo», diz. Foi também durante este período que a exposição que se prepara para inaugurar foi ganhando forma. «Já há muito tempo que queria fazer um trabalho sobre a praia de Faro. Gosto da arquitetura de algumas das casas que ainda lá estão e de outras que já desapareceram com as demolições. Isso mexeu com as pessoas. Não gosto de outras, horríveis, deveriam ter ido abaixo e não foram. Gosto de ir lá ver as mudanças que vão acontecendo. É um sítio que tem muito a ver comigo, com a minha infância. Há muita memória e muita emoção e isso são boas condicionantes para trabalhar pintura», descreve Ana André ao «barlavento». «Um pouco de recordação e de registo da passagem do tempo».

«Praia» teve um longo trabalho de preparação. Implicou uma recolha fotográfica de quatro anos. «As sessões tiveram, no máximo, uma hora, sempre ao lusco-fusco, durante aquele período em que o sol começa a pôr-se. A cada minuto as cores mudam, e o mundo muda com elas», diz Vasco Vidigal. Mas não é, contudo, pintura clássica, nem figurativa. «Tento fugir a certos clichés, porque há pormenores a que ninguém olha, e que à partida não suscitam interesse, mas na pintura têm potencial. Por exemplo, a forma como a areia está remexida, a forma como a luz incide na areia e as cores que surgem, as sombras das moitas», explica.

«Pintar não é simplesmente reproduzir uma fotografia. Há que perceber o que interessa. São processos que estão a maturar até se perceber o que se quer fazer. O espaço está cheio de marcas, de restos deixados pelas vivências das pessoas que lá habitam ou habitaram. Interessa-me compreender a ocupação do espaço, aparentemente caótica, na qual não há um planeamento visível, mas antes um crescimento orgânico, tal como o crescimento das dunas, das plantas, das marés, dos ventos», acrescenta a pintora.

Mas não deixa de ser uma visão romantizada. Se por um lado a praia é um lugar utópico de bem-estar, de férias, de felicidade, por outro, no contexto local, enfrenta várias problemáticas.

«A luminosidade estranha e fugaz do anoitecer, a mistura entre a luz elétrica da iluminação pública com a luz do final do dia, permite perceber as fronteiras entre o que é o natural e o artificial. Tal como a praia é idealizada como local paradisíaco, na verdade, estamos muito longe da natureza selvagem impecável e há uma pegada humana muito significativa», metaforiza Vasco Vidigal.

A exposição de Ana André fica patente até 3 de dezembro no Museu Municipal de Faro. É a primeira de quatro do ciclo de arte contemporânea «Um Certo Ponto de Vista», um projeto da Artadentro que integra o programa «365 Algarve». Segue-se «Tochas», uma exposição de fotografia de Vasco Célio que resulta de um já longo acompanhar da tradicional festa das tochas floridas, que acontece todos os anos por altura da Páscoa, em São Brás de Alportel. Tem inauguração marcada para 9 de dezembro e ficará patente até 4 de fevereiro. Segue-se «Ar», uma coletiva de desenho que juntará Isabel Baraona, Tiago Batista e Thierry Simões, a partir de 10 de fevereiro. Encerra o ciclo «A primeira pedra», escultura e instalação de Pedro Valdez Cardoso, com data de abertura marcada para 14 de abril de 2018.

«Praia» terá ainda uma apresentação no Museu de Portimão, entre 3 de março e 8 de abril do próximo ano. O Museu Municipal de Faro está aberto de terça a sexta-feira, das 10h00 às 18h00, sábados e domingos das 10h30 às 17h00.

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