Um dos maiores santuários para animais de Portugal está a nascer em São Brás e Loulé

Os trabalhos a cargo da Associação Abrigo dos Animais (Animal Rescue Algarve) já estão em marcha. Estrutura vai albergar mais de 600 animais abandonados e estará pronta em 15 meses.

Os concelhos de São Brás de Alportel e Loulé vão acolher um dos maiores santuários para animais do país graças à generosidade de um privado que decidiu avançar com um «substancial investimento». À frente deste projeto de grande dimensões está o britânico Sidney Richardson, que trocou Essex, no Reino Unido, por Portugal, há 25 anos. «A ideia é construir em simultâneo três abrigos, em diferentes localizações no centro da região algarvia», explica Richardson ao «barlavento».

No total, os equipamentos deverão ter a capacidade para albergar até 600 animais e empregar cerca de 25 trabalhadores. Terão vigilância 24 horas por dia durante os sete dias da semana e pessoal de forma permanente nos locais.

A primeira fase do projeto, chama-se «Cabanita», e destina-se a alojar uma pequena parte dos animais que ali permanecerão temporariamente até serem encaminhados para famílias adotivas, ou novos donos. Deverá estar concluído em outubro no Vale da Galega.

Estudo Conceptual do autor, arquiteto Ricardo Cabeços.

A construção já começou e evolui «a bom ritmo». Estão ainda identificados dois outros locais para acolher as estruturas, embora o projeto ainda esteja sob apreciação. Neste momento, a Associação Abrigo dos Animais (ARA) está em «conversações finais com os municípios de São Brás de Alportel e Loulé» para possíveis parcerias na gestão da estrutura.

A «ARA está prestes a assinar protocolos e iniciar os trabalhos a muito curto prazo», avança Richardson, sendo que o projeto para São Brás de Alportel foi já aprovado em reunião de Câmara pelo conselho executivo, no dia 28 de maio». O município já aprovou por unanimidade na última Assembleia Municipal, na segunda-feira, 25 de junho, o projeto da construção da obra do canil e a sua viabilidade obteve uma declaração de interesse público e municipal. Está agendada para a próxima a assinatura formal do protocolo de gestão do equipamento entre o município e a associação ARA.

«Estima-se que existam cerca de 10 mil animais abandonados só na região do Algarve. Tem de haver uma resposta para este problema. A nossa missão é ajudar os animais abandonados, doentes, maltratados e providenciar assistência veterinária, esterilização, socialização, treino e novos lares junto de famílias definitivas», explica Sidney Richardson, que garante a totalidade do financiamento.

E porque uma das grandes preocupações da ARA é «tratar os animais com dignidade, respeito e conforto» Richardson decidiu «construir do zero um santuário animal de design moderno e ecológico». Na verdade, as estruturas vão ter sistema de esgotos que permite poupar e baixar a despesa corrente de manutenção. Todos os detritos vão passam por um mecanismo de filtragem, que permite reaproveitar a água e reutilizá-la. Também o alojamento onde irão ficar os animais é altamente isolado permitindo assim que se sintam mais confortáveis e possam ter o máximo de qualidade de vida.

As instalações vão incluir uma receção com zona de espera e um pequeno campo de treinos equipado com materiais para proporcionar a interação de pessoas e cães, um departamento veterinário com sala de operações e recobro, áreas para cachorros, adultos e seniores, uma zona de quarentena, e ainda instalações confortáveis equipadas para receber voluntários locais, nacionais e internacionais. Para além dos cães, existirá ainda áreas para alojar felinos.

