Um algarvio pelo petróleo

Numa altura em que a contestação domina a opinião pública, Alexandre Guedes da Silva, 52 anos, natural de Portimão, engenheiro naval e docente universitário em Lisboa, é uma voz dissonante. Assume-se como um algarvio a favor da prospeção e da exploração de hidrocarbonetos (gás e petróleo) ao largo da região. Em entrevista ao «barlavento» explica porquê e dá uma outra visão sobre esta problemática, ainda longe de ser consensual.

barlavento: Numa altura e num contexto em que a maioria dos algarvios rejeita qualquer hipótese de ter uma indústria petrolífera a trabalhar ao largo do Algarve, porque motivo se manifesta a favor?
Alexandre Guedes da Silva: A vida ensina-nos muitas coisas ao longo da nossa existência. Fascinamo-nos com o etéreo, com aquilo que nos parece ser uma boa ideia, mas que quando se aproxima da prática, se revela um disparate. E isto vale tanto para o bem, como para o mal. Vale para o progresso, como para o retrocesso. No caso dos hidrocarbonetos no Algarve, o meu ponto de vista é muito prático. Um dos problemas da sociedade é a energia, sermos capazes de pôr a economia a funcionar, com conforto, de deixar para as futuras gerações uma situação de organização de vida mais confortável do que aquela que tivemos. Isso só se faz com energia abundante e acessível. Na Terra, toda a natureza funciona em economia de carbono. Os hidrocarbonetos são energia sob a forma de carbono, que é aquela que nos habituamos a usar, que sabemos utilizar e em termos de desenvolvimento humano foi a melhor otimização energética que conseguimos. Colocar isso em causa hoje, sem termos uma alternativa fiável é, do meu ponto de vista, um erro crasso.

Então e a solução elétrica?
As pessoas não têm ideia que se fechassem hoje todos os postos de abastecimento (bombas de gasolina), não haveria uma rede suficiente para transportar energia necessária para substituir esta fonte. E para tornar essa alternativa viável, teriam de se construir 10 vezes mais postes de eletricidade em cima do território. Claro que hoje ninguém quer ter uma linha de alta tensão por cima do telhado ou à porta de casa. As linhas subterrâneas não são alternativa, pois têm exatamente os mesmos problemas de campos eletromagnéticos. É preciso olhar holisticamente para o problema e perceber que não é uma solução que, à partida parece muito bonita, que vai resolver o problema. A verdade é que a natureza funciona numa economia de carbono. Passar para uma economia do hidrogénio é o sonho dos físicos, mas para já só existe no Sol. Trazê-la para a Terra é possível, é um sonho tecnológico e científico, mas não será para este século, nem para aquilo que são os horizontes da nossa vida. Posto isto, pergunto à sociedade: como é que vai resolver a questão energética? Vai viver pior à espera de um futuro melhor? A esmagadora maioria dos que criticam e contestam a exploração de hidrocarbonetos, na realidade, não têm soluções. Se houver uma solução milagrosa será daqui por muitos anos.

Mas se já importamos petróleo de outros destinos produtores, para quê criar novas infraestruturas aqui no Algarve? É isso que está a ser contestado e é isso que nos traz a esta conversa…
A razão é muito simples. Tem a ver com a riqueza do nosso território, e com aquilo que são as nossas perspetivas de sobrevivência. Devemos utilizar o território que habitamos da forma mais harmónica que a natureza permite. É muito mais harmónico utilizar um recurso endógeno, do que um recurso exógeno. Ao utilizarmos hidrocarbonetos produzidos noutros locais, estamos a consumir uma quantidade enorme de energia. Estamos a transportar um produto que é exógeno, que está a sair de outro sítio, para ser consumido cá. Se precisamos de hidrocarbonetos, deve ser nossa obrigação procurar uma forma de utilizar os recursos que temos aqui, em território nacional. Aliás, a maioria dos hidrocarbonetos viáveis para exploração comercial, nem sequer está em território português. Está na nossa Zona Económica Exclusiva, que nos foi cedida pela ONU. Em terra, a quantidade de hidrocarbonetos dificilmente justificaria uma exploração, porque são reservas pequenas e dispersas.