«Projeto de uma vida» diz Richardson

O clima, golfe e estilo de vida do Algarve foram (e ainda são) os fatores decisivos que levaram Sidney Richardson a mudar-se para o sul de Portugal e investir aqui grande parte do dinheiro que ao longo da vida colocou de parte para apostar numa causa solidária. Em conversa com «barlavento», explica as razões que sustentam este projeto. «Durante toda a minha vida tive a oportunidade de amealhar alguma riqueza. A minha intenção é dividir o meu património entre a minha família e uma associação de caridade», revela. «Há cerca de 12 anos tive a felicidade de resgatar uma cadela espetacular de uma associação local. Tornou-se na minha melhor amiga e mudou a minha vida. Juntando este episódio ao facto de não existirem respostas para a problemática dos animais abandonados neste país, e em específico no Algarve, onde a responsabilidade recai totalmente sobre pequenas associações de animais geridas com escassos recursos, tudo isso fez com que me apercebesse que este era o caminho a tomar. Decidi então, em vez de deixar um testamento com indicações, aplicar o dinheiro ainda em vida, e assegurar-me de que o projeto é realmente construído e colocado em ação». Richardson confidencia que é difícil não se sentir emocionado fala deste santuário mas que «enquanto homem de negócios, nunca nenhum outro projeto me deu tanto prazer concretizar como este. Tem sido muito gratificante. É o grande projeto da minha vida», admite.

ARA vai trabalhar em colaboração com outras congéneres

«Infelizmente, a ARA não representará a solução para todos os animais abandonados do Algarve. Contudo, planeamos alojar temporariamente cerca de 600 animais e encontrar-lhes lares permanentes. Por isso, todo o trabalho não deverá recair apenas sob uma associação. É importante reconhecer o trabalho crucial que outras nossas congéneres estão a fazer neste momento, com menos recursos do que temos. Queremos trabalhar em conjunto pois este é um trabalho que deve ser feito em equipa», defende Sue Sykes, responsável pela gestão do santuário.

«Queremos mudar mentalidades»

Embora os fundos para a construção das três infraestruturas já estejam garantidos, Richardson explica que «de nada serve financiar o desenvolvimento do santuário para 600 animais se o projeto não se mantiver autosustentável a longo prazo. Há que garantir que, no futuro, continuaremos a ter fundos de maneio para gerir a associação. Precisamos de patrocinadores. Responsabilizamo-nos por criar excelentes instalações mas pedimos apoio aos municípios, público e outras instituições. E queremos educar as pessoas e mudar mentalidades. Precisamos do contributo de todos para tornar este santuário sustentável e para sermos uma voz ativa pelos animais no Algarve. Estamos prontos para fazer a diferença e queremos ser uma referência na Europa, pelas nossas instalações de qualidade, boas práticas e pela dignidade com que tratamos os nossos animais», diz.

Projeto já atrai voluntários de todo o mundo

A gestão do santuário está a cargo da inglesa Sue Sykes, cuja equipa tem a responsabilidade de encontrar famílias para os animais acolhidos. «Temos também recebido inúmeros contactos de voluntários de todo o mundo interessados em ajudar. Isto é algo que nos agrada bastante. Providenciamos alojamento e comida em troca da ajuda diária em diversas tarefas», revela. De acordo com Sykes, além da adoção, a intenção é «informar a comunidade acerca da grande necessidade de esterilizar os animais. É difícil mudar a mentalidade das gerações mais antigas por isso queremos apostar sobretudo na educação das novas gerações. Por exemplo, recentemente um rapaz de 11 anos encontrou uma ninhada de cachorrinhos abandonados e deixou-os no veterinário dizendo que sabia que se os levasse para casa que os seus pais os iriam matar. Essa ninhada foi acolhida, recebeu tratamento veterinário e os cachorrinhos encontraram lares definitivos», relata.

Outra ambição da associação Abrigo dos Animais (Animal Rescue Algarve) é permitir «visitas do público e voluntariado de forma a encorajar os animais a socializar com humanos», uma vez que apesar de terem todas as condições de segurança e alimentação garantidas é fundamental a interação com pessoas. «Tenho esperança de conseguir encorajar as escolas a trazer grupos de crianças até ao santuário para que lhes expliquemos a importância de tratar bem os animais e a responsabilidade de possuir um. Assim poderemos mostrar-lhes todas as vantagens de ter um amigo de quatro patas», sublinha.

Como ajudar?

A Abrigo dos Animais (Animal Rescue Algarve) tanto necessita do apoio de empresas e de mecenas como de voluntários simplesmente interessados em interagir com os animais. Quem quiser contribuir com donativos, trabalho voluntário ou informar-se melhor sobre o projeto, a equipa e os cães e gatos para adoção, poderá saber mais através da página da Internet (animalrescuealgarve.com).

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