O que existe ao largo do Algarve?
A cerca de 25 quilómetros de Tavira estão a ser exploradas jazidas de hidrocarbonetos muito antigas. Ou seja, todo o gás natural que é explorado nos campos Poseidon, em águas territoriais espanholas, junto à nossa fronteira, são jazidas de hidrocarbonetos biogénicos, que já foram objeto de uma transformação por bactérias. Já não são termogénicos. Isto significa que têm menor poder calorífico, mas, por outro lado, em termos de derrame, têm zero por cento de óleo. Não é preciso nenhuma proteção especial. É o chamado gás seco. Aquilo que estaria para ser explorado ao largo de Faro, no prospeto «cadelinha», seria algo do mesmo tipo. Nesta zona, se avançarmos em direção a Marrocos, temos jazidas de hidrocarbonetos mais recentes, termogénicos, de gás e óleo. Há vulcões de lama no fundo do mar, cujas emanações são metano e CO2, marcadores ativos de campos de hidrocarbonetos.

A compatibilidade desta indústria com o motor da economia regional, o turismo, é um dos principais argumentos da contestação. Como é que refuta isso?
É muito fácil. Os campos de gás biogénicos, como os que referi, junto a Tavira, não necessitam de infraestrutura pesada. Antes pelo contrário, são estruturas extraordinariamente leves porque é tudo feito no fundo do mar. Toda a instalação que está feita no campo Poseidon não é visível de lado nenhum, a não ser mergulhando a 150 metros de profundidade. É um sistema de bombagem simples e discreto, que está junto ao Parque Nacional de Doñana (no sul da Andaluzia, que se estende pelas províncias de Huelva, Sevilha e Cádis), a 45 quilómetros dos poços, e que permite a recolha do gás. Tudo é feito através de pressão hidráulica. Aquilo que poderia ser o poço «cadelinha», de gás termogénico, por exemplo, está a uma profundidade que não permite qualquer estrutura fixa. Está para lá dos 200 metros de profundidade. Portanto, seriam instalações que estariam ligadas por umbilicais (pipelines) a um navio, ou a uma plataforma flutuante, posicionado por satélite, e que durante toda a sua vida útil estaria a trabalhar exatamente no mesmo sítio. Tais sistemas podem ser desarmados, por exemplo, em caso de tempestade. Podem zarpar para porto seguro, regressar e reconetar tudo de novo. Uma vez descomissionada a exploração, o poço é selado em definitivo. Quando isso acontece, fica apenas uma tampa no fundo do mar. Portanto, querer fazer passar às pessoas a ideia que lhes vão colocar plataformas em frente às praias do Algarve é o mais falso que se pode fazer.

Neste caso, qual a situação previsível ao largo de Aljezur?
Aí a instalação de plataformas de petróleo nunca acontecerá, porque as profundidades de exploração rapidamente chegam aos 1000 metros. O furo «Santola 1X» é ainda mais profundo do aquele que está previsto para Faro. Só poderá ser explorado com um sistema de navios geoposicionados e de pipelines flexíveis. Esse tipo de plataformas que as pessoas veem no Mar do Norte, existem porquê? Porque nessa zona, o mar só tem 70 metros de profundidade. Seria possível montar uma Torre Eiffel. Em Aljezur não existe essa possibilidade. Não há nenhum edifício com mil metros, não é exequível, e é um disparate fazer tal comparação. Hoje em dia há navios, os chamados FPSO (Floating Production Storage and Offloading) que fazem a extração e o processamento do crude, e a sua preparação para transporte. Esta indústria é hoje mais segura que há 30 anos. Há riscos, com certeza, mas nada no mundo é isento de perigos.

Uma das motivações que o leva a refutar a contestação em curso tem a ver com o seu papel no ensino superior, certo?
Sim. Alguns alunos de colegas meus, do Instituto Superior Técnico, do mestrado de Engenharia do Petróleo ficaram apavorados ao ver a sociedade a atribuir-lhes reponsabilidades e culpas das quais eles estão isentos. E não tinham uma voz que os defenda. Estão num período de formação de muitos anos, para no final, estarem aptos a garantir que esta indústria funcionará dentro de padrões de comportamento social e ambiental em vigor, adequados ao mundo atual. Dizer que são más pessoas, é uma afronta. E eu como algarvio, não gostei. E mais. Quando quiseram dizer que todos os algarvios estão contra, há pelo menos um algarvio que tem a hombridade de dizer que concorda que se faça a prospeção. A pesquisa é feita por gente muito competente, muito digna. E as tecnologias utilizadas para profunidades superiores a 2000 metros equivalem às da exploração espacial. Quem quiser dizer que são desleixadas só pode estar a brincar. Qualquer peça para uma plataforma offshore, para o fundo de um poço, qualquer porca, qualquer rosca, custa mais que qualquer automóvel da Tesla. São peças que têm de suportar condições extremas, com precisão máxima e que não podem falhar.

Explicou que as plataformas ao largo do Algarve nunca vão acontecer, mas as pessoas têm medo que haja derrames que destruam e inutilizem as praias…
Dizer que não há risco nenhum é mentira. Dizer que há o risco máximo é uma super mentira. Todos os dias passam mais de 50 petroleiros em frente a Sagres. Portanto, os contestatários têm estado todos a dormir. Segundo a legislação internacional, estes petroleiros navegam em águas internacionais e portanto nós não os conseguimos parar. Já existe ali uma espécie de autoestrada para navios, com canais separadores de tráfego. Mas pode acontecer, a qualquer dia, a qualquer hora, um derrame. É muito mais perigoso um navio que cruza a nossa costa com 100 mil toneladas de crude a bordo concentrado em tanques, do que uma plataforma que faça a extração dessas 100 mil toneladas ao longo de um ano. Acho que as pessoas conseguem perceber isto. Uma plataforma, se tiver um problema, com uma fuga durante dois ou três dias durante o processo de extração, no máximo serão libertadas apenas algumas toneladas. Mas se um destes navios petroleiros tiver um acidente, por exemplo, como o naufrágio do «Prestige», facilmente ocorrerá uma catástrofe ambiental. Portanto, o risco que já corremos hoje em dia, apenas com o trânsito ao largo de Sagres, é infinitamente superior ao de qualquer exploração que aqui possa vir a acontecer. Sendo certo que atualmente, mercê da experiência apreendida, o tipo de controlo que é feito à qualidade dos navios, dos operadores, das tripulações, e também às regras de navegação e aos sistemas auxiliares de controlo de tráfego marítimo, é tudo tão ou mais evoluído que os sistemas aeroportuários. Podemos dizer que o controlo dos navios é tão ou mais rigoroso e rígido que o dos aviões. Estar a querer fazer passar a ideia de que o petróleo ao largo do Algarve é um perigo novo, é uma ideia totalmente errada.

Sabemos que as mais-valias de uma eventual exploração de hidrocarbonetos não vão ficar na região. Será que, em termos económicos, valerá a pena deixar esta indústria avançar na nossa costa?
Tenho sido aplaudido em todos os fóruns de discussão que participei, apesar de me manifestar a favor. Estranho. Um tipo que concorda, ser aplaudido. Porque de facto, há um ponto para o qual chamo sempre a atenção. O contratos que o Estado português assinou, neste caso concreto, remonta ao século XIX. Apesar da jurisprudência em que estão escritos, não são muito maus para o Estado, pois o Government Take (a fatia que as petrolíferas vão pagar ao Estado) é superior a 35 por cento, depois de feitas todas as contas. Quem o diz não sou eu. É o Banco Mundial (World Bank Group) que olhou para todos os contratos que são feitos no planeta e que atribui a Portugal um take na ordem dos 39 por cento. E as petrolíferas sabem disto. Mas então, porque é que digo que os contratos são péssimos? Porque fazem lembrar os assinados para a antiga mina de São Domingos. Foram concebidos segundo a velha lógica de autorizar a exploração de um recurso mineiro, sem pedir nada mais em troca do que um aspeto fiduciário, em forma de taxa ou imposto. Por exemplo, não preveem o destino do gás e do petróleo extraídos no nosso país. É que em vez de as empresas enviarem o crude para uma qualquer refinaria do mundo, porque não serem obrigadas a deixar a matéria-prima em Portugal, de forma a ser criada toda uma cadeia de valor acrescentado? Porque não transformar o crude aqui e vendê-lo no final do processo, já como combustível, que seria uma valorização múltipla do produto? No passado, os minérios de cobre da mina de São Domingos iam em pedra, em bruto. Nada, nada era transformado cá. Agora, estes contratos são para vender, de novo, os nossos recursos a grosso. E isso é mau. Não se olha para a economia como um todo. Nos dias de hoje, copiar um modelo do século XIX é errado. Será que em pleno século XXI, não deveríamos ter feito melhor, olhando para aquilo que são os interesses da região e dos vários stakeholders que trabalham aqui? O grande erro do Estado português foi ter feito os negócios à maneira antiga. Isso é mau e sobretudo não interessa às populações.

Deixe-me fazer a pergunta de outra forma. Quais são as mais-valias destes contratos para as populações do Algarve, e até do país?
Neste momento, as mais-valias para as populações estão nos relatórios de sustentabilidade destas empresas petrolíferas, que publicamente se comprometem em contratar mão-de-obra local e a adquirir produtos e serviços locais. Mas repare, este é um compromisso voluntário. Não é nada a que estejam obrigadas contratualmente. Se em Portugal não contratarem ninguém, paciência, não acontecerá nada. Enquanto português e enquanto alguém habituado aos pressupostos da contratação pública, isso é algo que me choca. Choca-me que o Estado continue a fazer contratos com este tipo de clausulado, que não dá respostas aos anseios das pessoas. Este argumento legitima os protestos dos algarvios. Têm toda a razão em contestar! Explorar sim, mas de forma correta, e com contratos como deve de ser. Estamos a falar de um bem da região, endógeno e que utilizamos, até porque o turismo é o maior consumidor de energia da região. Sem turismo, sem agricultura, sem pescas, esta região não existe. Todas estas atividades precisam dos combustíveis como de pão para a boca.

Segundo a informação que estudou, é viável que em breve haja mesmo uma operação ao largo da costa algarvia? Totalmente viável, tanto na costa sul, nos biogénicos, como na costa oeste, onde existe uma grande semelhança geológica com os Grandes Bancos do Canadá, país que tem a maior fonte de riqueza na exploração dos hidrocarbonetos.
Na realidade, nós estivemos geologicamente ligados aos Grandes Bancos. Toda a costa oeste da Penínsual Ibérica é gémea dos grandes Bancos do Canadá. Era muito azar os hidrocarbonetos terem ficado todos do lado de lá. É claro que podemos ter aqui outro tipo de problemas, como a rocha não ser suficientemente porosa. Eu sou uma parte desinteressada do assunto, não tenho ações da Galp, nem de nenhuma empresa. Mas a ENI, que é quem manda no consórcio, diz que vai fazer os furos. Para a ENI este investimento é muito estratégico, dentro daquilo que é o European Energy Security Strategy (EESS), ou seja, garantir que a Europa é autosuficiente em energia, através da descoberta de novos recursos. É óbvio que nós aqui não sentimos muito a pressão da Rússia, mas toda a fronteira este da Europa sente. Neste momento, quem nos fornece a energia vital são os russos. Se derem um espirro, toda a Europa pára. E isso é perigoso em termos sociais e políticos. Portugal poderia fazer um bom papel se contribuísse para a estabilização deste item essencial para a vida de todos os europeus, identificando as suas reservas. Poderá até nem ter que explorar todas ao mesmo tempo, até porque isso iria criar monoculturas. Tal como acho que não deve haver uma monocultura do turismo, também acho que não deva haver uma monocultura dos hidrocarbonetos. As atividades económicas devem ter um balanceamento, devem ser equilibradas e adaptáveis ao ritmo e às necessidaes das regiões. Com a monocultura do turismo, o Algarve enveredou por uma trajetória muito perigosa, perdeu muitas das suas atividades tradicionais que eram fundamentais para a vida da sociedade.

E que pode dizer em relação ao fracking que também preocupa os algarvios?
Isso só mostra uma enorme ignorância histórica. Tem ideia que o fracking é uma técnica de mineração romana? Foi usada extensivamente em Portugal durante centenas de anos, ao longo do rio Tejo, pelos romanos para extraírem ouro. A esmagadora maioria dos químicos utilizados são detergentes e lubrificantes. Fazem com que a tensão superficial da água baixe. Se a água for muito rija, não consegue penetrar nos poros, chegar a todos o lado. Os romanos injetavam gorduras animais nas rochas. Qual é a diferença entre o fracking e a fraturação hidráulica que os romanos faziam na mineração do ouro? É que não tinham a capacidade de o fazer debaixo da terra. Escavavam muros de derrube, a água vinha de barragens mais altas e faziam-nos cair. Hoje o fracking é feito em profundidade, através de perfuração e de explosivos, tal como na mineração convencional. Duvido que em Portugal nós possamos ter condições para fazer fraturação hidráulica. Há duas ou três zonas onde isso poderá ser equacionado, obviamente que nenhuma no Algarve, porque isso necessita de grandes extensões de veios de xisto termogénico e nós temos pouco.

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